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Quotidianos

JMJ 2023 - UMA PRESPECTIVA DE MUDANÇAPor Luís Batista
Barreiro

"... na Igreja há espaço para todos, todos... ", foi uma das frases que marcou a visita do Papa Francisco a Portugal e que foi proferida na cerimónia de Acolhimento, no Parque Eduardo VII, em Lisboa. Este desafio que tem vindo a ganhar cada vez mais consistência e que surge encadeado na ideia união em torno de uma verdadeira fraternidade.

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JMJ 2023 - UMA PRESPECTIVA DE MUDANÇA Por Luís Batista Barreiro

Por Jornal Rostos

Na sua Encíclica “Fratelli Tutti”, publicada em 2020, o Papa, de forma manifestada e explícita e em tom assertivo, veiculou uma ideia de fraternidade universal, como um vínculo que unificasse todos os seres humanos, independentemente da sua fé, ideologia, cor, pele, origem social, língua, cultura ou nação. Esta forma de abordagem, e por muito que possa incomodar algumas alas mais conservadoras, aproximou o discurso papal do pensamento iluminista e da divisa Liberdade, Igualdade e Fraternidade, que no fundo resume o espírito das Luzes.
Contexto que a própria Igreja durante séculos, e até a um passado bem recente, condenava. Talvez quem sabe vergada a um teimoso e injustificado perpetuar da encíclica Humanos Genus do Papa Leão XIII e do exposto no Syllabus Errorum de Pio IX, onde a Igreja combateu ferozmente esta mesma ideia a que agora o Papa decidiu abrir portas, esta mensagem de Fraternidade entre os Homens.

A este apelo à Tolerância, de respeito pelo próximo está forçosamente associada, não só uma mensagem para dentro da própria instituição católica, como também um apelo ao respeito pelo conceito de liberdade. Uma liberdade que está para lá da ideia convencional do Homem, livre nos seus direitos, mas antes uma liberdade onde lhe seja permitido viver não só a sua espiritualidade em total independência, mas também assumir as suas convicções ideológicas e políticas e, acrescento eu, livre da ameaça do pecado.

São Francisco de Assis, que “se sentia irmão do Sol, do Mar e do Vento” talvez seja a inspiração que o Papa encontrou para este quebrar de barreiras, para esta aproximação entre os homens. Que essa inspiração possa combater ferozmente as trevas e a escuridão que a Igreja teima muitas vezes em perpetuar. Que quebre com o vínculo com as antiquadas encíclicas e decretos papais que maliciosa e perigosamente fundaram, na mentalidade dos seus fiéis, muitos dos fantasmas que ainda hoje habitam no seu imaginário. Fantasmas que muito contribuíram na construção de mitos e de ódios em torno da perseguição jacobina, maçónica, comunista e de todas as correntes sociais e ideológicas que afrontaram a igreja e que esta catalogou como "os males do iluminismo".

Mas Francisco não nos deixou o credo na boca apenas com este desafio. O Papa expressou, "apertis verbis", o desencanto perante uma Europa perdida que navega à deriva, sem um percurso de paz e sem um diálogo renovado que se assuma como veículo para acabar com a guerra, não só na Ucrânia, como em outros conflitos mundiais.
E acrescenta ainda:
"... Que rota segues, Ocidente?

A tua tecnologia, que marcou o progresso e globalizou o mundo, sozinha não basta; e muito menos bastam as armas mais sofisticadas, que não representam investimentos para o futuro, mas empobrecimento do verdadeiro capital humano que é a educação, a saúde, o estado social".

Apesar desta minha assumida e consciente separação face à Igreja e à espiritualidade, reconheço a importância dos desafios e das provocações lançadas. É de todo imperioso para a Igreja Católica não recuar, mesmo que num contexto pós Papa Francisco.

Quanto às imagens desta JMJ 2023, estas ficarão para sempre na história da cidade de Lisboa e do país e talvez, quem sabe, ligadas a um capítulo de mudança, isto apesar de eu não guardar muita esperança em relação à grande maioria dos fiéis.
Já o imenso mar de fé, mesmo que não tenha força para mudar o mundo, pelo que estes dias de introspecção e de união tenham sido mais do que uma feira de vaidades explorada por autarcas e políticos oportunistas e sirva para mudar a forma como todos nós consigamos olhar o próximo e o futuro.
Que esta JMJ de Lisboa seja muito mais do que uns dias onde tudo correu bem.

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