Um humanista chamado Padre Abílio MendesPor Cláudio Anaia
Barreiro

Por Jornal Rostos
Este artigo não é uma biografia exaustiva, nem um memorial fechado sobre si próprio. É, antes, uma leitura social e política de uma vida marcada pela coerência entre a fé professada e a ação concreta. Uma recordação assumidamente incompleta, mas consciente da importância histórica e cívica de Abílio da Silva Mendes, figura incontornável da história do concelho do Barreiro.
Abílio da Silva Mendes nasceu em Mira de Aire, a 12 de março de 1886, no seio de uma família católica devota. Aos catorze anos entrou no Seminário de Leiria e, em 1904, foi transferido para o Seminário de Santarém. A instauração da República, em 1910, e a separação entre a Igreja e o Estado conduziram-no ao exílio no Brasil, experiência que marcaria profundamente o seu percurso humano e social.
No Brasil, passou por Aracaju, no estado de Sergipe, por Campos dos Goytacazes e por Juiz de Fora. Foi em Campos dos Goytacazes que tomou contacto com o escutismo, vindo a fundar, em 1921, o Grupo 11 da Associação dos Escoteiros Fluminense. Mais tarde, em Juiz de Fora, assumiu o cargo de Reitor do Seminário local, função que exerceu até 1932, ano do seu regresso a Portugal.
De volta ao país, aceitou o convite do Cardeal Cerejeira para dirigir a Paróquia de Santa Cruz, no Barreiro. A sua presença marcou profundamente a vida religiosa, social e associativa da cidade. Fundou várias unidades escutistas e tornou-se uma referência moral e humana muito para além da comunidade crente.
Mais do que fundador de estruturas, o padre Abílio Mendes destacou-se pela coragem cívica, pela leitura social do seu tempo e por uma entrega total aos mais pobres. Viveu uma fé encarnada, feita de gestos concretos e silenciosos. Era conhecido por tirar de si próprio para dar aos outros, por partilhar o pouco que tinha com quem nada possuía, numa lógica de proximidade e de dignidade, nunca de caridade distante.
Essa dimensão social caminhava lado a lado com uma clara consciência política do seu tempo. Durante a greve de 1943, conseguiu conter represálias políticas sobre escuteiros operários ligados à CUF, num contexto de forte repressão. Teve igualmente um papel determinante na defesa do escutismo no Barreiro, preservando espaços de autonomia, liberdade e formação cívica numa época marcada pelo autoritarismo.
Estes factos mostram que o padre Abílio Mendes não viveu uma fé desligada da realidade social e política. Pelo contrário, compreendeu que a neutralidade, em determinados contextos históricos, equivale à cumplicidade. Sem discursos inflamados nem protagonismos, assumiu posições concretas que protegeram pessoas reais e afirmaram valores essenciais como a justiça, a dignidade do trabalho e a solidariedade.
Faleceu em fevereiro de 1953, após doença prolongada, no Hospital Saint Louis, no Bairro Alto. Em 1959, a Câmara Municipal do Barreiro decidiu erguer uma estátua em sua homenagem, reconhecendo publicamente o impacto profundo que teve na vida da cidade.
Recordar hoje o padre Abílio Mendes é mais do que um exercício de memória. É afirmar que há formas de viver a fé que incomodam, que questionam e que se comprometem com a transformação social. É reconhecer que a espiritualidade, quando é autêntica, tem inevitavelmente uma dimensão social e política, porque interfere na forma como olhamos o outro e como organizamos a vida em comunidade.
Num tempo de crescente individualismo, descrença e afastamento da vida cívica, o exemplo do padre Abílio Mendes permanece atual e necessário. Talvez mereça, finalmente, um estudo mais aprofundado e sistemático, à altura da sua importância histórica. Por agora, fica esta homenagem sentida a um homem que fez da fé uma prática diária de justiça e de entrega aos outros, para mim foi uma das maiores figuras do Barreiro.
Cláudio Anaia
Militante da Justiça e Direitos Humanos
www.relances.blogspot.com














