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Quotidianos

Quando a cidade muda, a educação decide quem avançaPor António Matias Lopes
Barreiro

Num Barreiro em transformação, a educação revela como a gentrificação, a desigualdade económica e a governação municipal estão hoje profundamente interligadas.
O Barreiro está a mudar. A transformação urbana em curso, visível na valorização do território, na alteração do perfil demográfico e na crescente integração metropolitana, não é uma hipótese futura: é uma realidade presente.

6 min de leitura
Quando a cidade muda, a educação decide quem avança Por António Matias Lopes Barreiro

Por Jornal Rostos

Esta mudança, porém, não é neutra. Produz efeitos sociais concretos e cumulativos e, entre todos eles, o mais determinante manifesta-se no campo da educação.
Tudo o que está em causa neste debate, gentrificação, mobilidade social, ensino público e privado, continuidade educativa, universidades e acessibilidades, converge num único ponto central: quem tem hoje acesso à educação de qualidade no Barreiro e quem começa já a ficar excluído dela.

Educação como eixo estruturante da cidade

A educação não é um setor isolado nem um dossiê administrativo. Em cidades em transformação acelerada, ela funciona como a infraestrutura social decisiva. É através da educação básica, secundária e da continuidade formativa que se constrói mobilidade social, se fixa população qualificada e se evita a fragmentação urbana.
Quando a qualidade da educação varia excessivamente dentro do território, o resultado é previsível: a educação deixa de funcionar como elevador social e passa a atuar como mecanismo de seleção indireta, separando quem pode escolher de quem apenas aceita o que existe.
Este fenómeno não nasce de uma decisão ideológica. Resulta de ausência de governação educativa estratégica.

Família, mérito e desigualdade de partida

A educação começa na família. É aí que se formam valores, hábitos de estudo, ambição e disciplina. Nenhuma política educativa séria pode ignorar este papel estruturante. Mas nenhuma cidade responsável pode aceitar que o sucesso educativo dependa sobretudo da capacidade económica das famílias.
Quando o sistema educativo da cidade é insuficiente ou desequilibrado, as famílias com mais recursos encontram alternativas. As restantes ficam dependentes de uma oferta que não acompanha a transformação social. O mérito deixa então de ser critério suficiente e passa a estar condicionado pelo ponto de partida.
Neste contexto, a liberdade de escolha transforma-se, silenciosamente, em desigualdade estrutural.

Gentrificação e educação: a ligação que já existe

A gentrificação não começa na escola, mas acaba sempre por passar por ela. À medida que uma cidade se valoriza e atrai novos residentes com maior capital económico e cultural, as expectativas educativas aumentam. Quando o sistema público não responde com qualidade, exigência e diversidade suficientes, o mercado ocupa esse espaço.
O resultado é conhecido:
• o acesso à educação de maior qualidade passa a depender do rendimento;
• a cidade divide-se entre quem pode escolher e quem não pode;
• a desigualdade consolida-se nos percursos educativos das crianças.
Não se trata de condenar o ensino privado nem de questionar a liberdade das famílias. Trata-se de reconhecer um facto sociológico elementar: quando o acesso à educação de qualidade depende do rendimento, a exclusão deixa de ser exceção e passa a ser regra silenciosa.

Ensino público e privado: o falso debate

O debate entre ensino público e privado é frequentemente mal colocado. O problema não está na existência de oferta privada, que é legítima e faz parte de uma sociedade plural. O problema surge quando o ensino público deixa de ser referência de qualidade, empurrando sistematicamente as famílias para soluções externas.
Uma cidade bem governada não opõe modelos. Garante que:
• o ensino público não exclui quem dele depende;
• o ensino privado não se torna a única via de acesso à qualidade;
• a educação não se transforma num marcador social permanente.
Quando isso não acontece, a gentrificação consolida-se não apenas no território, mas na própria estrutura social da cidade.

A responsabilidade política da Câmara Municipal

Neste contexto, a responsabilidade da Câmara Municipal é direta e inalienável. Não como simples gestora de edifícios escolares, mas como autoridade política responsável pela governação educativa do território.
Num cenário de transformação urbana, compete à Câmara:
• antecipar os impactos sociais da valorização da cidade;
• garantir que a oferta educativa acompanha essa mudança;
• impedir que a educação se torne um fator de exclusão económica;
• pressionar politicamente o Estado sempre que os recursos não acompanham as necessidades reais;
• integrar educação, urbanismo e política social numa estratégia coerente.
A omissão, em educação, é sempre uma decisão política, e com efeitos duradouro

A realidade do ensino superior no Barreiro: uma base técnica, não um ecossistema universitário

O Barreiro dispõe de uma instituição de ensino superior relevante e que deve ser reconhecida com rigor: a Escola Superior de Tecnologia do Barreiro, unidade orgânica do Instituto Politécnico de Setúbal. A sua atividade, centrada nas áreas da engenharia e das tecnologias, como Engenharia Civil, Biotecnologia, Química e Bioinformática, representa um contributo importante para a formação técnica e científica de nível superior na cidade.
Este trabalho não deve ser desvalorizado nem politicamente instrumentalizado. Pelo contrário, constitui uma base sólida de formação especializada.
Mas é precisamente aqui que importa ser claro: o Barreiro não tem uma universidade nem um ecossistema universitário completo. A presença de uma escola superior especializada, integrada num politécnico sediado noutro concelho, não substitui a diversidade disciplinar, a massa crítica científica e a capacidade de atração de talento que caracterizam uma verdadeira cidade universitária.
Esta ausência tem consequências diretas: limita a continuidade dos percursos educativos, fragiliza a retenção de jovens qualificados e reduz a capacidade da cidade em articular educação, investigação, inovação e desenvolvimento urbano.
Criar condições para evoluir de uma presença técnica pontual para um ecossistema universitário e científico mais amplo não é um capricho académico. É uma escolha política estratégica, e uma responsabilidade direta da Câmara Municipal enquanto gerente urbana.

Acessibilidades como fator de exclusão educativa

As acessibilidades não são aqui um tema lateral. São um fator direto de acesso à educação. Quando o acesso a escolas, instituições de ensino superior ou projetos educativos exige deslocações difíceis, longas ou dispendiosas, a desigualdade reforça-se.
A falta de acessibilidades eficazes traduz-se, na prática, numa forma indireta de exclusão educativa. Sem mobilidade, não há igualdade de oportunidades.

Educação: a linha que separa inclusão de exclusão

Em última instância, este não é um debate sobre urbanismo ou infraestruturas. É um debate sobre educação e sobre o papel que a Câmara Municipal quer assumir na formação das próximas gerações do Barreiro.
Quando a transformação urbana não é acompanhada por uma política educativa forte, exigente e inclusiva, a cidade muda — mas não para todos.
Como sublinha Manuel Castells, o poder nas sociedades contemporâneas organiza-se cada vez mais em torno da capacidade de controlar fluxos de conhecimento, informação e decisão
As cidades que não entram nesse circuito não ficam fora do sistema, ficam dependentes dele.
É precisamente essa capacidade educativa, estratégica, política e institucional, que hoje se exige à Câmara Municipal do Barreiro.

António Matias Lopes

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