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Quotidianos

MISERICÓRDIA, de Lídia Jorge.Por Ana Gonçalves
Barreiro

Quando escolhi ler este livro, tinha ideia do que poderia encontrar pela críticas que fui lendo. É fácil entrar na escrita e avançar rapidamente na história do Hotel Paraíso, onde 70 pessoas “repousam” no fim dos seus dias. A escrita é sublime e leva-nos a imaginar a vida daquelas pessoas.

3 min de leitura
MISERICÓRDIA, de Lídia Jorge. Por Ana Gonçalves Barreiro

Por Jornal Rostos

Alguns de nós poderemos desejar que o fim dos nossos dias sejam num lugar como aquele que é descrito, que afinal até tem um nome pomposo, mas a maioria pensa que o que nos espera pode ser bem pior. O nosso encontro com o nosso possível futuro dói, por isso é fácil verter algumas lágrimas de solidariedade para com quem viveu (quantos vivem?) aqueles momentos e experiaenciaram aquele sentimentos.

Sentir que podemos chegar a velhos e ficar despojados da nossa casa, dos nossos espaços, das nossas rotinas, da nossa intimidade, dos nossos pequenos bens materiais, mesmo que insignificantes, dói. Por mais luxuoso que um espaço nos pareça, com mordomias, com pessoas para conversar, com comida na mesa sem ter de cozinhar, nada é quando o espaço não tem a nossa alma, o calor da família, somos obrigados a ver e conviver com pessoas com as quais não nos identificamos, quando a comida está fria e não podemos ser nós a aquecer no microondas.

A perspetiva que vamos tendo, a partir dos olhos de uma utente do lar, faz-nos percorrer os corredores do “Hotel Paraíso” com os vários residentes, as várias empregadas, e até é fácil esboçar um sorriso quando uma delas é apelidada de Bosh, por ser extremamente eficiente, assim como as máquinas alemãs.

Podemos extrair tanto deste livro, tal como passar a ter uma melhor perceção dos sentimentos que as pessoas mais velhas têm quando estão numa residência sénior, como perceber como são sentidas as atitudes dos familiares, dos empregados, ou até a importância que tem (ou não) o mundo exterior. No entanto, por diversas vezes, pensei na fragilidade da vida humana e, em muitas passagens, lembrei-me frequentemente de um poema que adoro, da mesma autora, que li há mais de 20 anos e que agora transcrevo.

“Meus amigos sou de vidro
Sou de vidro escurecido
Encubro a luz que me habita
Não por ser feia ou bonita
Mas por ter assim nascido
Sou de vidro escurecido
Mas por ter assim nascido
Não me atinjam não me toquem
Meus amigos sou de vidro

Sou de vidro escurecido
Tenho fumo por vestido
E um cinto de escuridão
Mas trago a transparência
Envolvida no que digo
Meus amigos sou de vidro
Por isso não me maltratem
Não me quebrem não me partam
Sou de vidro escurecido

Tenho fumo por vestido
Mas por assim ter nascido
Não por ser feia ou bonita
Envolvida no que digo
Encubro a luz que me habita”

Um livro de leitura obrigatória que merece todos os prémios que recebeu.

Ana Gonçalves
Professora de Português
Agrupamento de escolas de Casquilhos

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