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Quotidianos

Eleições 2024: Voto de Protesto ou Voto negativo?Por José Encarnação
Barreiro

Os resultados eleitorais de 10 de março, ainda não completamente apurados, aconselhariam muita prudência e alguma contenção aos supostos ganhadores e aos “profundamente” perdedores.
A minha mãe ensinou-me que: “cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém”.

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Eleições 2024: Voto de Protesto ou Voto negativo? Por José Encarnação Barreiro

Por Jornal Rostos

Uma das primeiras tendências de boa parte da comunicação social, secundada por alguns mais desatentos à esquerda, foi a de evidenciar e crucificar as perdas da CDU e, particularmente sublinhando, do PCP.
Deviam ter mais cuidado nessa apreciação. Sobretudo os mais à esquerda já que boa parte da comunicação social revela ter uma agenda que se subordina aos interesses e desejos dos acionistas (SIC e TVI/CNN). Lamentável é que a RTP lhes siga as pisadas.
O meu foco vai mais para os comentadores e” influencer’s”, supostamente à esquerda.

Vamos com calma. No passado dia 10, votaram mais 750.564 eleitores do que em 2022 e isso é bom.
A abstenção baixou de modo significativo e esse é um dos traços distintivos das eleições. Ninguém, nem as sondagens, vaticinavam tal resultado.
O Partido Socialista perdeu 40 deputados e o CHEGA “ganhou” 46. A AD (PSD+CDS+PPM) teve um aumento “brutal” (?) de 2 deputados. Passou de 74 para 76. É certo que faltam os círculos da Europa e fora da Europa, mas essa realidade não se vai alterar substancialmente.
O PS teve menos 486.649 votos e a AD teve mais 172.543 votos. Por sua vez, o CHEGA teve mais 723.224 votos.
De forma simplista, poder-se-ia dizer que o CHEGA absorveu todos os votos perdidos pelo PS e que a AD conseguiu “umas migalhas” no aumento do número de votantes.

Em termos percentuais, Bloco de Esquerda não subiu significativamente, o IL manteve-se, o PAN parou de crescer, o LIVRE subiu “estrondosamente” e a CDU perdeu 34 mil votos (- 1.09%).
O PS baixou de 41,68% para 28,66%, a AD subiu de 27,81% para 28,63% e foi o CHEGA que teve o maior aumento: 7,15% para 18,06%. O LIVRE passou de 1,28% para 3,26% e a CDU que baixou de 4,39% para 3,30%.
Em face destes valores afinal quem é que “alimentou” o CHEGA? Foi a CDU, como alguns querem fazer crer, ou foi o PS e a diminuição da abstenção? Quem fez “perder” a esquerda não foi a CDU.

A vitória de “Pirro” da AD é isso mesmo. AD mais IL não conseguem, apesar dos elogios da imprensa, maioria absoluta. Balsemão e Mário Ferreira não podem, apesar de “vitoriosos”, cantar de galo.
Sem pretender acicatar ânimos ou acirrar divergências, quem tem de reflectir profundamente, para além da CDU, é o Partido Socialista. A direita “ganhou”, mas não à conta da CDU.
Aceitar esta realidade é determinante para encarar os tempos futuros.
Os votos no CHEGA não são só nem fundamentalmente, votos de protesto. São eminentemente votos negativos.
São votos de desencanto e de protesto face às políticas impopulares e de não resolução de muitos problemas por parte da maioria absoluta do PS.

Face ao previsível agravamento das condições de vida e de trabalho que um governo AD com apoio do CHEGA irão prosseguir, ir-se-á colocar a necessidade de prosseguir a luta e a resistência dos trabalhadores e das populações pela resolução dos problemas.
E, nessa luta e nesse protesto, iremos encontrar milhares e milhares de pessoas que votaram CDU, BE, PAN, LIVRE, IL, PS, AD e CHEGA. Ensina-nos o passado mais recente e o passado mais longínquo que os limites e contornos dos votos não anulam nem iludem os problemas.
A correlação de forças no plano eleitoral não esgota nem anula a correlação de forças no plano social.
O papel dos democratas, à esquerda, é saber congregar, interpretar e potenciar duas coisas: uma certa vontade e expectativa de mudança que a distribuição dos votos evidenciam e o mais que previsível agravamento dos problemas que lhes deram origem.
Pode-se enganar uma pessoa por algum tempo, podem-se enganar várias pessoas por muito tempo, mas não se podem enganar todas as pessoas por todo o tempo.

Aos mais tristes e desiludidos desejo um período de “nojo”. Aos que têm certezas aconselho calma e prudência. Aos que não desistem recomendo frieza, a tranquilidade possível e sobretudo que não desistam.
Sendo, desde sempre, um apoiante da CDU não me é indiferente a perda significativa do PS que faz falta à esquerda e desde que se assuma, coerentemente como tal.
Nos tempos mais próximos o PS tem todas as condições e a obrigação de levar a cabo uma oposição vigorosa e assertiva. A começar pela próxima escolha sobre o Novo Aeroporto de Lisboa e a estar alinhado na luta pela defesa de melhores salários, pelo Serviço Nacional de Saúde e pela PAZ na Europa e no Mundo.
Aos democratas cabe estarem atentos e vigilantes quanto aos tempos que aí vêm.
Não se iludam os que pensam que o não é mesmo um não. Quaisquer ingenuidades acabarão por beneficiar “o infractor”. Quem, de forma activa ou objectivamente convergente levou a este desfecho (demissão do governo e novas eleições) esperaria, certamente, um outro resultado.

Aqueles que esperavam a estabilidade desejada e a paz dos cemitérios, estão à beira de se enganar.
Como me ensinaram, de alguma forma dialética, “até nas lixeiras nascem flores”. Parafraseando um ditado popular: “Não há mal que sempre dure e bem que nunca se acabe.
Há uma direita em Portugal que não pode cantar vitória. Quanto muito ficará refém dos “modernos fascistas”.
*José Encarnação, activista social e apoiante da CDU

Barreiro, 12 de março de 2024

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