A política aéreapor Pedro Mateus
excessiva frequência, corre sérios riscos de deixar o Xanax pelas ruas da amargura.
Por Jornal Rostos
Talvez por me encontrar também sob o efeito traumático do síndrome pós-férias, pareceu-me por momentos estar perante um daqueles profundos e enigmáticos poemas de poesia barroca francesa do Chassignet ou do Brébeuf.Com algum custo concluí, no entanto, que se tratava de um artigo concebido
em pleno mês de Agosto de 2005, por pessoas de um partido que eu julgava já extinto nesta cidade. De facto, e reportando-me essencialmente aos últimos 4 anos, é difícil encontrarmos uma ideia ou um projecto que o BE tenha apresentado ou defendido para o Barreiro. Na falta de obra ou de pensamento próprios, lembro-me apenas de terem inaugurado - através de uma acção de grande envergadura política, perfeitamente explicável à luz das mais recentes teorias de psicanálise zoófila – um sumptuoso hotel para pombos. Apesar de o seu comportamento não o demonstrar, acredito genuinamente que a existência do partido em causa faz sentido na actual conjuntura. Sendo assim, os nossos concidadãos terão, com certeza, todo o interesse em ouvir a opinião dos dirigentes e candidatos autárquicos pelo BE sobre questões tão concretas como a reconversão do Mercado Municipal 1º de Maio, a superfície comercial prevista para o Campo das Cordoarias ou a forma como o Masterplan pode alterar a baixa da cidade. Como daqui resulta evidente, as obras levadas a cabo na Avenida Alfredo da Silva enquadram-se numa estratégia mais ampla, delineada por este executivo camarário e que importa discutir de forma alargada, mesmo por aqueles que só se lembram dos problemas do município em vésperas de eleições.
Não deixa de ser curioso que esta súbita vontade de participação não se tenha verificado ao longo do mandato que agora termina, visto que nos encontramos na presença de uma força partidária que nem sequer tem por hábito assistir às reuniões da Assembleia Municipal ou de Câmara. Gostava, mesmo assim, de saudar o tímido e atabalhoado despertar do estado de hibernação em que costumam estar mergulhados estes patuscos esquerdistas de fim-de-semana. Contudo, para quem se quer mesmo levantar do soalho, surgem ainda outros aspectos que não deverão continuar a ser negligenciados. Deste modo, aguardamos todos com ansiedade os contributos que os bloquistas pensam trazer para o processo de revisão do PDM que, como se sabe, estabelece as coordenadas gerais daquilo que será a cidade nos próximos 20 anos em termos de desenvolvimento sustentado. Por outro lado, seria também interessante que nos dessem a conhecer a sua visão holística para o concelho, e nos revelassem o seu projecto para a autarquia a curto e médio prazo. Contentar-nos-íamos, na verdade, com apenas duas ou três propostas exequíveis. Pode até ser que, com alguma dose de sorte, venhamos a ser contemplados com um programa eleitoral repleto das vacuidades do costume.
Pelo que se consegue vislumbrar por entre a obscuridade sintáctica que pauta o referido artigo, não me pareceram muito positivos os sinais veiculados.
Será que a preocupação monomaníaca com os centros urbanos se afigura como um caminho a seguir, numa altura em que cada vez mais se pensa em maneiras de integrar e valorizar as periferias, de modo a evitar o surgimento de ghettos? Será que o horror farisaico ao dito primado do betão não é também
responsável pelo impasse em que nos encontramos? Para quem tem pretensões de assumir um cargo de vereação, não vai sendo já altura de abandonar a demagogia e o simplismo próprio dos grupúsculos?
Este modo superficial e aéreo de fazer política chega ao ponto de exigir que se façam coisas que são uma realidade incontornável, ou que não dependem directamente dos poderes públicos. Como é notório, as tão ambicionadas esplanadas na Avenida Alfredo da Silva não são uma miragem, e, com este sol, nada como nos sentarmos numa das suas mesas e tentarmos afastar, um pouco como faziam os flâneurs do séc.XIX, este tédio pós-balnear. Como nos ensinou Baudelaire, “por trás destes desgostos e aborrecimentos que nos
sobrecarregam a vida brumosa, feliz de quem consegue, de asas vigorosas, lançar-se pelos campos claros e serenos”.
Espero que depois de mais um interlúdio cómico proporcionado pelo BE, a política possa seguir dentro de momentos.
Pedro Mateus














