ODETE SANTOS - PESAR E HOMENAGEM SINGELAPor Armando Teixeira
Barreiro
Vamos ter saudades de te ouvir camarada Odete Santos.

Por Jornal Rostos
Odete Santos: “Almadanim”
[Três instantes breves de uma vida intensa e dedicada]
- Sessão no Luso F. C. (Barreiro) – 1967
Na rua não se via ninguém, nos degraus de acesso ao popular clube não se via vivalma: “Será que a sessão foi anulada?”. A Pide farejava!
No corredor que conduzia ao ginásio, passados os balneários onde a malta tomava o banho semanal, também não estava ninguém!...
Aberta a porta timidamente chocou a surpresa de um salão completamente cheio a escutar embevecido a música de Carlos Paredes e Fernando Alvim e, logo a seguir, a voz forte e timbrada da jovem com uma bonita figura, anunciada como “a doutora Maria Odete”: - Vou dizer o poema de Manuel da Fonseca, “Mataram a Tuna”:
“Nos domingos antigos do bibe e pião
saía a tuna do Zé Jacinto
tangendo violas e bandolins
tocando a marcha Almadanim”…
Subiu o entusiasmo na plateia e nos aplausos dedicados à mulher que voltaria a declamar emotivamente antes do final apoteótico, com um coro de mil vozes a cantar “Os Vampiros” com o José Afonso. Uma sessão memorável e inesquecível no dia 11 de Novembro de 1967, “baptismo de fogo” de uma geração que fervilhava na ideia de mudar “a pátria vil e triste” que lamentara Camões.
- Sessão na Associação 25 de Abril - 2009
A sala da associação criada por militares que participaram no levantamento patriótico de 25 de Abril de 1974, estava lotada com gente que vivera o infortúnio da Guerra Colonial ou a tal tema era sensível. A sessão estava combinada para as 15:00h, mas foi alterada a ordem na abordagem das memórias extremes das guerras em África, dolorosas ainda na distância temporal.
Finalmente chegou a poetisa convidada, Odete Santos, tivera dificuldades para estacionar na zona do Chiado. A tarde animou-se quando o seu dizer entusiástico encheu a sala e a alma dos presentes: “ De António Gedeão, vou dizer “Fala do Homem Nascido”:
“ Venho da terra assombrada,
do ventre de minha mãe
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém.” […]
“Com licença! Com licença!
que a barca se faz ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.”
Depois dos aplausos calorosos da plateia em pé, abordaram-se com mais vigor as questões candentes da guerra e da paz e a atarde terminou animada pelo cantar vibrante de Francisco Naia. Uma jornada inolvidável!
- Sessão na Festa do Avante! - 2014
Levantaram-se dúvidas em acompanhar com poesia a apresentação do livro “A CUF no Barreiro”, o tempo era limitado. No final das intervenções sobre uma temática apaixonante (o desenvolvimento contraditório do capitalismo no início do século XX em Portugal) passou-se à animação.
A convidada mostrava algumas dificuldades na mobilidade, mas tudo se transformou quando, amparada, começou a dizer um poema com a emoção que Odete Santos sempre punha nas apresentações.
No segundo poema, já empertigada frente à plateia, qual fénix renascida, a “Feira do Livro e do Disco” parou e todo o mundo se juntou na orla do espaço para ouvir a mulher conhecida pela paixão que colocava mas intervenções políticas, na representação teatral ou na declamação: - de António Gedeão, “ Calçada de Carriche”:
“Luísa sobe
sobe a calçada
sobe e não pode
que vai cansada”...
[…]
“Chegou á oficina
à hora marcada
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga”…
[…]
“Salta para a rua
corre açodada,
galga o passeio
desce a calçada”…
[…]
“Sobe, Luísa
Luísa sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada”.
Aplausos generosos para a força da dupla mensagem: de superação física e de esperança/certeza que a liberdade e a democracia (política, económica e cultural) duramente batalhadas, batem forte no coração de muitos portugueses.
Vamos ter saudades de te ouvir camarada Odete Santos.
Janeiro/2024
Armando Sousa Teixeira














