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Quotidianos

"Carta de favor"de António José Ferreira

Como disse o grande Heidegger, a linguagem revela o ser, logo os seus modos revelam
as maneiras de ser. Mas como alguém também disse muito assisadamente, deixemo-nos de
metafísicas e vamos ao que interessa.
3 min de leitura

Por Jornal Rostos

Como disse o grande Heidegger, a linguagem revela o ser, logo os seus modos revelam
as maneiras de ser. Mas como alguém também disse muito assisadamente, deixemo-nos de
metafísicas e vamos ao que interessa.
Em português pede-se "por favor" e agradece-se "obrigado", contrariamente a outras
linguas onde se pede " se lhe apraz - please; s´il vous plâit" e se agradece a
gratuidade do acto: "thanks, gracias ou em francês, a mercê: merci". Ora, isto
significa que nós costumamos pedir "favores" que os outros nos fazem quando a tal
são "obrigados" . Os mais recentes acontecimentos vêm confirmar plenamente esta
tese: Eles são as "cunhas" para que as filhas dos ministros entrem nos cursos onde
os outros não conseguem entrar, eles as colocações de professores em que os amigos
dos directores regionais e /ou detentores dos cartões partidários azul/laranja
ultrpassam todos os colegas mais graduados, ele continua a ser o regabofe dos boys e
girls por todo o aparelho de estado nomeadamente nas autarquias. Enfim, toda uma
prática "meridional" para não lhe chamar outro nome mais forte, com conotações
"sicilianas", em geral na versão "soft", mas em caso de ser preciso sobe-se de tom,
até onde não se sabe, mas há quem diga que por exemplo Sá Carneiro e Amaro da Costa,
não ficaram para saber. Talvez porque como na anedota do mexicano: "Hombre, dos e
dos?, - Quatro! - PUM ! PUM! - Sabias demás!".
Explicação para este "modus vivendi", não é preciso ir buscá-la muito longe, basta
ler o Professor Vitorino Magalhães Godinho e a sua exemplar pequena obra "A
Estrutura na Antiga Sociedade Portuguesa" e ficaremos a perceber as dificuldades
que tem um reino velho em emendar-se, por isso os favores são para a operaçãozinha,
para o empregozito, para o subsidio de desemprego, para a consultazita, para o
cursozinho, e para outras coisinhas de que é feita a nossa vidinha. Mas no fundo
somos como a Júlia Florista: "vendia favores, mas os seus amores, já mais os vendeu"
! Até havia um senhor, aristocrata não sei de quantos costados que era médico, e
sogro de um dos ainda maiores capitalistas portugueses a quem chamavam D. Pedro das
Cunhas, eles lá saberiam porquê; nós também desconfiamos.
Sousa, faz-me o favor de publicar esta carta.

Obrigadinho:
António José Ferreira

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