AUSCHWITZ
Escrevo com maiúsculas o nome da que terá sido a maior tragédia da humanidade e uma das suas vergonhas para todo o sempre. AUSCHWITZ abalará as consciências democráticas ao longo de gerações.
Por Jornal Rostos
Escrevo com maiúsculas o nome da que terá sido a maior tragédia da humanidade e uma das suas vergonhas para todo o sempre. AUSCHWITZ abalará as consciências democráticas ao longo de gerações: o campo da morte escolhida, pensada, programada, tornada indústria do terror, do máximo terror: judeus, comunistas, democratas, ciganos, homossexuais transportados em comboios de mercadorias durante dias, sem alimentação, sem arejamento, a urinar, a defecar uns sobre os outros, muitos a falecer antes da chegada, nas condições mais degradantes, humilhantes, indignas – são escassos os adjectivos e a sua semântica para tanta barbárie – ao local mais horrível que terá existido para homenzinhos (?) – monstros exterminarem Homens, cidadãos cujo crime aos deformados e dementes olhos dos que se arvoraram em carrascos era, exactamente, o da cidadania que lhes roubaram, despojando-os dos bens materiais e culturais que possuíam, a caminho do e no pior campo de morte construído pelos nazis, AUSCHWITZ; " algures na Polónia", como os bandidos referiam em documentos que passaram à História e que temos o dever de preservar pelos séculos.
Algures na Polónia: numa pequena terra da Silésia, escondida dos Aliados, do Vaticano, das suspeitas dos mais politizados, sem sobreviventes que pudessem referir as chamadas levas de prisioneiros, a morte imediata da maioria dos que sobreviviam aos comboios: idosos, crianças, grávidas, portadores de deficiência eram assassinados no momento imediato à chegada à estação de caminho-de-ferro, alguns dos mais saudáveis eram destinados a trabalho escravo, empurrados para camaratas sobrelotadas, pútridas, elas próprias sinónimo de doença e morte, sem espaço, sem higiene, sem comida, sem cobertores, sem medicamentos – pessoas tratadas como não humanas, assim designadas em missivas dos psicopatas que as tinham em cativeiro, até entenderem assassiná-las, também: nas câmaras de gás, em salas (?) de espancamento até à morte, com injecções letais, pela forca, a tiro, com experiências "médicas" de mutilações sexuais e das mais variadas partes do corpo, com a electrocussão para os que tentavam a fuga. Havia, enfim, uma panóplia de acções malvadas, concebidas e realizadas com precisão para extinguir pessoas e povos.
Estive na Polónia (lindo país, de gente trabalhadora, culta e simpática) uma única vez: em 1977. Visitei o local que foi o gueto de Varsóvia, paradigma da resistência do povo judeu, à humilhação, primeiro, ao isolamento, à fome aos assassinatos aleatórios depois, ao bombardeamento final. Em silêncio, com gente do país que me acolhia e com a que chegava de locais bem diversos, segui os que guardam a História. Para que ela seja, em cada dia, lição de Liberdade.
Fui ao (chamado pelos nazis) campo nº1 de AUSCHWITZ. Foi num dia anormalmente frio, segundo os meus hóspedes, para a Primavera polaca. Mas o gelo que senti por dentro ultrapassa questões climatéricas: foi o que me ficou para o resto da vida, nas salas, nos pavilhões, nas caves, nos pátios onde a incivilização máxima desrespeitou a condição humana e tirou a vida a milhares, milhares e milhares de seres humanos. Tantos anos depois, 32, da libertação, em 27 de Janeiro de 1945, de AUSCHWITZ pelos Aliados, através do Exército Vermelho, o horror invadiu-me o corpo e o espírito naquele dia de Março ou Abril já longínquo. Como acontecerá para o resto das minhas memórias. Que saúdam os canais televisivos nacionais, principalmente os que pertencem a todos nós, os da Radiotelevisão Portuguesa, pelo que de belo nos deram na passagem do 60º aniversário do fim do paradigma do horror máximo que teremos conhecido. A bem da LIBERDADE e da DEMOCRACIA.
Manuela Fonseca














