NEGÓCIO DE LUXO NO LIXO: O MAIOR DESINVESTIMENTO DE SEMPRE NO BARREIROPor Miguel Amaral - Humberto Faísca
Barreiro

Por Jornal Rostos
Tal como o desinvestimento durante décadas no Serviço Nacional de Saúde trouxe dependência de privados e complicações graves (como na altura do Covid), também o desinvestimento do sistema público de recolha de resíduos pode levar a um desastre caso a empresa prestadora do serviço tenha qualquer problema. No entanto, nem todos defendem esta visão. Os actuais responsáveis pelo pelouro na Câmara Municipal do Barreiro têm optado por desinvestir gradualmente no sistema público e têm apostado fortemente na subcontratação do serviço de recolha de resíduos a uma empresa privada.
Em Maio de 2021 o executivo do PS começou por fazer um contrato no valor de 430 mil euros, por um período de 10 meses para o Alto do Seixalinho. Em julho de 2022, decidiram celebrar um novo contrato anual, no valor de cerca de 1 milhão de euros, alargando o serviço para Santo André. Este mês, aprovaram novo contrato no valor de 4,2 milhões de euros expandindo também ao Barreiro e Lavradio para os próximos dois anos. Tudo somado, trata-se de um gasto de quase 5,7 milhões de euros. Isto não contabilizando outros alugueres pontuais de camiões e serviços à mesma empresa no valor de centenas de milhares de euros.
Começaram por chamar a esta operação um “piloto”, no entanto, apesar de constantemente questionados na Câmara e Assembleia Municipais sobre os resultados deste “teste”, os responsáveis nunca elaboraram um estudo de viabilidade económico-financeira do projecto, nem forneceram nunca provas concretas de que a recolha bilateral é mais eficiente, mais eficaz e que garante mais qualidade e satisfação aos barreirenses. Pelo contrário, as queixas dos munícipes com a acumulação de resíduos, com o mau cheiro, com baratas e ratos, são cada vez mais frequentes. Trata-se, portanto de um gasto avultado baseado apenas nos caprichos e na fé do Sr. Presidente da Câmara e do Sr. Vereador do Pelouro, que têm cultivado a prática de não apresentarem informação, não estarem abertos ao diálogo nem à procura de convergências e de concederem a privados todas as operações, terrenos e património municipal que lhes seja possível.
Aquilo a que apelidam constantemente de “o maior investimento de sempre nos resíduos” é claramente uma farsa pois trata-se, na verdade, de um gasto avultado e não de um investimento. Tratar-se-ia realmente de um investimento, se a CMB tivesse comprado os camiões e contentores de recolha bilateral para o município ao invés de pagar, a peso de ouro, um serviço que poderia ser o Barreiro a prestar. Somos, portanto, obrigados a assistir à obsolescência programada dos camiões de recolha traseira da CMB que premeditadamente ficaram ao abandono, inoperacionais, ao ponto de, dos vários carros existentes, circularem frequentemente apenas um ou dois. Acresce que, como forma de justificação deste desmantelamento do sistema público, o Sr. Presidente da Câmara tem colocado o ónus na falta de civismo dos barreirenses ou no (falso) aumento de população (os dados do Censos registam menos habitantes em 2021 do há 10 anos). Tem também, por várias vezes, levantado suspeitas sobre um eventual boicote dos carros por parte de trabalhadores camarários, deixando entender que tenham colocado propositadamente “20 litros de água no circuito de óleo”, que as fotografias de pneus gastos sejam de “um carro que se avariou que partiu o eixo e foi arrastado para chegar às oficinas” ou que quando os carros deixam verter líquido na estrada, tal se deve a ruturas que “parecem feitas com berbequins” – tudo isto sem haver ainda quaisquer resultados de inquérito disponíveis.
Argumentam os responsáveis que existe a possibilidade de a CMB comprar os camiões usados à empresa privada ao fim de algum tempo, mas, mais uma vez, tal não está contratualizado, nem se sabe qual o prazo nem o valor, nem os termos dessa hipotética aquisição de material usado...trata-se, mais uma vez, de um acto de fé do executivo e, a concretizar-se, de mais um péssimo negócio.
Mas, admitindo que a recolha bilateral é mais eficiente e eficaz, qual seria a alternativa? Basta olhar para o outro lado do Tejo. A Câmara Municipal de Lisboa, (bem como outros concelhos no país) comprou há meses, para o domínio público, camiões de recolha bilateral pelo valor de 350 mil euros cada e adquiriu contentores iguais aos do Barreiro por 3150 euros cada. Portanto, já dispondo de trabalhadores municipais para efectuar a recolha, com os 5,7 milhões de euros pagos à empresa privada poderíamos comprar – para o município do Barreiro – sete camiões novos de recolha bilateral mais os 547 contentores de recolha bilateral que a CMB necessita e conseguiríamos pagar a manutenção dos mesmos durante mais de 10 anos. Ou seja, a prolongar-se este negócio, ao fim de 10 anos a CMB terá gastado quase 20 milhões de euros desnecessariamente.
É preciso escrutinar e questionar este negócio de luxo no lixo; é preciso travar o maior desinvestimento de sempre no Barreiro e garantir que aquilo que o Sr. Presidente da Câmara e o Sr. Vereador do pelouro classificam como “uma decisão política” não se torne em mais uma medida precipitada, imponderada, e que sairá ainda mais cara aos barreirenses nos próximos anos.
Miguel Amaral - Humberto Faísca
Vereadores da CDU na Câmara Municipal do Barreiro














