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Quotidianos

Quando uma Cidade Esquece a Sua Escola, Começa a Esquecer-se de Si PrópriaPor António Matias Lopes
Barreiro

A Escola Secundária Alfredo da Silva foi durante décadas um símbolo de excelência, mobilidade social e prestígio para o Barreiro. Hoje, entre a descentralização de competências, a ausência de visão política e a falta de integração com o ecossistema universitário da Margem Sul, impõe-se uma pergunta incómoda: quem deixou a escola perder o lugar que ajudou a construir a identidade da cidade?

7 min de leitura
Quando uma Cidade Esquece a Sua Escola, Começa a Esquecer-se de Si Própria Por António Matias Lopes Barreiro

Por Jornal Rostos

Há edifícios que são apenas paredes.
E há instituições que são memória, identidade e futuro.
A Escola Secundária Alfredo da Silva pertence à segunda categoria.
Falo dela com emoção pessoal, porque fui seu aluno. Falo com respeito institucional, porque também fui professor. E escrevo com preocupação cívica, porque conheço bem o papel que esta escola teve e pode voltar a ter no destino do Barreiro.
Durante décadas, a Alfredo da Silva não foi apenas uma escola secundária. Foi uma referência nacional. Um lugar de exigência académica, de formação de elites técnicas e intelectuais, de ascensão social e de construção de cidadania.
Ali formaram-se médicos, engenheiros, empresários, professores, gestores, arquitetos, juristas e milhares de profissionais que levaram o nome do Barreiro para muito além das fronteiras do concelho.
Era uma escola de prestígio.
Era uma escola que orgulhava a cidade.
Era uma escola que ajudava a definir o que o Barreiro era.
Hoje, infelizmente, a pergunta impõe-se com desconforto: como deixámos chegar aqui?

A escola e a cidade cresceram juntas

Não se pode compreender a história da Alfredo da Silva sem compreender a história industrial, social e simbólica do Barreiro.
A cidade cresceu em torno da força transformadora da antiga CUF, mais tarde Quimigal, e hoje confronta-se com o enorme desafio estratégico da regeneração dos territórios do Arco Ribeirinho Sul.
O Barreiro foi uma cidade operária, industrial, técnica e profundamente ligada à valorização do conhecimento.
A escola era parte desse ecossistema.
Não era apenas um estabelecimento de ensino; era uma ponte entre gerações, entre mérito e oportunidade, entre disciplina e ambição coletiva.
A Alfredo da Silva era, de certa forma, a continuação intelectual da cidade.
Quando o Barreiro começou a perder centralidade económica, também a escola começou a perder protagonismo.
E talvez aí esteja um dos maiores erros estratégicos das últimas décadas: não perceber que defender uma escola de excelência é defender o futuro de uma cidade.

O Barreiro não pode ficar fora do novo mapa académico da Margem Sul

Hoje, a competitividade de uma cidade mede-se também pela sua capacidade de atrair conhecimento, investigação, inovação e talento.
E aqui o Barreiro precisa de olhar com realismo para o que acontece à sua volta.
O Instituto Politécnico de Setúbal consolidou-se como um dos principais polos de formação técnica e superior da região, com forte ligação à indústria, à engenharia, à tecnologia e à inovação aplicada.
A Universidade NOVA de Lisboa, através da sua crescente presença estratégica na Margem Sul, particularmente com o desenvolvimento do Almada Innovation District, mostra claramente como o futuro urbano se constrói através da articulação entre educação, ciência, startups, saúde, tecnologia e regeneração territorial.
Almada percebeu isso. A sua Camara Municipal participa ativamente no projeto.
Montijo começa a percebê-lo.
Setúbal trabalha essa lógica há anos.
E o Barreiro?
O Barreiro continua demasiadas vezes preso a uma visão administrativa e não a uma visão transformadora.
Uma cidade com a sua localização metropolitana, com a sua história industrial, com o peso estratégico do Hospital do Barreiro, com a oportunidade do Arco Ribeirinho Sul e com a futura reconfiguração da Margem Sul no contexto do novo aeroporto, não pode continuar a olhar para a educação como uma despesa.
Tem de a assumir como infraestrutura estratégica.

