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Quotidianos

MUITO MENTIROSO

Começa a ser quase um culto a consulta a um dos poucas espaços
comunicacionais não condicionados e totalmente livres, com todos os prós e
com todos os contras que tal implica. Refiro-me ao jornalismo da NET e em
especial aos «livros de bordo», conhecidos no jargão local por «blogs».
Alguns jornais de papel fizeram passar para os mais desatentos a mensagem
subliminar de que isto era coisa de Pachecos Pereiras e quejandos, quando é
uma evidência e uma factualidade que os bem pensantes, os alinhados chegaram
ali já com a grande onda formada, apenas porque não gostam de perder
navegações nem deixar o leme a quem busca rotas imprevistas com as velas
desalinhadas.
5 min de leitura

Por Jornal Rostos

O «Blog» é a resposta de alguns jornalistas insatisfeitos com os
impedimentos, as marginalizações e as perseguições a que estavam sujeitos
nos grandes títulos americanos, especialmente no concernente ao Médio
Oriente. Para os conflitos desta área, as redacções tinham como norma
(nalguns jornais escrita) não prejudicar o «esforço de guerra patriótico» da
administração ianque (a presente e as duas anteriores) e branquearem sempre
o terrorismo estatal dos sionistas de Telavive. Tudo isto era uma coisa
digna de ser lida e o mais anti-Intestino Delgado que se possa imaginar. No
começo, ninguém se atrevia ainda a chamar àquilo de anti-americanismo
primário nem de classificar os subscritores de réus de actividades
subversivas anti-americanas dado que os americanos de gema estavam ali em
maioria absoluta. Todavia, como era preciso pôr etiquetas, nada como
esquerdismo e marxismo para servir de epíteto a gente tão inconveniente...

Ora, como não podia deixar de ser, a coisa chegou a Portugal. Saloiamente,
evidentemente. Há umas centenas de «blogs» em língua portuguesa, mas a
característica da maioria é ser de extrema direita e filo-ianque. O que se
possa conotar com pensamento de esquerda perde-se no meio daquele emaranhado
de prosas e contraprosas.

Acontece que, desde os primeiros dias do mês em curso, apareceu algo com um
sumo muito ao gosto miudinho dos aldeões urbanos portugueses. Na página da
BLOG SPOT (endereço: www.blogspot.com), alguém que se intitula MUITO
MENTIROSO escreve que se desunha sobre tráfico de droga, prostituição
juvenil da Casa Pia, conspirações, tramóias e cabalas com tal pormenor e
abundância de dados que ficamos estupefactos. Se dez por cento do que ali
vem for verdade — e digo apenas dez por cento — o melhor será entregarmos o
país aos espanhóis ou aos marroquinos para uma sindicância rigorosa.

O autor dos artigos foi «entrevistado» na SIC ocultamente, isto é, sem cara,
que é o que está a dar. Isto agora é tudo de máscara, é tudo em segredo, é
tudo em murmúrio. Está tudo tão secreto que alguns dos presos preventivos
não sabem sequer do que são acusados em concreto e muito menos quem os
acusa.

Eu admito que o MUITO MENTIROSO tenha ali muita treta, mas ao admitir isto
tenho de admitir também que entre as testemunhas do problema Casa Pia uma
grande percentagem esteja a mentir. Aritmeticamente falando, digamos que dez
por cento para cada lado será verdade. É pegar ou largar e não se fala mais
nisto.

Mas estejamos vigilantes, porque, como temos visto neste local, mentir é o
que mais rende. Se o Bush, que é presidente do mundo, mente e faz mentir o
seu escudeiro Blair, porque não há-de mentir o nosso primeiro, que dos dois
foi apenas o estalajadeiro?

Porque não havemos de mentir nós todos, os súbditos?

Hoje em dia, o que é ou não é não tem importância absolutamente nenhuma.
Fez na terça-feira oito dias (salvo erro, mas se estiver errado não
interessa nada) que dei por mim, num atraso de Zapping, a bater com a
atenção numa coisa abstrusa e desmiolada do Canal 1, um concurso qualquer em
que Nicolau Bryner faz perguntas a uns bacanos. Então não é que no espaço de
cinco minutos temos as seguintes aberrações: perguntado a um dos artistas
respondentes qual era a capital de Israel, ele não soube e o apresentador
leu o que tinha no papelinho: Jerusalém. Jerusalém, senhores do concurso?
desde quando? Isso é propaganda sionista ou é apenas ignorância. Telavive,
meninos, Telavive!

Antes ou depois, já não me recordo, perguntavam ao Paulo Bragança (que era
um dos respondentes): língua da Bélgica começada por «F»? Quase sem hesitar,
este responde: flamengo. O que está certo. Diz o do papelinho: está errado,
é o francês. Quem é que trata dessa coisa? Algum miúdo da primária? Então
não sabem que as duas línguas oficiais da Bélgica são o francês e o
flamengo, que não têm culpa de começar ambas por «f»?

Depois veio a Internet. Isto da Internet é fatal como o destino. Deve ser
herança do Guterres. Perguntada a desinência para os endereços americanos,
mais uma vez o dono do jogo ensinou que era «us». Azar o vosso, meninos: não
é! O único país que não tem designação própria nos endereços da Net é
precisamente os «states»; foram os americanos que começaram com a
brincadeira e dispensaram-se.

O que é preciso é estarmos todos entretidos, não é?

Abdul Cadre

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