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Quotidianos

A política da imagem: o novo perfil do poder vazioQuando a construção da carreira substitui a construção da cidade
Por António Matias Lopes
Barreiro

Há uma mutação silenciosa e profundamente preocupante no perfil dos decisores políticos contemporâneos. Não se trata apenas de uma questão geracional, nem de estilo comunicacional. Trata-se de uma transformação estrutural do próprio conceito de poder: da autoridade baseada em conhecimento, experiência e compromisso territorial, para uma autoridade construída sobre imagem, narrativa e performance.

5 min de leitura
A política da imagem: o novo perfil do poder vazio Quando a construção da carreira substitui a construção da cidade Por António Matias Lopes Barreiro

Por Jornal Rostos

Estamos perante uma política cada vez mais desmaterializada, onde o poder deixa de assentar na transformação concreta da realidade para se centrar na gestão simbólica da perceção.
E isso tem consequências.

1. A estética substituiu a substância

O novo político não começa pelo território, nem pela economia, nem sequer pelas pessoas. Começa por si próprio.
A imagem pessoal tornou-se o primeiro ativo político. Não como reflexo de um percurso, mas como construção estratégica. O cuidado com a estética, o enquadramento mediático, o controlo da linguagem corporal tudo isso faz hoje parte de um manual tácito de ascensão.
Mas esta estetização da política não é neutra: ela substitui a necessidade de densidade.
O político deixa de ser alguém que sabe, para ser alguém que parece saber.
E essa diferença é crítica.

2. O discurso que diz tudo e não compromete nada

A linguagem política contemporânea tornou-se extraordinariamente sofisticada… na sua vacuidade.
É um discurso permanentemente prospectivo, colocado sempre num patamar acima da realidade concreta, fala-se do futuro, da visão, da estratégia, da ambição, mas raramente do presente, da execução ou da responsabilidade.
Tudo é possível, tudo está em preparação, tudo está em análise.
Nada é verdadeiramente assumido.
Este tipo de discurso permite uma enorme vantagem: não cria compromisso. E, sem compromisso, não há responsabilização.
Estamos perante uma política que domina a retórica da possibilidade, mas evita a ética da concretização.

3. Redes sociais: amplificação sem enraizamento

Nunca os políticos estiveram tão próximos… e nunca estiveram tão distantes.
As redes sociais criaram uma ilusão de proximidade permanente. O político está sempre presente: inaugurações, visitas, reuniões, opiniões, reações, tudo comunicado em tempo real.
Mas essa presença é profundamente superficial.
Porque não resulta de um conhecimento vivido do território, mas de uma curadoria de momentos. O político “surfa” sobre os problemas, reage, comenta, sinaliza, mas não mergulha.
A política transforma-se assim numa sequência de episódios visuais, sem continuidade estratégica.
E mais grave: as redes sociais tornam-se um instrumento de construção de estatuto social, uma escada simbólica de ascensão, frequentemente desligada da base económica real que sustenta esse estatuto.
E é aqui que emerge um risco estrutural: quando a imagem de poder cresce mais rápido do que a sua base material, a tentação de compensação torna-se real.
A corrupção, neste contexto, deixa de ser apenas um desvio moral, passa a ser um risco sistémico.

4. A política como performance e não como compromisso

Outro traço marcante deste novo perfil é a fragmentação do compromisso.
O político contemporâneo está em todo o lado, mas raramente está verdadeiramente em algum lado.
Delegação excessiva, ausência de acompanhamento, incapacidade de aprofundamento. A decisão é muitas vezes substituída pela validação. A liderança, pela gestão de agendas.
Prefere-se o lado fácil: o anúncio em vez da execução, a presença em vez da responsabilidade, o comentário em vez da decisão.
Esta lógica cria uma política leve, mas uma governação fraca.

5. O espetáculo mediático como capital político

A televisão e hoje também os formatos digitais se transformaram em plataformas de valorização simbólica.
Os chamados “momentos televisivos” não são já consequência da ação política, são parte integrante da estratégia.
O político prepara-se para o soundbite, para a frase forte, para a imagem que circula.
Mas esta lógica tem um efeito perverso: desloca o centro da ação política para fora da realidade governada.
O foco deixa de ser a cidade, passa a ser a perceção da cidade.

6. O desconhecimento como método

Talvez o traço mais inquietante seja este: o novo político não sabe e não sente necessidade de saber.
Não conhece profundamente o território que governa, não domina os instrumentos de planeamento, não compreende as dinâmicas económicas ou sociais com a densidade necessária.
Mas, ao contrário do passado, não recorre a quem sabe.
As universidades, os centros de investigação, os especialistas, todos são frequentemente ignorados ou instrumentalizados.
Não por falta de acesso, mas por falta de cultura de decisão informada.
Estamos perante uma política que substituiu o conhecimento pela confiança na própria imagem.

7. Governar para dentro, esquecer quem está fora

Finalmente, emerge um padrão silencioso mas devastador: a preocupação excessiva com a perceção interna, dentro da máquina política, dentro do partido, dentro dos círculos de poder.
O político governa para ser bem visto pelos seus pares, não necessariamente para melhorar a vida dos seus cidadãos.
A felicidade dos munícipes, a qualidade do espaço público, a vitalidade económica, tornam-se secundárias face à necessidade de manter posição, influência e visibilidade.
E é aqui que a política falha no seu princípio mais básico: servir.

Conclusão: um problema estrutural, não individual
Este não é um problema de pessoas. É um problema de modelo.
Criámos um sistema que valoriza mais a visibilidade do que a competência, mais a narrativa do que a execução, mais a ascensão do que o impacto.
E enquanto esse sistema não for questionado, continuará a produzir políticos altamente eficazes na construção da sua carreira e profundamente limitados na construção das suas cidades.

A questão que se impõe é simples, mas incómoda:
queremos políticos que saibam governar… ou políticos que saibam parecer que governam?
Porque, no fim, as cidades, ao contrário das redes sociais, não vivem de imagem.
Vivem de decisões.

António Matias Lopes
Abril de 2026

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