LUTAR CONTRA A POBREZAPor António Neves
Barreiro

Por Jornal Rostos
Hoje gostaria de trazer à reflexão a importância da família, onde a pobreza pode nascer ou ser combatida.
Antes de desenvolver esta ideia, talvez seja útil dizer aos meus leitores que nasci numa aldeia do interior beirão, partilhei a pequena casa e os poucos recursos com dez irmãos, o que, na altura, não era caso raro. Não havia ajudas estatais, vivia-se do mísero salário do pai como mineiro ou jornaleiro, e daquilo que o campo produzia graças à dedicação diária da mãe e dos filhos, à medida que cresciam e saiam da escola.
Os pais, os professores e o pároco eram os educadores comuns, raramente se tornando necessária a intervenção do regedor.
Se e quando acontecia alguma malfeitoria que, individualmente ou em grupo, cometíamos e prejudicava qualquer vizinho, este acorria de imediato a dar conhecimento aos pais dos infratores, relatando o ocorrido, e perguntando se era aquela a educação que dava aos filhos.
Não podia haver pior vexame para um pai ouvir este reparo de um vizinho. E, mal o filho chegava a casa, era o cinto ou a corda que funcionavam, sem outra explicação que não a pergunta: “ É essa a educação que eu vos dou? Eu tinha alguma necessidade de ouvir os vizinhos ? “
Independentemente de se aprovar ou reprovar o contexto em que se era educado, o que importa é considerar o sentido de responsabilidade familiar que toda a aldeia assumia.
Raramente algum jovem se casava sem fazer o serviço militar e sem assegurar um emprego que lhe permitisse começar a pagar um “ assento” onde começava a levantar as paredes de xisto para a sua casa. A colocação do telhado de lousa ou ardósia e as portas e janelas de castanho eram uma festa, e o motivo para a matança de uma cabra, partilhada com todos os que ajudaram no esforço final. O resto, o reboco e o mobiliário, viriam mais tarde, pouco a pouco, muitas vezes só possível recorrendo à emigração.
Vai longe esse tempo, mas alegro-me imenso quando espreito pelo Facebook as partilhas de centenas de conterrâneos da minha geração e seguintes, espalhados por vários locais do país e por vários continentes, que são o melhor testemunho dos valores herdados das sua humildes origens, de famílias ensinadas a construir o seu futuro por sua conta e risco.
Quantos milhões não se investem ou distribuem ano após ano em medidas para combater a pobreza ?
E o que nos dizem as estatísticas? O que nos dizem os responsáveis pelo Banco Alimentar, pela Cáritas, pelas imensas instituições que lidam com a grande parte da população que depende das ajudas do estado? Que há cada vez mais pobres.
Distribuir dinheiro, distribuir “peixe” diariamente, talvez não seja a solução para combater a pobreza. Talvez a solução esteja no ensinar as pessoas a pescar. Os governos fazem parcerias com as empresas para fazer crescer a economia, para aumentar as exportações. Por que não experimentar parcerias com as famílias para as habilitar na construção autónoma e responsável do seu futuro?
Não será possível fazer diretamente essas parcerias com as famílias, mas poderá, aproveitar-se a imensa rede de associações ou instituições de solidariedade social existentes nas autarquias para experimentar novas modalidades de aplicação dos subsídios. Distribuídos casuisticamente, não fazem mais do que alimentar a pobreza, que a aumenta mal deixem de ser atribuídos.
Voltarei ao assunto proximamente.
António Neves














