Celebrar Abril é renovar o compromisso democráticoPor – Paulo Margalhau
Barreiro

Por Jornal Rostos
Não sob a forma de tanques na rua ou comissões de trabalhadores, mas sob a forma de desconfiança institucional, fragmentação partidária e procura difusa de novos mediadores políticos. O passado não se repete, mas as estruturas profundas das sociedades persistem.
Durante décadas, a democracia portuguesa assentou num compromisso silencioso entre liberdade política e estabilidade institucional. Esse equilíbrio, construído após o fim do Estado Novo, permitiu crescimento económico, integração europeia e consolidação do Estado social.
Em troca, aceitamos uma democracia mediada por partidos, tecnocratas e instituições representativas. Hoje, esse contrato implícito está sob pressão.
Nas últimas duas décadas, a taxa de abstenção eleitoral manteve-se estruturalmente elevada, ultrapassando frequentemente os 40% em eleições legislativas e aproximando-se ou superando os 50% em eleições europeias. Ao mesmo tempo, o sistema partidário tornou-se mais fragmentado. Partidos que durante décadas estruturaram a alternância perderam peso relativo, enquanto novas forças políticas passaram a representar parcelas relevantes do eleitorado.
Esta volatilidade não significa rejeição da democracia. Mas sinaliza desgaste dos mecanismos tradicionais de representação.
A crise da habitação tornou-se outro fator decisivo. Em cidades como Lisboa e Porto, o esforço financeiro necessário para comprar ou arrendar casa atingiu níveis historicamente elevados. A isso soma-se uma desigualdade geracional crescente, em que muitos dos que entraram no mercado de trabalho após 2010 enfrentam salários reais estagnados, carreiras mais precárias e menor acesso à propriedade do que as gerações anteriores. Este desfasamento altera expectativas e transforma perceções de justiça social.
É neste contexto que regressa uma velha tensão portuguesa. A procura simultânea de mudança rápida e de proteção institucional. Quer-se transformação, mas teme-se a instabilidade. Quer-se autoridade eficaz, mas rejeita-se tutela prolongada.
Uma tensão semelhante marcou o período entre abril e novembro de 1975. Na altura, a sociedade portuguesa experimentou formas inéditas de participação direta e recuou perante a incerteza permanente. Hoje, experimenta a normalização democrática e inquieta-se com a sensação de imobilismo.
A diferença é decisiva. O desafio atual não é escolher entre revolução e estabilização, mas evitar que a frustração com a estabilidade se transforme em desconfiança estrutural da democracia.
Por toda a Europa, sistemas políticos comparáveis enfrentam pressões semelhantes. O surgimento de novos partidos, a personalização crescente da competição eleitoral e a erosão da identificação partidária tradicional mostram que o modelo de mediação política consolidado em Portugal após 1975 já não responde sozinho às expectativas sociais.
Mas há uma diferença essencial entre crise e transformação.
Ao contrário do período revolucionário, não existe hoje um projeto alternativo coerente de reorganização do regime. O que existe é uma disputa sobre eficácia, representação e confiança. A questão central deixou de ser “quem governa” e passou a ser quem consegue produzir previsibilidade com legitimidade democrática.
Tal como em 1975, a sociedade portuguesa parece procurar novamente um ponto de equilíbrio entre autonomia e condução, entre participação e estabilidade, entre mudança e continuidade. A experiência histórica sugere prudência. Sempre que esse equilíbrio falha, cresce a tentação de soluções simplificadoras, e essas soluções raramente fortalecem a democracia.
O futuro político português dependerá menos da intensidade do confronto ideológico e mais da capacidade institucional de responder a expectativas concretas. Habitação acessível, mobilidade social, salários mais justos e serviços públicos eficazes.
Sem isso, a previsibilidade deixa de ser segurança e passa a ser estagnação.
Entre abril e novembro decidiu-se o modelo de democracia portuguesa. Hoje decide-se se essa democracia continua capaz de responder às gerações que a herdam.
2026 – Paulo Margalhau














