OpiniãoTudo isto é Fado
Os malucos do riso
E a democracia

Por Abdul Cadre
Não se assustem, porque o título é apenas uma provocação. Mal de mim se eu fosse perder o meu rico tempinho com a afronta à inteligência que é esse programa de televisão primária, pseudo-humoristico que só faz rir quem não tenha mais nada que fazer; poderá é fazer chorar quem se compadece com a má-sorte dos actores sujeitos ali a tal frete. Mas é claro, a vida está muito má e o país pior ainda; vejam que até já perdeu a tanga que tinha no dia em que foi ocupado democraticamente pela actual equipa de operadores de buldózer, que tudo arrasam e de tudo fazem tábua rasa. Desta forma, só nos fica o riso alvar e este reflexo condicionado de bolsarmos constantemente, sem qualquer convicção: «mas ao menos temos liberdade e vivemos em democracia». Que bom, para os malucos do riso!...
...E que mau, para a maioria não televiosionável (por mais que possa ser televiciável), a qual não tem motivos para rir, a não ser que tenha visto — e só no preciso momento em que viu — aquele espectáculo, entre o surreal e o pimba, do (at)estado da nação, ou aquele outro, muito pior, lá para bandas europarlamentares e berlusconienses.
Recordam-se como os democratíssimos sicofantas de cá e de lá se levantaram e esganiçaram, quais donzelas ofendidas, para travarem as idas a concurso sufragista dum pequeno e saloio filo-nazi, duma obscura província da Áustria, um tal Haider? Lembram-se?
Pois bem: temos aí, no alto do areópago, a ser abraçado pelos seus iguais em mando e riso um autêntico original não-saloio, não-provicinao para ser obedecido e com direito a injuriar impunemente tudo e todos. Os sicofantes de ontem e do outro logo vêm a terreno branquear o discurso, como foi o caso dos voluntariosos representantes do CDS e do PSD em Estrasburgo. Ficamos a saber que estão de acordo com aquilo de que foram acusados: serem turistas da democracia.
Ora, o grande corruptor e multimilionário Sílvio Nerlusconi, como todos sabemos, não é nenhum fora da lei — aliás, está impossibilitado de o ser — porque a lei é ele. Quem defende o estado de direito deve bater palmas a il cavaliere. Além disso, ele pertence ao sacrossanto Eixo do Bem, isto é, aos coligados internacionais para o saque generalizado das riquezas que são a base do sistema que tem por divisa quem não é por nós é contra nós.
Berlusconi, que é esperto que nem um rato, sagra-se como o protótipo daquela falta de pudor que enforma a ideologia dos que permanentemente reivindicam menos estado, isto é, a lei da selva. Na óptica de tais paladinos, que só enviesadamente expressam o seu desejo profundo, nada de leis apara atrapalhar as trafulhices que tão boas são para o incremento do mercado e embolsar das mais valias. O Bem está no mercado e tudo deve ser feito a bem do mesmo. Os que, por macaquice ou modismo, reivindicam ou fingem reivindicar o mesmo que o Berlusconi e a sua clonagem, o tal disparate de menos estado, tendo como justificação a defesa do tal de mercado (que foi coisa que veio para substituir, duma assentada, Deus, a religião, a filosofia, a ética e a estética), não se apercebem que estão a aplaudir um bigodinho de má memória e salamaleque pró-gay, que desta vez vem escondido na invisibilidade que se atribui aos anjos, mas que, previsivelmente, far-nos-á pior que qualquer outro diabo já conhecido.
A corte deste inferno, mais tentadora que todas as demais cortes infernais, vai apelando ao nosso pecado e ao alvar do nosso riso, à nossa gula. É só fartura o que nos promete, mas o que temos garantido é uma generalizada miséria moral e material como nunca se viu.
O mercado é, podem crer, o darwinismo da falta de escrúpulos, o lupanar onde se vende toda a nossa dignidade e se perde o que de humanos ainda somos para que sobre no fim apenas um valor de troca ou um valor de bolsa.
E o mercado é isto, como podem consultar em www.emergency.it, a propósito das contas feitas à anterior guerra do Golfo, em 1991. Custou 40 mil milhões de dólares, que os ingénuos pensam que foram pagos pelos USA. Mas não, os polícias do mundo adiantaram apenas 10 mil milhões e os outros 30 mil foram suportados pelos países da área, principalmente a Arábia Saudita. Como se arranjou o pilim? Bem, fez-se com que o petróleo passasse do 15 dólares por barril a 42, gerando assim uma receita suplementar que se estima ter atingido os 60 mil milhões de dólares. Isto foi beneficiar, numa primeira fase, as multinacionais do sector e os países produtores de petróleo locais, onde vigora o contrato do fifty-fifty, isto é, metade para ti, metade para mim, ou seja: 30 mil milhões para as Sete Magníficas e 30 mil milhões para o Koweit e a Arábia Saudita. As sete magníficas pertencem, é claro, aos donos do mundo, isto é, à banca internacional sionista, nomeadamente Rockefellers, Morgans, Rotschilds e quejandos. A participação do governo americano através destas grandes corporações fez arrecadar ao Tesouro cerca de 21 mil milhões de dólares; os outros 9 mil milhões caíram líquidos nos bolsos de quem sempre lucra, sem precisar de mexer uma palha. Assim, o primeiro balanço às contas do negócio permite dizer-se que os produtores de petróleo ficaram em casa, isto é, gastaram 30 mil milhões e receberam outro tanto; o governo dos USA, que gastara 10 mil milhões e recebera 21, teve um ganho de 11 mil milhões; os privados, sem terem gasto nem um tostão, tiveram um ganho limpinho de 9 mil milhões. Quem pagou a guerra, afinal? Toda a gente deste mundo, ao ir a um lugar virtual chamado mercado, o qual está em toda a parte e não está em parte alguma.
Mas nós dissemos que a guerra de 1991 custou 40 mil milhões. Ora, se foi feita essa despesa, alguém a cobrou, e quem a cobrou foi basicamente a indústria armamentista, maioritariamente ianque.
É só rir, é só rir.














