“A Vossa Guerra, os Nossos Mortos”Por João Medeiros
Por Jornal Rostos
Pelas três da tarde, os telemóveis começaram a zumbir, os mails surgiam na caixa anunciando “uma concentração silenciosa pela verdade” em frente da sede do PP na calle Génova. Por cada mensagem recebida enviavam-se dez, quinze mensagens mais. As mensagens foram propagando-se como as chamas de um incêndio varridas pelo vento.
Às seis da tarde, um forte contingente policial protegia a sede do partido e pedia a identificação a todos os que chegavam. Todavia, meia hora depois era tal a afluência que os polícias não tiveram capacidade para continuar a identificar todos. A calle Génova era um formigueiro de gente gritando de raiva e pedido explicações ao governo. Havia gente que chorava, outros gritavam indignados “mentirosos, assassinos, nós dissemos não à guerra”.
Alguém gritava e todos repetiam “É a vossa guerra, são os nossos mortos”. Havia cada vez mais gente a sair do metro e nas ruas adjacentes, de todas as idades e raças. Quando se pretendia fazer um minuto de silêncio, havia sempre alguém que não conseguia sufocar a indignação e o sofrimento e gritava: ”Mentirosos, Assassinos” e tudo começava de novo. Partilhavam-se informações e lágrimas e muitos tinham rádios encostados ao ouvido na esperança de poderem saber alguma coisa.
Fomos Convocados pelos Assassinados
Quando o ministro do interior Rajoy declarou à imprensa que a manifestação era ilegal e acusou o PSOE de a ter organizado, ouviu-se de imediato um rugido colectivo: “Fomos convocados pelos assassinados”. Não se via uma única bandeira de partidos políticos ou sindicatos. Apenas cartazes improvisados. O responsável pela polícia de intervenção disse à cadeia de televisão SER que não podiam dissolver a concentração pela força porque não podia carregar contra uma multidão onde havia mulheres e crianças.
Cada vez que alguém se chegava à janela da sede do PP todos gritavam: “Queremos a verdade!”. Pelas dez da noite as pessoas começam a deslocar-se para a Praça Sol, invadindo as ruas sem autorização. Quando chego à calle Cabeza, uma rapariga de repente abre a porta e com a cabeça erguida desafiadoramente, começa a bater numa panela. Os vizinhos, primeiro timidamente, chegam às janelas mas rapidamente começam também a usar as panelas como bombos. Em poucos minutos todo o bairro ressoa com um ruído ensurdecedor. Há um instante fantástico em que parece que todos seguem o mesmo ritmo. Um ritmo fúnebre e contundente, seco, duro, cheio de raiva e de solenidade. E começa a marcha em direcção à Praça Sol onde nem sequer se consegue entrar, porque toda a Madrid está na rua.
Continuam a voar as notícias, multiplicam-se as mensagens de solidariedade através dos protestos nas outras cidades. Em Saragoça e Barcelona a polícia carrega contra manifestantes. Escuta-se que há a hipótese de suspender as eleições. As pessoas comentam indignadas que a televisão espanhola continua a ignorar a manifestação. A cadeia SER diz que, apesar de as ruas estarem cheias de manifestantes, não vão continuar a transmitir “para manter a calma e não acirrar os ânimos”. As câmaras, os microfones e as luzes desaparecem. Só ficam os jornalistas alemães mas os manifestantes mantêm-se firmes, gritando, em todas as ruas que conduzem à Praça Sol, completamente repletas. Não há bandeiras, nem partidos, nem megafones, nem organizadores, nem ordens. A multidão avança espontaneamente desde Atocha, a polícia retira-se discretamente. Os manifestantes invadem todas as ruas, cortando o trânsito e, embora caminhem por onde querem, ninguém parte vidros, não há um gesto sequer de destruição.
De Atocha através da calle Prado há mais de um milhão de pessoas em movimento. As vozes estão enrouquecidas depois de tantas horas, os pés doloridos, mas não há medo, não há polícia excepto um helicóptero por cima das cabeças. Chega-se de novo à sede do PP e as pessoas, apesar do cansaço, continuam a protestar. Passam as quatro, as cinco da manhã e os slogans voltam a mudar: “Hoje protestamos, amanhã não os queremos! À hora de votar tens de te lembrar, assassinos, mentirosos!”.
João Medeiros














