Os sonâmbulospor Pedro Mateus e Luís Ferreira
Por Jornal Rostos
“O nosso sentimento da vida caminha sempre com um atraso de meio ou mesmo de um século em relação à verdadeira vida, à vida real. O sentimento é sempre menos humano que a vida no meio da qual nos encontramos.”
Hermann Broch
Os debates autárquicos que recentemente decorreram nas instalações da SFAL reconduziram-nos ao magnífico livro que serve de título a este texto, assim como nos fizeram recordar com ironia as patéticas afirmações que reproduzimos em epígrafe. De facto, perante a vozearia e os insultos proferidos por uma parte da assistência dos referidos encontros, um observador menos atento poderia julgar que se encontrava em Moscovo na década de 30, e que assistia a um dos inúmeros julgamentos sumários levados a cabo na defunta pátria do socialismo real.
O coro de agitadores profissionais que anda em digressão pelas ruas do concelho constitui um testemunho precioso desta estranha patologia, caracterizada por um notório desfasamento da realidade dos nossos dias e por um galopante delírio inquisitorial. Quem se acotovela à porta de escolas para vaiar aqueles que passam ou interrompe discussões democráticas com gritarias estridentes, age deste modo porque não consegue aceitar que vivemos numa sociedade aberta, na qual as divergências de opinião são expressas de forma racional e serena. Os barreirenses saberão, com certeza, avaliar e penalizar os que recorrem a este tipo de métodos para impedir o exercício da liberdade de expressão e da tolerância.
Em contraste com este cenário desolador, aproveitamos a ocasião para saudar efusivamente os dirigentes locais do PCP que, após sacudirem o sono profundo em que se encontravam mergulhados, anunciaram a triunfal descoberta de fórmulas mágicas adequadas à promoção do desenvolvimento económico da cidade. Pena é que, ao longo de 27 anos, tenham sido apenas capazes de balbuciar confusas desculpas sobre as responsabilidades do poder central, e que não nos tenham conseguido deslumbrar com a enxurrada de lugares comuns que agora acenam em todas as direcções.
Esperamos que um dia, quando despertarem por completo da sua ancestral letargia, consigam reparar que o Fórum Barreiro e o projecto “Cidade do Cinema” representarão para o município, a curto prazo, um investimento global superior a 190 milhões de euros e serão responsáveis pela criação de milhares de postos de trabalho. Enquanto uns fantasiavam sobre a grandeza e a glória dos impérios perdidos, outros estavam no terreno a trabalhar para resolverem os problemas que, durante décadas, foram criados por estes incansáveis sonhadores, responsáveis directos por um êxodo urbano incompreensível numa autarquia integrada na Área Metropolitana de Lisboa.
Embora a memória humana seja curta e frágil, todos nos lembramos das mais de 10 mil pessoas que se viram forçadas a abandonar a terra que tinham escolhido para viver, vítimas daqueles que sempre as usaram como armas de arremesso nas suas batalhas pela conquista do poder. Por mais que agora pretendam reescrever a nossa história recente, tudo faremos para que este dado incontornável não caia no esquecimento e se permita a reedição da extensa galeria de desastres do passado.
O sonambulismo político sobrevive, precisamente, graças aos momentos de amnésia colectiva que gera e ao estado de apatia que se lhe costuma seguir. Neste sentido, julgamos ser paradigmática a encenação que está a ser representada no Lavradio, com os actuais autarcas a não conseguirem apontar uma obra que tenham realizado ou um projecto que pretendam concretizar no decurso do próximo mandato. Para tentarem ocultar este evidente fracasso, preferem passar horas a dissertar sobre as ficcionadas aventuras e desventuras da Câmara Municipal, como se ainda pudéssemos acreditar em novos contos de fadas ou em improváveis teorias da conspiração.
De acordo com esta lógica labiríntica e soporífera, constatamos, por exemplo, que as dificuldades vividas pelos habitantes dos Fidalguinhos surgiram inesperadamente a partir de 2001, como se aquele aglomerado de prédios tivesse de súbito rompido o asfalto e brotado do chão. Será que alguém já se esqueceu que foi o anterior executivo comunista a viabilizar esta urbanização, através de uma operação imobiliária que fez entrar nos cofres do município mais de 12 milhões de euros? Que parte desta quantia terão os decisores políticos da altura destinado para equipamentos sociais, tendo em vista a melhoria da qualidade de vida dos que aí residiam?
A falta de respeito com que se tratou esta zona da cidade atingiu um grau de despudor inacreditável, ao ponto de a Escola do 1º Ciclo recentemente inaugurada e as novas instalações da Escola Superior de Tecnologia terem sido, logo à partida, objecto de contestação pelos mais absurdos motivos. Neste momento, estamos a entrar num plano inclinado em que dizer tudo e o seu contrário não só se tornou possível, como se transformou na única saída para aqueles que falharam todas as oportunidades que lhes foram concedidas pela população.
A principal responsabilidade pela inversão da presente situação cabe agora aos lavradienses, dado que têm na lista encabeçada pelo Alexandre Matos uma oportunidade ímpar para abandonarem o actual marasmo. O candidato do PS conseguiu reunir uma equipa credível e construiu um programa ambicioso para a freguesia, confirmando o excelente trabalho que realizou enquanto presidente do Sporting Lavradiense.
No próximo dia 9 de Outubro somos nós, eleitores, que temos que dar uma resposta cabal a quem inviabilizou sucessivamente o progresso do Barreiro. Pode ser que, com o choque daí resultante, os nossos inestimáveis «despovoadores» acordem em definitivo para a realidade do novo milénio.
Declaração de interesses
Para evitarmos as habituais insinuações, voltamos a sublinhar que não somos dirigentes de nenhuma força partidária, tal como não integramos qualquer das listas que se apresenta a sufrágio. Os artigos que publicámos nos últimos meses têm-nos valido a já esperada dose de impropérios e ameaças. Sabemos, no entanto, que a liberdade implica sempre um preço elevado para quem enfrenta os anónimos sectários da servidão.
Pedro Mateus
Luís Ferreira














