O código da tretaPo Abdul Cadre
Por Jornal Rostos
Ele não tem qualquer formação na área que afirma ter investigado, mas que comprovadamente não investigou, tudo carreando para o seu embuste das obras que leu — algumas apenas à vol de oiseau — e que aqueles que não andam distraídos nas leituras bem conhecem. Não há no seu livro a mais pequena originalidade nem quaisquer vestígios de novidade se vislumbram ali. É por isto que não podemos dizer o que Marcelo Caetano disse um dia a um seu examinando: «há na sua tese coisas muito boas e coisas muito originais; pena que as boas não sejam originais e as originais não sejam boas». É que todas as propostas que colocou no seu abortivo trabalho já eram más no original, algumas muito antigas, remontando inclusive a lendas medievais, invariavelmente, nos meios onde o espírito crítico não é simples figura de retórica e o critério de busca das verdades históricas e documentais não esmorece, apontadas como falsas .
Mas Dan Brown não é apenas um oportunista bem sucedido entre outros que o sejam menos, é também um mentiroso contumaz e militante. E tem todas as razões para o ser porque é a sua forma de ganhar a vidinha. Numa entrevista a uma jornalista americana, o marau dizia que estava farto daquilo que vinha nos livros — tudo falso, já se vê, segundo ele — e isso levou-o a cair sobre nós como o grande profeta desta era do vazio e do dólar. Assim, a verdade dele — que é descarada mentira e evidente má-fé — foi vertida na sua obra pelo método, não diria da tesoura e cola, visto que fez imensos retoques para pior, mas pelo da falta de escrúpulos, que não necessita tesoura, basta o desrespeito pelo que escreveram outros e a nenhuma consideração pelos leitores. Sem dúvida que cita alguns autores e as suas obras, mas em simultâneo faz interpretações enviesadas das mesmas, quando não mesmo inversas.
Não cabe aqui, por inadequação e por falta de espaço — só num ensaio de várias páginas — analisar os dislates e as aleivosias do figurão, pelo que basta que se diga que as suas afirmações (que afinal são de outros que escreveram antes, nomeadamente Gérard de Séde) sobre os merovíngios a descenderem de Jesus, sobre o Graal e Maria Madalena não são apenas delirantes, são de tal maneira estúpidas e fora do contexto mais do que sabido das respectivas lendas (e não Teologia ou História) que bem poderiam ter sido produzidas por algum internado no Júlio de Matos. Depois, tirar a Jesus o sagrado e o divino para dar ambas as coisas a Maria Madalena, será para quê? Baseia-se em quê? Nos seus delírios pós new age ou numa sexualidade mal resolvida?
Como se acabasse de descobrir a pólvora, diz várias vezes que Maria Madalena não era uma prostituta e que foi a malvadona da igreja, na sua senha de subjugar a mulher, que tudo inventou acintosamente. O homem não se actualizou, pois há muitos anos que a igreja católica, ultrapassando os textos evangélicos, que nisto são confusos, defende que Jesus apenas livrou Madalena de sete demónios e que a prostituta defendida por Jesus é outra mulher que não ela. O homenzinho diz mais: que nos Evangelhos Apócrifos — lá vêm os apócrifos que têm muito que contar — que Maria Madalena é tratada como apóstola dos apóstolos, o que é mentira, totalmente mentira; essa frase, que é da autoria do actual Papa, não se encontra escrita em nenhum evangelho. Diz ainda que um dos apócrifos relata que Jesus beijava na boca e amiúde Madalena, coisa que não está escrita em lado nenhum. É imaginação do homenzinho ou analfabetismo. O documento que refere está todo esburacado pelos malefícios do tempo e tal passagem é apenas suposta: um dos editores da coisa pôs entre parêntesis rectos aquilo que deduziu...
Por falar em documentos: é evidente que Dan Brown não consultou os documentos que afirma ter consultado, referentes à associação inventada pelo ex-nazista (e depois degaulista), o mal-afamado Pierre Plantard, um louco megalómano que se afirmava descendente dos merovíngios, e assim de Jesus e Madalena. Estou a lembrar-me de um tonto similar, um brasileiro que foi ao Herman José e se dizia reencarnação de Jesus. O Priorado do Sião foi uma trapaça — nem sequer bem urdida — do Sr. Pierre Plantard e de um grupo restrito de mitómanos. Os documentos que se encontram depositados na Biblioteca Nacional, em Paris, estão classificados como falsificações. Não são seculares, foram forjados entre os anos de 1964 e 1969, pasme-se. É por eles que o trapaceiro do Dan Brown invoca Da Vinci para mestre da inexistente sociedade secreta...
Por que razão este livro teve tanto êxito comercial?
Bom, isso mereceria um estudo profundo e exaustivo e, à falta dele, perguntaríamos no mesmo jeito: por que é que os drogados se drogam?
Posto isto, dirá muita gente: ó homem, não vê que aquilo é apenas um romance, um thriller?
Pois é — ou não é — mas, para além da cobertura nada inocente que lhe foi conferida pelos media e dos vinte milhões que subsidiaram o autor — coisa que merece atenção e cuidado — o escriba garante no prefácio que tudo o que ali meteu a martelo é rigorosamente verdadeiro e denuncia tudo o que diz a Igreja Católica, que em tudo mente. Quer dizer, antigamente, nos romances preveniam-se os leitores: todas as semelhanças são pura coincidência; agora, toda a fantasia, toda a mistificação, toda a mentira se afirma como verdade pura. É o fruto deste tempo que apodrece.
Termino com um desafio aos meus leitores que tenham tropeçado na fancaria a que nos vimos referindo: leiam os Evangelhos Apócrifos e releiam os Canónicos. Não se iludam com os textos de excitação que louvam uns em detrimento dos outros.
E, por favor, não comprem livros, nem discos, nem o que quer que seja só porque as estratégias de marketing lhes induzem crer que é a única forma de serem felizes e de não serem menos do que os outros. Tais estratégias são verdadeiramente o grande segredo do Código da Treta.














