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Quotidianos

Arte Viva e Arteviva: a criação sob a forma teatralPor Manuela Fonseca

“A Rua do Inferno”: que pode ser todas as avenidas, todas as ruas, grandes e pequenas,
todos os becos. Situar-se nas cidades, vilas, aldeias e, sobretudo, dentro do Céu e, ou, do Inferno existentes em cada um de nós: amor, ódio, desespero, esperança, traição, solidariedade, violência, bondade que moldamos e que entretecem os nossos dias.

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Arte Viva e Arteviva: a criação sob a forma teatral Por Manuela Fonseca

Por Jornal Rostos

Em madrugada recente, num dos nossos diálogos informáticos, eu pedia ao director deste jornal que me dissesse se escrevia Arte Viva como expressão, ou, por aglutinação, apenas com uma palavra. Tive uma resposta curiosa, que citei ao meu marido, primeiro leitor e crítico e que trago aqui agora: “Escrevo com duas palavras quando refiro a Companhia e aglutino quando FAZ ARTE!”. Pois torno minha a apreciação do António Sousa Pereira e regresso a semanas atrás, até porque me embrenhei nas duas vezes em que assisti à última peça produzida: até às lágrimas, até ao riso nervoso, até à tosse seca, disfarçada com um pouco de água ingerida com subtileza para não perturbar o alucinante espectáculo que constituiu “A Rua do Inferno”.

“A Rua do Inferno”: que pode ser todas as avenidas, todas as ruas, grandes e pequenas, todos os becos. Situar-se nas cidades, vilas, aldeias e, sobretudo, dentro do Céu e, ou, do Inferno existentes em cada um de nós: amor, ódio, desespero, esperança, traição, solidariedade, violência, bondade que moldamos e que entretecem os nossos dias. “A Rua do Inferno”, Arte Viva que me tinha sido dada a conhecer, neste órgão, através de texto do Director, na secção Cultura, de 18 de Abril, e pelo “Notícias do Barreiro” (201), de 20 do mesmo mês. Por hábito leio interpretações das peças depois de vê-las mas, assoberbada de trabalho, fi-lo antes, sem ter, então, a certeza de mergulhar, como tanto gosto, no “Arte Viva”, bem como em outros grupos teatrais.

Volto aos anos em que pude usufruir da presença de meu pai. Apreciador das Artes, ele próprio instrumentista de bandolim, sempre que a locomotiva (“máquina”, como dizíamos) lhe dava folga (era a designação para os dias de descanso do pessoal ferroviário, pelo menos do ligado à área de tracção), visitante de museus, com a minha mãe e comigo, apreciador de teatro, cinema e futebol aos quais começou a levar-me, pequena ainda (há menos de 24 horas, com o meu marido, no “Manuel de Melo” -comigo não há títulos de nobreza, vivo numa República, nem Manuel com outra grafia: isso será para um jogador, aliás nova aquisição dos “Leões”-, no jogo particular entre o Barreirense e o Sporting, recordava os momentos memoráveis ali passados, os nossos na 1.ª Divisão ou a caminho de serem campeões da 2.ª). Tais idas moldaram e moldam parte da minha vida, recheada, felizmente, de interesses.

Os escassos recursos financeiros da família não eram entraves a saídas (o passe da CP possibilitava-nos conhecer gentes e terras, no Continente), idas a concertos, promovidos pelo associativismo tão rico do Barreiro.

Quanto ao Teatro, pois, como diz o nosso povo, “Quem não caça com cão caça com gato” e o colega e grande amigo de meu pai, Sr. António Pereira, através do filho, o inesquecível actor Mário Pereira, honra desta cidade e galardoado solenemente por ela, arranjava-nos bilhetes que nos permitiram amar os maiores nomes da dramaturgia mundial que a censura fascista tentava esconder. Em suma: o bicho-do-teatro contagiou-nos para o resto dos dias: casei, ainda por cima, com um actor, hoje dedicado a outras formas de expressão artística, sou espectadora atenta de algumas Companhias (de Setúbal ao Porto, do Barreiro a Trás-os-Montes, de Lisboa aos saltimbancos de infância, junto dos primos maternos, nas férias na Mina de S. Domingos, de Londres a Paris, do Rio a Havana, já vi mais do que terei sonhado em pequena) e nem gosto de falar publicamente da Arte Viva do Arte Viva porque:

• O meu marido pertence à direcção actual da instituição

•Sou amiga de vários membros da mesma

•Sob o ponto de vista profissional, tenho contactos com alguns deles

•Colaborei um pouco no Programa da hilariante peça que antecedeu o triste Euro 2004, “A Paixão Segundo o Árbitro”.

Mas, cidadã livre, quando o entendo, faço-o. Como no caso presente.
Foi mais um autor espanhol, Antonio Onetti, em excelente leitura do encenador e director de actores Rui Quintas, bem como de toda a equipa que o coadjuvou: Patrícia Mendes, Nuno Fernandes, Pessoa Júnior, Lila Amaral Dias, Sara Franqueiro, Jorge Ferreira, Dário Valente, Carlos Tainha, Cláudio Ferreira, Milucha, Ana Bela Oliveira.

Com eles:

•Ângela Farinha

• Genoveva Pimpista

• Paula Magalhães,

as actrizes, encheram o palco de garra, talento e invulgaridade: palavras raramente doces e várias vezes violentas, talvez obscenas, como obsceno é um capitalismo que sufoca e leva mulheres e homens, nas vidas pessoais e profissionais, ao desespero, à angústia, à traição, à morte. Nessa Rua do Inferno, em Sevilha, no Globo, dentro de cada um(a) de nós. Para que se oiça os gritos, se veja os movimentos descontrolados, os sentimentos em explosão, no espaço obcecante do Supermercado, do Parque de Diversões/Vida, na Feira/Angústia, no Hospital dos Pobres. E se lembre três actrizes a arrebatarem o público, a imolarem-se pela Arte e pela Vida, em sacrifício clássico para que a primeira figure sempre o direito à dignidade da segunda!

Barreiro, 17 de Julho de 2005

Manuela Fonseca

PS: Como foi justa a Medalha de Mérito Municipal -Ouro, na área da Cultura, que a Autarquia atribuiu ao Arte Viva, no Dia da Cidade!

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