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Quotidianos

Barreiro: governar é decidir, não adiarPor António Matias Lopes

. O Barreiro não precisa de mais discursos. Precisa de decisão.

Durante demasiado tempo, a cidade foi sendo gerida como se bastasse sobreviver politicamente até ao próximo ciclo eleitoral. Anuncia-se, adia-se, justifica-se, promete-se novamente. Entretanto, o território desgasta-se, a confiança desaparece, os investidores observam com prudência e os cidadãos habituam-se a uma perigosa normalização do declínio.

7 min de leitura
Barreiro: governar é decidir, não adiar Por António Matias Lopes

Por Jornal Rostos

Uma cidade não morre de um grande erro. Morre de pequenas omissões sucessivas.
E talvez seja isso que hoje se sente no Barreiro: não uma crise súbita, mas uma erosão lenta da sua capacidade de acreditar em si próprio.

A questão do Grupo Desportivo Fabril é apenas o sintoma mais visível.
Falamos de uma instituição com cerca de 600 atletas, com uma importância histórica que ultrapassa largamente o desporto. O Fabril representa a memória industrial da antiga CUF, a identidade operária da cidade, a coesão social de várias gerações. Não é apenas um clube. É património simbólico.
Quando uma cidade permite que uma instituição desta dimensão entre em erosão progressiva, está a dizer aos seus cidadãos que a memória coletiva é negociável.
O Estádio Alfredo da Silva, o Pavilhão Vítor Domingos, o Estádio João Pedro e os campos de treino não são apenas infraestruturas desportivas. São território urbano estratégico.
E aqui importa ser claro: existem duas realidades jurídicas diferentes.
O estádio principal ficou na esfera patrimonial do clube. Já o restante complexo passou para controlo privado, com promessa de novos campos e novo pavilhão prevista na escritura de 2022. A pergunta que continua sem resposta pública séria é simples:
onde está esse projeto?

Existe PIP?
Existe projeto conceptual?
Existe calendário?
Existe garantia contratual de execução?
Existe transparência urbanística?
Até agora, o que existe é silêncio.
Se estivéssemos no executivo, a primeira decisão seria absoluta: transparência total.
A cidade teria de saber quem controla o quê, quais são as obrigações urbanísticas, quais os compromissos assumidos, qual o cronograma e quais as consequências do incumprimento.

A política urbana não pode ser feita em conversas de corredor.
Mas transparência não basta.
Falta participação.
Uma cidade não se governa de costas para os seus cidadãos.

O Barreiro precisa urgentemente de um verdadeiro processo participativo, público, sério e vinculativo sobre o seu futuro estratégico. Não mais sessões formais para cumprir calendário, mas um debate real com comerciantes, moradores, universidades, clubes, empresários, jovens, movimentos associativos e sociedade civil.
A cidade precisa de voltar a ser chamada a decidir sobre si própria.
Porque o território não pertence ao mandato de um executivo. Pertence à sua comunidade.
A segunda decisão seria blindar juridicamente a função desportiva daquele território.
Não basta dizer que não haverá habitação. É preciso garantir que o uso desportivo e comunitário não será lentamente substituído por uma lógica especulativa de valorização fundiária futura.

Quem controla o solo controla o futuro.
E nenhuma cidade séria entrega o seu futuro por omissão.
Mas o problema do Barreiro é maior do que o Fabril.
Muito maior.
O maior problema estratégico da cidade chama-se mobilidade metropolitana.

O Barreiro continua a comportar-se como se pudesse pensar o seu futuro isoladamente, quando toda a sua sobrevivência económica depende da sua integração funcional na Área Metropolitana de Lisboa.
Nenhuma regeneração urbana será bem-sucedida sem resolver isto.
Nenhuma.

A cidade vive bloqueada entre promessas ferroviárias adiadas, travessias insuficientes, dependência excessiva da ligação fluvial, congestionamento rodoviário estrutural e ausência de uma estratégia séria de interligação com Lisboa, Seixal, Montijo, Alcochete e o futuro eixo aeroportuário.
O Barreiro não pode continuar a ser tratado como periferia passiva.
Tem de assumir-se como centralidade metropolitana.
E isso exige decisões concretas.

