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Quotidianos

EM ABRIL OU EM NOVEMBRO É SEMPRE CEDO!Por Armando Sousa Teixeira
Barreiro

O AVANÇO DA CONTRA-REVOLUÇÃOO é o primeiro de dois artigos sobre o período histórico que estamos a relembrar 50 anos passados, vivido então intensamente e recordado com a verdade a que a Revolução de Abril nos obriga.

4 min de leitura
EM ABRIL OU EM NOVEMBRO É SEMPRE CEDO! Por Armando Sousa Teixeira Barreiro

Por Jornal Rostos

I. O AVANÇO DA CONTRA-REVOLUÇÃO
Desta vez Alberta tinha o compromisso maternal de puérpera ainda em período de amamentação, e não viria à concentração no Terreiro do Paço onde continuavam a chegar os manifestantes vindos da Rua Augusta e da Rua do Ouro.
Dezenas de milhares de participantes com os seus cartazes e panos identificativos e as comuns palavras de ordem, desaguavam no grande terreiro que ia ficando repleto num mar de gente a perder de vista.
João não era especialista em acrobacias, mas não resistiu a subir para o ressalto de um candeeiro metálico característico da praça, à beira da paragem dos eléctricos, aproveitando uma caixa de regulação do abastecimento de energia eléctrica.
O que se divisava dali era uma enorme mancha humana alongando-se até ao Cais das Colunas, cem mil presenças foi o número que lhe ocorreu à mente, uma enorme mobilização naquele final do mês de Outubro, quando as notícias soavam preocupantes devido aos avanços da contra-revolução por várias vias do tortuoso caminho do processo revolucionário em curso.
Empoleirado em equilíbrio instável recordava alguns registos e acontecimentos significantes:
- A divisão entre os militares de Abril, principais garantes da revolução democrática, a partir do Manifesto do chamado “Grupo dos Nove”, de 7 de Agosto.
- Os atentados bombistas no centro e no norte do país, levados a cabo desde Junho pelo ELP e o MDLP, contra sedes do PCP e do MDP.
- A mobilização de caceteiros contra a Reforma Agrária, conduzidos pela CAP no norte do distrito de Lisboa e no Ribatejo.
- A unidade espúria do PS de Mário Soares com a direita e a sua expressão concreta no Comício da Alameda D. Afonso Henriques, em Junho p.p.
- A sabotagem económica de patrões e outros vilões do capitalismo caseiro acossado e do europeu imperialista e intervencionista.
- As ameaças belicistas e as interferências da “inteligência” estrangeira (CIA e britânicos).
- O laxismo e a indisciplina fomentada nos quartéis e a acção destruidora oportunista nalgumas escolas, do radicalismo pseudo-revolucionário (MRPP e ml’s vários).
- A destituição do V governo provisório do general Vasco Gonçalves e a nomeação do VI Governo, com o almirante Pinheiro de Azevedo, em 19/9/75.
- A conspiração contra-revolucionária que medrava à sombra da divisão dos militares, e as ilusões “putchistas” aventureiras de sectores pseudo-revolucionários e de extremados confusionistas.
- A previsível precipitação dos acontecimentos, previamente preparados pelos militares contra-revolucionários “moderados”, a pretexto da “conspiração comunista” e da criação da “Comuna de Lisboa” pela “esquerda militar”.
*

Apesar da força que imanava daquela imensa concentração e dos discursos cheios de esperança, uma percepção angustiante assaltava o espírito do jovem ex-miliciano que enveredara pelo ensino, após regresso da Guerra Colonial, numa experiência profissional muito interessante, no agitado mundo das escolas secundárias em efervescência e em transformação radical para o ensino unificado.
Os semblantes sérios dos que estavam por perto e não ligavam muito aos altifalantes, conversando em grupos circunspectos, davam a dimensão das preocupações que a situação política gerava. Ainda há pouco, enquanto vislumbrava a imensa concentração em cima do ressalto do candeeiro de iluminação, que entretanto acendera uma luz mortiça lá no alto, dentro do globo translúcido frio e inacessível, elencara mentalmente os acontecimentos recentes do avanço da contra-revolução,
Algo no cérebro lhe dizia que apesar daquela enorme mole humana, a revolução corria risco de morte e não sendo supersticioso, pressentia que aquela seria a última vez que ali se encontraria tanta gente a defender Abril.
Um imenso calafrio percorreu-lhe o corpo. A tarde do dia 23/10/75 não estava fria, o Sol raiara até declinar a Oeste, num horizonte vermelho avassalador, a cor da esperança nas transformações revolucionárias no velho e agitado país à beira Atlântico, no extremo da Europa expectante em relação à revolução mais avançada da segunda metade do século XX.
Eram quase nove horas, saiu da praça lentamente pelas arcadas laterais até à estação do Sul e Sueste, para a viagem de regresso à margem esquerda e à sua condição subsistente em casa dos progenitores no bairro operário e solidário.
Alberta estranhou o seu semblante triste e preocupado, questionando:
- Como esteve a manifestação, não teve muita gente?
- O Terreiro do Paço estava cheio, uma grande jornada! Mas temo que já não seja suficiente para defender a Revolução de Abril.

Armando Sousa Teixeira

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