Quando um município quer transformar-se: o exemplo do Fundão e o que o Barreiro pode aprenderPor António Matias Lopes
Barreiro

Por Jornal Rostos
No entanto, de tempos a tempos surgem casos que desmontam essa narrativa. O Fundão, durante os mandatos de Paulo Fernandes, é um desses exemplos.
Não se trata de construir mitos políticos nem de afirmar que uma cidade pode resolver todos os seus problemas apenas com vontade. Trata-se de reconhecer que, quando um executivo municipal assume verdadeiramente o mandato que lhe foi confiado pelos eleitores, pode alterar profundamente o rumo de um território. E é precisamente essa reflexão que importa fazer hoje quando olhamos para o contraste entre o Fundão e o Barreiro.
se o Fundão conseguiu, o Barreiro não pode continuar a dizer que não consegue.
Mais do que isso: o Fundão partiu de uma base estruturalmente mais frágil do que o Barreiro. Tem cerca de 28,1 mil habitantes, densidade muito baixa, salário médio mensal de 983,4 €, índice de envelhecimento de 282,7 e, ainda assim, apresenta crescimento migratório positivo de 0,91%. O Barreiro, pelo contrário, tem cerca de 76 mil habitantes, maior massa crítica urbana, salário médio mensal de 1,16 mil €, ligação fluvial ao Terreiro do Paço em 20 minutos, e mesmo assim regista crescimento migratório negativo (-0,11%). Ou seja: o Barreiro tem mais escala, mais proximidade metropolitana e mais acessibilidade, mas não converte essas vantagens em tração estratégica.
É aqui que a comparação com Paulo Fernandes e o Fundão ganha densidade política. O que o Fundão demonstrou não foi um milagre. Demonstrou outra coisa: governação com direção, uma narrativa clara de território e um dispositivo de execução persistente. Desde 2012, o Fundão desenvolveu uma estratégia territorial que, segundo a European Urban Initiative, conduziu à criação de mais de 1.000 empregos qualificados em TIC, 250 projetos de investimento e à atração de residentes de mais de 70 nacionalidades. O próprio ecossistema “Move to Fundão” continua a apresentar o concelho como casa e local de trabalho para pessoas de mais de 70 nacionalidades, e o município manteve em 2025 a sua aposta de posicionamento tecnológico, incluindo presença na Web Summit e reforço do Centro de Acolhimento de Empresas Tecnológicas.
O mandato político como compromisso real
Um mandato autárquico não é apenas uma função administrativa. É um contrato político com os cidadãos.
Os eleitores não elegem um executivo para gerir rotinas burocráticas. Elegem-no para transformar o território, para construir futuro, para mobilizar recursos e para defender a posição da cidade perante o Estado central.
Quando um presidente de câmara é reeleito sucessivamente, como aconteceu com Paulo Fernandes no Fundão, isso não significa apenas continuidade política. Significa algo mais profundo: um voto reiterado de confiança da comunidade local.
Essa confiança não nasce do acaso. Constrói-se através de três fatores fundamentais:
• visão estratégica clara para o território
• capacidade de mobilizar investimento e talento
• credibilidade institucional perante o Estado e os investidores
Foi exatamente essa combinação que transformou o Fundão num caso estudado em políticas públicas.
O Fundão: de território periférico a laboratório de inovação
Durante muito tempo o Fundão era visto como uma cidade típica do interior português: perda demográfica, economia agrícola frágil e escassa capacidade de atração de investimento.
O que mudou?
Mudou sobretudo a atitude política do executivo municipal.
Sob a liderança de Paulo Fernandes, a autarquia assumiu um papel que muitas câmaras evitam assumir: o de promotor ativo do desenvolvimento económico.
A estratégia passou por três eixos fundamentais.
1. Economia digital e atração de talento
O Fundão tornou-se um caso inesperado na economia portuguesa ao criar um ecossistema tecnológico no interior do país.
A autarquia não esperou que o mercado resolvesse o problema.
Criou incubadoras, estabeleceu parcerias com universidades e desenvolveu políticas ativas de atração de empresas tecnológicas.
O resultado foi a instalação de centros de desenvolvimento digital e a fixação de jovens qualificados numa região que antes os perdia sistematicamente.
2. Política ativa de imigração e integração
Outro passo decisivo foi a capacidade de enfrentar um problema que muitos municípios ignoram: a falta de mão-de-obra e o envelhecimento populacional.
O Fundão adotou uma política municipal de integração de comunidades estrangeiras, particularmente ligadas à agricultura e à tecnologia.
Em vez de ver a imigração como um problema, a autarquia tratou-a como uma oportunidade de revitalização económica e demográfica.
Hoje o Fundão é frequentemente citado como um exemplo de integração multicultural em território de baixa densidade.
3. Construção de marca territorial
Finalmente, o município percebeu algo essencial na economia contemporânea: as cidades competem entre si.
Projetos como as Aldeias do Xisto e as Aldeias Históricas de Portugal não são apenas iniciativas turísticas. São estratégias de posicionamento territorial, capazes de atrair visitantes, investimento e notoriedade internacional.
A confiança do Estado
Quando um município demonstra capacidade estratégica, o Estado central tende a confiar mais nele.
Foi precisamente isso que aconteceu com Paulo Fernandes, que depois de vários mandatos autárquicos assumiu responsabilidades em estruturas de coordenação regional ligadas à Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro.
Este facto revela algo importante: a credibilidade institucional constrói-se através de resultados concretos.
Um autarca que demonstra capacidade de transformar o território passa a ser visto como um parceiro estratégico pelo Governo.
E o Barreiro?
A comparação com o Barreiro é inevitável.
O Barreiro possui vantagens territoriais que o Fundão nunca teve:
• proximidade a Lisboa
• ligação direta ao estuário do Rio Tejo
• tradição industrial
• localização estratégica na Área Metropolitana de Lisboa.
• Em teoria, estas condições deveriam colocar o Barreiro numa posição privilegiada para atrair investimento, inovação e novos residentes.
Contudo, a realidade tem sido diferente.
O Barreiro continua frequentemente prisioneiro de uma narrativa de potencial não realizado. Fala-se das oportunidades, mas essas oportunidades raramente se traduzem numa estratégia económica consistente.
A diferença essencial: vontade política
O contraste entre os dois casos não está na dimensão das cidades nem na geografia.
Está na determinação política do executivo municipal.
Quando um executivo acredita verdadeiramente na transformação do território, ele:
• procura investimento
• constrói alianças institucionais
• mobiliza universidades e empresas
• cria projetos estruturantes.
Quando não o faz, a cidade limita-se a administrar o presente.
Conclusão
O caso do Fundão demonstra uma lição simples, mas poderosa: quando um executivo municipal quer cumprir a missão que lhe foi confiada pelos eleitores, o território pode transformar-se profundamente.
Não basta afirmar que existem diferenças entre municípios.
É necessário olhar para os fatores que constroem confiança política:
• visão estratégica
• capacidade de execução
• credibilidade institucional.
Se o Barreiro quiser recuperar protagonismo na região metropolitana de Lisboa, terá inevitavelmente de enfrentar essa mesma questão: não o que poderia ser feito, mas o que realmente está a ser feito para cumprir o mandato dos seus cidadãos.
Antonio Matias Lopes
Março 2026














