Por Rui Miguel BragaMais do que uma travessia: uma alavanca para Portugal
Barreiro
O Presidente da Câmara Municipal do Barreiro reuniu recentemente com a Infraestruturas de Portugal, que apresentou ao Município o projeto da travessia rodoferroviária Barreiro–Chelas, da ligação rodoviária ao Seixal e das infraestruturas associadas.

Por Jornal Rostos
Os serviços municipais e eu próprio — enquanto responsável pelos pelouros do urbanismo, do planeamento e das obras municipais — analisamos agora a proposta em profundidade, e o Município remeterá à IP, no quadro institucional próprio, o seu parecer e os seus contributos. É esse o caminho certo: rigor técnico primeiro, posição formal depois.
Sem antecipar esse parecer, quero partilhar uma convicção pessoal: o que está em causa neste projeto transcende em muito o Barreiro. Está em causa a economia portuguesa.
Uma infraestrutura de escala europeia. A travessia do Tejo neste corredor não é uma obra local: é o elo que falta na ligação de alta velocidade Lisboa–Madrid, enquadrada no Plano Nacional de Investimentos 2030 e no Regulamento da Rede Transeuropeia de Transportes, com apoio de fundos europeus do Mecanismo Interligar a Europa e do Banco Europeu de Investimento. Quando estiver completa, a viagem entre as duas capitais ibéricas fará-se em cerca de três horas — tornando o comboio uma alternativa competitiva às dezenas de voos diários entre Lisboa e Madrid. Portugal deixa de ser o fim da linha da Europa para passar a ser o seu início atlântico.
O impacto no PIB: passageiros, sim, mas sobretudo economia real. A discussão pública tem-se centrado nos minutos ganhos pelos passageiros. Falta a dimensão que, humildemente, considero decisiva: a das mercadorias e da competitividade. O corredor em causa integra a secção Sines–Lisboa–Madrid do Corredor Atlântico da rede principal da RTE-T — ou seja, liga o maior porto de águas profundas do país ao coração da Península e, daí, à Europa. Cada hora ganha no transporte de carga sobre carril é competitividade das exportações portuguesas, é redução da fatura logística das empresas, é atração de investimento para os territórios servidos. Os estudos desenvolvidos ao longo dos anos sobre a alta velocidade em Portugal analisaram precisamente os seus impactos no Produto Interno Bruto, no investimento privado, na receita fiscal e no emprego — e é nesses termos, de retorno económico nacional, que o projeto deve ser avaliado e exigido.
Acresce a dimensão climática e energética: a descarbonização dos transportes e a transferência para modos energeticamente mais eficientes estão entre as razões da decisão de acelerar esta ligação. Num país que importa quase toda a energia fóssil que consome, transferir passageiros do avião e carga do camião para o comboio elétrico é também política económica.
E onde entra o Barreiro? Entra como território-charneira. É aqui que a linha atravessa o Tejo; é aqui que se cruzam a alta velocidade, a ferrovia convencional, a rodovia e o rio. Um concelho que foi o grande polo ferro-portuário e industrial do país, com uma das maiores reservas de solo da área metropolitana nos territórios da Baía do Tejo, tem condições únicas para transformar essa passagem em plataforma: logística, emprego qualificado, novas empresas. Mas defendo com igual clareza o reverso: uma infraestrutura desta escala tem de fazer cidade, não cortá-la. O Barreiro sabe, há mais de um século, o que é crescer dividido por canais ferroviários. As barreiras do século XIX não podem ser reproduzidas por uma obra do século XXI — pelo contrário, este é o momento de as eliminar, de costurar bairros e de devolver a cidade ao seu rio, mantendo e valorizando a vocação fluvial que é a nossa identidade e uma das ligações mais eficientes a Lisboa.
O momento certo. É em fase de estudo que as grandes opções se definem. É nessa fase que estamos a trabalhar, com lealdade institucional e exigência técnica — e, como afirmou o Presidente da Câmara, no caminho certo. Da minha parte, acrescento apenas que o país deve olhar para esta travessia como olhou, no seu tempo, para as grandes decisões que o transformaram — não como um custo, mas como a alavanca de uma economia mais exportadora, mais verde e mais central na Europa. E que essa alavanca assenta, física e simbolicamente, na margem sul do Tejo.
Rui Miguel Braga
Vice-Presidente da Câmara Municipal do Barreiro