A descentralização trouxe responsabilidades e nomes

Importa aqui esclarecer algo que muitos cidadãos desconhecem: hoje, uma parte muito significativa da responsabilidade sobre as escolas públicas passou para a esfera das câmaras municipais.
Não é uma questão opinativa.
É lei.
Com a Lei n.º 50/2018 e com o Decreto-Lei n.º 21/2019, concretizou-se a transferência de competências no domínio da educação para os municípios.
A gestão dos edifícios escolares, a sua conservação e manutenção, o apetrechamento, os transportes escolares, a ação social escolar, parte significativa do financiamento operacional e a gestão do pessoal não docente passaram a integrar responsabilidades municipais.
Ou seja: quando falamos das condições físicas, funcionais e estruturais da Escola Alfredo da Silva, estamos também a falar diretamente da responsabilidade política da Câmara Municipal do Barreiro.
E isso obriga a uma pergunta simples:
se a escola perdeu centralidade, quem assumiu verdadeiramente essa responsabilidade?

O erro das prioridades fragmentadas

Nos últimos anos, o discurso político local habituou-se a viver de anúncios.
Fala-se muito de frentes ribeirinhas.
Fala-se muito de regeneração urbana.
Fala-se de grandes projetos, de novas centralidades, de investimento imobiliário e de futuros promissores.
Tudo isso é importante.
Mas há uma pergunta que quase nunca se faz:
que cidade estamos a construir se deixarmos enfraquecer as instituições que produzem capital humano?
Uma cidade não se mede apenas pelo número de metros quadrados de betão novo.
Mede-se pela qualidade das suas escolas.
Mede-se pela ambição que oferece aos seus jovens.
Mede-se pela capacidade de produzir futuro.
A Alfredo da Silva perdeu influência, perdeu prestígio simbólico e perdeu centralidade no discurso político local.
E isso não aconteceu por acaso.
Foi o resultado de uma sucessão de opções fragmentadas, de ausência de visão estratégica e de uma política excessivamente centrada no imediato.
Uma escola como esta não pode ser tratada como mais uma escola.
Ela exige visão.
Exige liderança.
Exige investimento.
Exige prioridade.

O Presidente da Câmara não pode governar apenas o visível

Há responsabilidades que não podem continuar diluídas na burocracia.
O Presidente da Câmara não pode escolher apenas aquilo que quer inaugurar e esquecer aquilo que verdadeiramente constrói uma cidade.
A governação não se mede apenas pela obra visível.
Mede-se também pelo legado invisível.
E poucas coisas são mais estruturantes do que uma escola de referência.
Quando se permite que a Alfredo da Silva deixe de ser tratada como um ativo estratégico, está-se a aceitar a erosão silenciosa de um dos maiores símbolos do Barreiro.
Quando se investe sem integrar educação, urbanismo, mobilidade, ensino superior e desenvolvimento económico, está-se a governar o presente e a abandonar o futuro.
O Barreiro precisa de uma visão integrada.
Precisa de perceber que a escola, o Hospital, o ensino superior, a regeneração do Arco Ribeirinho Sul e a futura ligação metropolitana com Lisboa não são temas separados.
São a mesma agenda.
A agenda da competitividade urbana.
A agenda da dignidade territorial.
A agenda da sobrevivência estratégica.

O futuro começa nas escolas

É na Alfredo da Silva e nas restantes escolas secundárias do Barreiro que se prepara o futuro.
É ali que se espelha o mundo.
É ali que se define se uma cidade forma talento ou o exporta.
É ali que se decide se os jovens acreditam que vale a pena ficar.
A regeneração urbana não se faz apenas com planos diretores, frentes ribeirinhas ou concursos internacionais.
Faz-se também nas salas de aula.
Faz-se quando uma cidade decide que quer liderar pelo conhecimento.
Faz-se quando uma escola deixa de ser vista como um custo e passa a ser entendida como o maior investimento público possível.
Se Almada aposta no conhecimento.
Se Setúbal consolida o seu ecossistema académico.
O Barreiro tem a obrigação de liderar.
E essa liderança começa aqui.
Na Alfredo da Silva.

O futuro não se constrói com nostalgia

Defender a Alfredo da Silva não é um exercício de saudosismo.
Não se trata de viver do passado.
Trata-se de perceber que o futuro exige raízes fortes.
A escola não deve ser defendida porque foi grande.
Deve ser defendida porque pode voltar a ser decisiva.
Porque uma cidade que perde as suas grandes escolas perde também a sua capacidade de sonhar.
Porque o Barreiro precisa de voltar a acreditar em si próprio.
Porque há lugares que não podem ser deixados à erosão silenciosa da indiferença.
A Escola Secundária Alfredo da Silva merece mais.
O Barreiro merece mais.
E as próximas gerações também.
Talvez esteja na hora de percebermos que a verdadeira regeneração urbana não começa no betão.
Começa na educação.

António Matias Lopes
Investigador Urbano
Maio de 2026

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