Por Paulo MargalhauO mérito de quem vende camisolas
Barreiro
A novela em torno de Cristiano Ronaldo é reveladora da nossa forma seletiva de reconhecer o mérito. Conheço seguramente cem pessoas com tanto mérito quanto ele e outras cinquenta a quem reconheço ainda mais.

Por Jornal Rostos
Professores, médicos, engenheiros, operários da construção, profissionais de limpeza, cozinheiros e empregados de mesa. Trabalham com competência, assumem responsabilidades e sustentam a vida de muitos outros. Talvez lhes falte um patrocinador que torne essas qualidades evidentes, porque a sua utilidade, por si só, parece insuficiente para convencer o mercado.
Cristiano Ronaldo já recebeu centenas de milhões de euros, e os seus rendimentos num único dia representam aquilo que muitos trabalhadores poderão receber ao fim de décadas. Ainda assim, explicamos esta desproporção pelo esforço, pela disciplina e pelo sacrifício. Conheço pessoas que cumprem esses requisitos há quarenta anos, levantando-se de madrugada e chegando à reforma com o corpo gasto e pouco dinheiro no bolso. Terão interpretado mal a ideia, dedicaram uma vida a trabalhar precisamente naquilo de que todos nós não podemos prescindir.
A explicação económica é conhecida. Ronaldo atrai público, vende produtos e gera receitas. O salto curioso acontece quando fazemos dessa capacidade comercial uma medida de mérito pessoal. Se aceitarmos o critério, um professor deveria negociar os direitos televisivos das suas aulas e um médico procurar patrocínio para cada diagnóstico. Conseguiríamos finalmente remunerá-los melhor, desde que ensinar e tratar viessem acompanhados de intervalos publicitários. Ficaria por esclarecer se o mérito aumentou ou se apenas encontrámos compradores para a audiência.
Também convém perguntar de onde vem o dinheiro. Chega dos bilhetes, das subscrições, dos patrocínios e da venda de produtos, mas também de investidores e fundos soberanos, como o PIF saudita. A passagem da riqueza petrolífera para o relvado facilita uma curiosa transformação. Recursos acumulados numa economia passam a ser apresentados como prova do mérito de um indivíduo. Pelo caminho, a origem e as escolhas de quem financia o espetáculo desaparecem da conversa, deixando o esforço do jogador com a responsabilidade de explicar todos os milhões.
Parte desta máquina é sustentada por quem conta os euros até ao fim do mês e encontra, ainda assim, razões para considerar justa a diferença. Entretanto, aumentar algumas dezenas de euros a quem ensina, cuida, constrói ou limpa exige contas, estudos e prudência. A nossa exigência de rigor financeiro parece crescer à medida que diminui o salário em discussão. Talvez o mérito destas pessoas se tornasse finalmente evidente se, além de indispensáveis, conseguissem vender camisolas.
2026, Paulo Margalhau














