“Ali está Palmela... e mais além o rio Sado”Por RICARDO CARDOSO
Por Jornal Rostos
Situados às portas do Alentejo, os concelhos de Palmela e Setúbal constituem símbolos vivos da contraposição ao regime geral europeu de emagrecimento por quotas de civilização. Locais de pessoas habituadas ao trabalho rural e, no caso de Setúbal, em particular, às pescas. E por oposição a estes valores de trabalho simples e certo, os falsos humanistas da globalização dos preços e das vendas, não conseguem discernir a sabedoria que germina entre a teia dos condicionalismos e o lucro... e numa interpretação incorrecta do mundo, tudo fazem, por desfraldar ao vento do progresso, os espectros do desemprego e da desertificação.
Há dias, perto do castelo de Palmela, um homem da Quinta do Anjo, lembrou-me os 48 anos de ditadura e os tempos em que não se podia dizer que se ganhava pouco ou que se tinha fome. Mas nós, hoje, podemos escrever e falar contra a grandeza “mundializante”, muito ao gosto de politiqueiros de pacotilha e economistas sem humanidade autêntica. Nenhuma leitura da vida será positiva se não tiver em conta a liberdade de escolha. Não podemos admitir que alguns “mestres de escola” ainda não tenham saboreado maçã riscadinha e sardinha de Setúbal...
O desemprego e a instabilidade social são as maiores preocupações dos países esmagados pela pata da globalização aos pobres. Pata gulosa que tem nestas terras “heróicas trincheiras na defesa da identidade e do bem-estar ”.
Os “raios puros” do nascer e pôr-do-sol ensinam o seguinte: Só com formação adequada e funcional é possível preparar as novas gerações para o mercado de trabalho do futuro.
A criação de um pólo de actividades com oficinas, armazéns, artes, ofícios e comércio, é uma necessidade imediata para uma vida na região e travar a saída de mais famílias no caminho “daquilo que não existe”, mas não é única...
Por muitas e boas razões, as câmaras municipais devem investir na construção de habitação para as famílias mais carenciadas e disponibilizar terrenos a preços sociais para a construção de habitação própria. Não é razoável pensar que a sociedade se compra feita.
A renovação de algumas acessibilidades municipais e a criação de boas vias são factores fundamentais para escoar a riqueza dos nossos produtos.
Palmela orgulha-se de ser um concelho agrícola com solos aráveis e de fácil manejo. Alguém vai ter que ficar com a responsabilidade e passar esta fertilidade para os filhos do novo dia. Um politico português (se for deste eixo Palmela/ Setúbal tanto melhor) mais atrevido que diga em Bruxelas que “ninguém é feliz sem trabalho” e que este “achamento da economia em quebra” só pega de empurrão...
“É urgente um barco no sonho e, sobretudo, é urgente deixar de deitar sardinha ao mar, por “alpaca” imposição, depois de pescada...” e não deixar caducar as pescas, à conta de ideias tolas vendidas aos mais novos. O grave da “questão”é a escola não ensinar isto...
As autarquias devem descentralizar e estimular iniciativas que ajudem os menos preparados a pensar melhor e a contar com a cultura na evolução de todos os dias. E os espaços de lazer são fundamentais para um crescimento “integrado”.
A população da parvalheira é simples e feita de homens maduros e gastos e, por isso, precisa de mais centros de saúde, lares e associações ocupacionais de jovens e reformados.
Que “aprendizagem importada na fonte” é esta que nos faz comprar subprodutos e presumir de tudo e todos, ao arrepio de famílias famintas, destruídas e que recorrem ao crime como solução “repentista”?
Aqui não, muito obrigado, uma das maiores riquezas destas terras vizinhas é o povo trabalhador, honesto, bairrista e artesão!
Sempre que me deslocava a Setúbal, na década de setenta e oitenta, Zeca Gregório cá estava, quase inevitavelmente no mesmo local da sua oficina, localizada no convento de Jesus (agora em ruínas). De casaco e calças de fazenda, quer estivéssemos no mais frio Inverno ou nos mais abrasador dos Verões, ele estava lá “criando”. Sentado num banco fundia ferro velho, ao mesmo tempo que recebia o sol da manhã com a felicidade de quem esperava o “nascimento” das figuras artísticas e pitorescas que, aos poucos, “construía”. O Zeca morreu há alguns anos, não consigo precisar quantos, mas na minha memória permanece aquele homem de sorriso de criança que fazia bonecos que faziam sorrir quem “passava por ali”...
Enquanto estou para aqui “nisto”, o preço do petróleo voltou a subir e a atingir novos máximos!!!
RICARDO CARDOSO