Se eu estivesse no executivo, colocaria a mobilidade como prioridade absoluta de mandato.
Não como capítulo técnico. Como política de sobrevivência urbana.
Defenderia imediatamente:
— reforço estrutural da ligação ferroviária à AML;
— pressão institucional para corredores dedicados de transporte público nas travessias principais;
— integração real e não simbólica com Transportes Metropolitanos de Lisboa;
— revisão profunda da rede rodoviária urbana;
— novos acessos de ligação à Ponte Vasco da Gama e à margem sul;
— reestruturação séria da circulação interna;
— estacionamento inteligente e disciplinado;
— prioridade absoluta ao transporte público de qualidade e frequência elevada.

Uma cidade não atrai investimento se não conseguir garantir tempo de vida aos seus cidadãos.
Mobilidade não é transporte.
É economia urbana.
É produtividade.
É qualidade de vida.
É confiança.
Sem isso, qualquer masterplan é apenas marketing.
E depois há o verdadeiro elefante na sala: os cerca de 500 hectares do Arco Ribeirinho Sul.

Este território não pode continuar a ser tratado como um conjunto de oportunidades avulsas, pequenas intenções dispersas ou anúncios politicamente convenientes.
Aquilo exige pensamento de Estado.
Exige uma negociação frontal e exigente entre a Câmara Municipal, o Estado, a Estamo e a Parpública.
Não basta esperar.
É preciso liderar.

O executivo tem de exigir ao Governo uma decisão clara sobre a reconfiguração urgente do ARS e assumir que este território não pode continuar congelado por indecisão política e administrativa.
Defenderia um concurso internacional de ideias para um verdadeiro masterplan metropolitano.
Não um projeto imobiliário.
Um projeto de cidade.
Integrando:
hospital e polo de saúde avançada;
universidade e investigação aplicada;
desporto de alta competição;
economia azul;
inovação industrial e tecnológica;
habitação qualificada e acessível;
residências universitárias;
hotelaria;
frente ribeirinha ativa;
ligação direta ao novo ciclo aeroportuário da margem sul.

O Barreiro não precisa de mais construção.
Precisa de centralidade.
Precisa de função.
Precisa de escala.
Precisa de ambição.
E depois há o básico — aquilo que define diariamente a perceção da cidade.
Buracos nas ruas.
Obras intermináveis.
Circuitos urbanos alterados sem lógica operacional.
Caos de estacionamento.
Sinalização deficiente.
Insegurança rodoviária em zonas críticas como a Rua Stara Zagora.
Degradação do espaço público.
Governar começa aqui.

Não há credibilidade estratégica quando a rua comunica abandono.
O cidadão lê a cidade pelo quotidiano, não pelos discursos institucionais.
E aqui há uma dimensão política que não pode ser ignorada: responsabilidade.
Quando durante anos o quotidiano da cidade é marcado por perturbação permanente, o mínimo exigível não é mais um comunicado. É um pedido de desculpas.

O presidente da Câmara devia dizer claramente aos cidadãos:
“Falhámos. A cidade merece melhor.”
Isso não enfraquece liderança.
Fortalece-a.
E depois dessa honestidade, surge a pergunta inevitável: como será compensada a população por esta degradação continuada da qualidade de vida?
Com menos impostos locais?
Com investimento prioritário em mobilidade?
Com requalificação acelerada do espaço público?
Com transparência financeira total sobre a real situação das contas municipais?
Porque se o problema é incapacidade financeira, então a cidade tem o direito de saber:
o município está exausto financeiramente?
Está condicionado politicamente?
Ou está apenas sem direção?
O silêncio também governa.

E talvez o problema mais perigoso seja este: quando durante demasiado tempo nada se resolve, instala-se a suspeita.
Isto é apenas incompetência?
Ou há uma estratégia de desgaste silencioso?
Porque em urbanismo, a degradação raramente é neutra.
Primeiro fragiliza-se uma função.
Depois questiona-se a sua viabilidade.
Por fim, legitima-se a substituição.
É assim que muitas cidades perdem os seus ativos mais importantes.
Não por grande escândalo.
Mas por lenta aceitação.
Talvez o Barreiro esteja exatamente nesse ponto.
E é por isso que a pergunta já não pode ser evitada.
O executivo ainda governa a cidade?
Ou limita-se a administrar o seu próprio fim político?
Porque governar não é sobreviver até ao próximo mandato.
Governar é decidir.
E o Barreiro já esperou tempo demais.

António Matias Lopes

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