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Quotidianos

Religião ou Superstição?Por Cláudio Anaia
Barreiro

«Eu sou o caminho, a verdade e a vida.» - (João 14, 6). Quantas vezes já ouvimos dizer que cruzar-se com um gato preto dá azar? Ou que passar por baixo de um escadote atrai a má sorte? Mesmo numa sociedade que se orgulha da ciência, da racionalidade e do pensamento crítico, são poucos aqueles que nunca alimentaram, ainda que em segredo, alguma superstição.

4 min de leitura
Religião ou Superstição? Por Cláudio Anaia Barreiro

Por Jornal Rostos

A superstição acompanha a humanidade desde tempos imemoriais. Nasce, muitas vezes, da necessidade de encontrar explicações simples para o inexplicável e de aliviar emoções como o medo, a ansiedade, a rejeição, a solidão ou o fracasso. Quando a vida parece fugir ao nosso controlo, é tentador procurar segurança em amuletos, rituais, talismãs ou promessas de soluções milagrosas.
Mas existe uma diferença profunda entre a fé e a superstição.

A fé cristã não assenta no medo. Assenta na confiança. Não transforma objetos em fontes de poder nem reduz Deus a uma força manipulável ao serviço dos desejos humanos. A mensagem de Cristo aponta precisamente na direção contrária: convida à liberdade, à responsabilidade e à confiança na providência Divina.

O Cristianismo ensina que Deus nos criou livres e dotados de razão. O livre-arbítrio implica responsabilidade pelas nossas escolhas. É precisamente essa liberdade que, para alguns, pode ser desconfortável. É mais fácil acreditar que o destino depende de um ritual, de uma pedra, de um horóscopo ou de um suposto iluminado do que assumir a responsabilidade pela própria vida.
Não são poucos os casos em que pessoas, dominadas pelo medo, entregam o seu pensamento crítico a líderes carismáticos, falsos profetas ou gurus. Aceitam ordens sem questionar, convencidas de que a obediência cega lhes garantirá proteção ou felicidade.

Quando o medo substitui a liberdade, a superstição encontra terreno fértil para crescer.
Também os meios de comunicação e a indústria do entretenimento contribuem, muitas vezes, para alimentar o fascínio pelo sobrenatural. Filmes, séries e programas dedicados a espíritos, bruxas, vampiros, conspirações, poderes ocultos ou fenómenos paranormais tornam-se sucessos de audiência. Naturalmente, trata-se de ficção ou entretenimento na maioria dos casos, mas a repetição constante destes temas acaba por normalizar explicações irracionais para a realidade.
Nada disto corresponde, porém, ao núcleo da fé cristã.

O Evangelho não anuncia magias, feitiçarias, ocultismos ou amuletos. Anuncia um Deus omnipotente, omnipresente, omnisciente, eterno e infinitamente misericordioso. A salvação, para os cristãos, não depende de práticas esotéricas nem de sucessivas reencarnações. O sacrifício redentor foi realizado de uma vez por todas por Jesus Cristo na Cruz.
Também não podemos comprar a salvação pelas nossas obras, como se fosse uma recompensa conquistada por mérito exclusivamente humano. As boas obras são consequência da fé e do amor, não uma moeda de troca com Deus. Quando Deus perdoa, perdoa plenamente. Quando salva, salva inteiramente.

São Paulo advertia os primeiros cristãos contra as falsas doutrinas e os ídolos que desviavam o coração humano da verdade. Séculos mais tarde, Santo Agostinho resumiria essa mesma realidade numa das frases mais belas da espiritualidade cristã: "O nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Ti." O ser humano procura incessantemente sentido, mas apenas encontra plenitude quando descobre Deus.

O escravo da superstição vive condicionado por regras que não compreende, por medos que o paralisam e por uma moral baseada na culpa e na ameaça. Procura integrar-se num grupo repetindo comportamentos sem os questionar. Daí nasce frequentemente o sectarismo: a exclusão de quem pensa de forma diferente e a substituição da liberdade pela submissão.
Quem vive preso às suas próprias crendices acaba, muitas vezes, por ser prisioneiro das ilusões que ele próprio alimenta.
O psicólogo norte-americano Michael Shermer, conhecido pelo seu trabalho na divulgação do pensamento crítico, tem alertado para o crescimento das crenças pseudocientíficas e paranormais nas sociedades contemporâneas. A popularidade de fenómenos como a astrologia, os poderes extrassensoriais, as teorias da conspiração ou outras formas de irracionalismo demonstra que o progresso tecnológico não eliminou a necessidade humana de acreditar.

O "crendeiro" existe em toda a parte. Encontramo-lo entre ricos e pobres, entre pessoas simples e altamente instruídas. A superstição não escolhe classe social nem nível académico. Alimenta-se, acima de tudo, da insegurança humana.
Por isso continuem tão actuais as palavras de Santa Teresa de Ávila: "Quem a Deus tem, nada lhe falta. Só Deus basta."
Entre a religião e a superstição existe uma fronteira muito clara. A superstição aprisiona; a fé liberta. A superstição alimenta o medo; a fé fortalece a esperança. A superstição conduz à dependência; Cristo chama cada pessoa a viver na liberdade dos filhos de Deus.

Cláudio Anaia
Militante da Justiça e Direitos Humanos
claudioanaia@hotmail.com

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