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Quotidianos

“ARESTAS DE VENTO”“É NATAL NA VERDADE DAS MEMÓRIAS”

Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo,
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!
(Kyrie)

4 min de leitura

Por Jornal Rostos

Serve esta pequena parte de um poema de José Carlos Ary dos Santos, para dizer à sociedade global, pintada pela cortês, educada e acastelada “História da Civilização” de cinzento feio que, ainda não é tarde, para viver o Natal na simplicidade da paz, da justiça e da liberdade. Cada cidadão do mundo tem em si (desde o nascimento) o “ESPÍRITO SAGRADO” do amor que tudo transforma, envolve e alimenta. Li não sei onde: NATAL É O AMOR QUE CHEGA... e, lembrei – me (pela verdade da expressão) da prostituta, dos versos de Fernando Grade:

“ERA DEZEMBRO!
E EU NÃO TINHA NEM NATAL
NEM NADA QUE FOSSE VERDADEIRAMENTE MEU
ERA DEZEMBRO!
E EU TRAZIA TERRA NAS MÃOS E UMA ESPIGA PARA TE DAR!!!”

Vamos imaginar os relógios da vida “certos” no tempo que a ternura, por inspiração de um coração tamanho da eternidade, descobriu entre o acabar de um sonho e o começar de outro?!!! O Sol tão grande como a íris do futuro e a Lua lembrando (lá no alto) que, no teatro das “máscaras”, há sempre um momento em que as “sombras” perdem figura?!... Como diria o meu amigo e actor Fernando Guerreiro, não há teatro que dure a vida inteira. Um artista de hoje, não pode nem deve querer apenas as flores do jarrão decorativo em que vive!... É esta visão dinâmica da cultura que permite a transformação alquímica de pessoas reservadas ao egoísmo e à ribalta em autênticos obreiros da cidade nova. O futuro nunca será alienação nem fuga às mentiras do dia a dia! Só os homens modernos podem construir no presente uma humanidade completamente nova e eximida de culpas. Da relação cultural e fraternal que tive com os homens novos da música José Luís dos Santos e José Manuel Coelho resulta uma tremenda saudade cultivada aos microfones da Pal Fm, através do programa Arestas de Vento que penso e executo há quase 18 anos.

José Luís dos Santos – Nasceu a 13 de Novembro de 1974 e morava no Pinhal Novo. Conciliava a actividade musical com a sua empresa de informática. Era responsável pelo site do Grupo Trio Los 4 (Grupo onde tocava brilhantemente bateria). Fazia questão de referir que já tinha acompanhado o célebre Ayamonte, entre outros músicos de nível mundial. Para este nosso amigo baterista a união era sinónimo de força e, com toda a alma do mundo, colaborou com o Trio Los 4, na criação de trechos musicais para a novela “Bons vizinhos” da TVI. Palavras finais deste jovem artista numa entrevista (dada no último Verão) ao Arestas de Vento:

“A CRISE PERSISTE MAS A BANDA INSISTE. ALIÁS, AS IDEIAS PARA ESTE ANO SÃO MUITAS... A VER VAMOS...”

Passados que foram dois dias... José Luís dos Santos foi acometido de morte súbita. A ver vamos querido amigo!... Cá na terra isto vai... e, a banda PERSISTE!!! Só há uma forma de cumprir o caminho que leva à cidade nova: É fazer cultura que sirva para alguma coisa, não abdicando de princípios inovadores e da verdade das memórias.

Ao 5 de Maio de 2004, morreu o compositor Setubalense contemporâneo com mais personalidade: José Manuel Coelho. Os mais atentos deram por isso... os menos aplicados nem tanto e, até ao momento, tenho a impressão que falta contar e cantar muito a respeito deste inspirado compositor e poeta?! Carlos e Mendes e Fernando Tordo, autenticam esta ideia, dizendo que as canções deixadas pelo bom do Coelho estão muito ligadas à musicalidade de protesto e saudade poética de José Carlos Ary dos Santos. Quem quiser testar esta minha reflexão, faça por escutar o tema “Vira de Agosto”. É como digo: Não é preciso facilitar para fazer como o povo gosta. Muito boa gente palaciana, ainda não percebeu que a musica erudita tem que ser, quando possível, tornada popular?!!! Cumprir uma das últimas vontades de José Manuel Coelho, será editar, na voz de Piedade Fernandes, o mais rapidamente possível, os temas deixados na gaveta das circunstâncias e da falta de oportunidades.

Resta dizer que, infelizmente, quis o destino que este distinto criativo não recebesse palmas, no grande final da peça que o Grupo de Animação e Teatro Espelho Mágico apresentou, com muito êxito, no 9º Festival da Canção Infanto-Juvenil de Palmela.

A vida não é só feita de vivos, a verdade das memórias “vive” diariamente connosco e, por isso, alguns mortos vão fazer parte da minha consoada com “todos”, neste Natal de 2004.

RICARDO CARDOSO

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