Isso não é nada...Por Ivo Pereira
Barreiro
Quem de nós já não ouviu estas palavras ou até mesmo as disse em voz alta?
Expressões como estas, são usadas diariamente, como que numa tentativa de na sua simplicidade, criar no outro, um poder de cura imediato, colocando resolução ao tormento que carrega consigo.

Por Jornal Rostos
Mas estas palavras não ajudam. Na realidade, geralmente, a quem estas frases são dirigidas, potencia o sentimento de impotência perante a sua condição e aumenta ainda mais a sua percepção de que o seu sofrimento é demasiado para partilhar. Por vezes, promovem o isolamento da pessoa, culpabilizando-se de cada vez que deixa escapar um pouco da sua intimidade.
Frases como essas, são também um indicativo de que quem as profere não aguenta com o sofrimento dos outros tal como não quer lidar com o seu próprio.
Hoje em dia, estamos cada vez mais conscientes de que existe essa coisa chamada de saúde mental e despertos para o quão importante é cuidar da mesma. Ainda assim, esquecemos frequentemente de que além de cuidar da nossa saúde mental, também podemos contribuir para a saúde mental de quem está à nossa volta.
Tentem imaginar-se com um tema que vos frustra. Seja aquela promoção que se calhar nunca vai acontecer ou o aumento de ordenado que parece estar cada vez mais longe e a vida cada dia mais difícil. Ou aquela discussão com o pai ou a mãe, que parece que nunca nos ouvem ou nunca nos ouviram. Ou até a relação amorosa que parece que já viu melhores dias. Ou simplesmente uma tristeza que por vezes aparece e nem percebemos de onde ela vem.
Então tentem imaginar-se a tentar partilhar o que sentem de menos positivo na vossa vida com alguém e essa pessoa desvalorizar os vossos sentimentos com frases como, "Isso são é coisas da tua cabeça"; "Julgas que és só tu assim?"; "Que exagero! Deixa-te mas é disso!"
Quando desvalorizamos os sentimentos dos outros, para além do potencial dano, perdemos também a hipótese de construir ou cimentar relacionamentos saudáveis com benefício para a nossa própria saúde mental.
A vida não é só felicidade, risos e alegria. Todos os sentimentos existem e cumprem a sua função.
Fica o desafio, de tentarmos estar mais disponíveis para ouvir o próximo. Talvez assim possamos também aprender algo acerca de nós mesmos.
Pela sua saúde mental.
Ivo Pereira
Psicólogo Clínico














