Educação, “contas certas” e PS Barreiro: uma magistral lição de eleitoralismoPor André Carmo
Barreiro

Por Jornal Rostos
Foram também identificados alguns dos motivos da sua luta: recuperação do tempo de serviço, alterações do modelo de recrutamento e democratização das escolas. Saudavam-se professores e educadores do Barreiro, reconhecendo a justeza e adequação das suas reivindicações e exigências, saudavam-se estudantes, encarregados de educação e demais membros das comunidades educativas, pela confiança e solidariedade manifestadas para com os professores e educadores do Barreiro.
Com 13 votos contra e 6 abstenções do PS, os considerandos seriam reprovados. A parte deliberativa seria aprovada, com uma única abstenção do PS. O mais interessante foram os argumentos do deputado municipal do PS que tomou a palavra para intervir sobre esta matéria. Vale a pena transcrever: «a questão é saber se o país tem ou não recursos financeiros e o que é que isso implica em termos de equilíbrio da administração pública total (…) eu fiz as contas quando foi negociado e eu próprio disse lá em casa: – é impossível chegarem todos ao topo da carreira em termos de ordenado porque o Estado não consegue suportar isso e a seguir outras categorias profissionais da Administração Pública, justamente, virão reivindicar o mesmo».
Por outras palavras, se o Estado pagasse o que deve aos professores e educadores estaria a comprometer as “contas certas”. E estas, como é sabido, são a obsessão do PS, a sua cassete, mesmo que isso se traduza numa degradação generalizada da qualidade da provisão pública de serviços essenciais, como a educação. Os ministros da tutela sempre afinaram pelo mesmo diapasão: o orçamento do país não aguenta a recuperação do tempo de serviço. Em 2019, o primeiro-ministro demissionário chegou até a ameaçar demitir-se, se o Parlamento aprovasse essa recuperação. À 25.ª hora, valeu-lhe o apoio da direita. Os bons espíritos encontram-se sempre.
Só que afinal não é bem assim. Depois de sempre ter negado esta possibilidade, bastou um dos candidatos a secretário-geral do PS ter anunciado que pretendia recuperar o tempo congelado de todas as carreiras da administração pública – todas! –, para que o atual ministro da educação dissesse que estava de acordo com esta proposta.
Quer isto dizer que a luta dos professores e educadores, o desgaste profissional e emocional a que foram sujeitos, os efeitos sobre as aprendizagens dos alunos e as consequências disruptivas para a vida das suas famílias, podiam ter sido evitados!? Quer dizer que, afinal, há dinheiro!? Quer dizer que a recuperação do tempo de serviço não põe em causa o orçamento do país!? Quer isto dizer que andámos todos – mais uma vez – a ser enganados!?
E que dizer das contas feitas pelo deputado municipal do PS no Barreiro? Hipocrisia, erro de cálculo ou retórica política daquela que descredibiliza e leva ao descontentamento, que gera ressentimento, desconfiança e que lança um manto de suspeição indiscriminada sobre todas as pessoas que exercem cargos políticos? Daquela que empurra a gente para os vendedores de banha da cobra que, à primeira oportunidade, não hesitarão em destruir a escola pública que consideram ser uma despesa a abater.
É que, não sei se já repararam, o PS Barreiro está ao lado do candidato que prometeu recuperar o tempo congelado de todas as carreiras da administração pública. Está ao lado daquele que hoje diz haver dinheiro para pagar aquilo que ontem quase parecia poder levar o país à bancarrota. Ao lado daquele que, dizendo-se neto de sapateiro, esteve sempre contra os professores e educadores e só agora, entrando na corrida eleitoral, afirma pretender fazer o contrário do que sempre fez. Bravo! Que magistral lição de eleitoralismo.
Por tudo isto, nunca deixo de ficar espantado por saber que existem no Barreiro, vereadores e deputados no PS que, sendo professores e educadores, continuam a confiar nos malabaristas que nunca estiveram verdadeiramente disponíveis para ouvir a classe profissional que integram, muito menos para resolver os seus problemas; que continuam a confiar nos troca-tintas que têm contribuído, ao longo de vários anos, para a desvalorização da escola pública, de professores e educadores e, assim, pôr em causa o futuro das novas gerações; que continuam, enfim, a confiar naqueles artistas do drible retórico que desrespeitam a sua dignidade e insultam a nossa inteligência.
André Carmo
Deputado municipal eleito pela CDU Barreiro














