Resposta ao Mano do Mano"A cidade é tão bonita quando vamos de visita"
Por António José Ferreira
Por Jornal Rostos
"A cidade é tão bonita quando vamos de visita"
Rio Grande
No passado dia 15 publicou na revista Xis, associada ao jornal o Público, a sua habitual crónica o já crónico Professor Daniel Sampaio (o mano do mano) em que começando por considerações correctas sobre o estado calamitoso dos resultados da educação em Portugal, vai dizendo que tem a sorte de encontrar no seu mister de professor universitário jovens motivados e organizados que são os estudantes de medicina, embora ache que na generalidade padecem de uma grande falta de cultura humanística ou de cultura em geral; passa depois a tecer considerações sobre uma nova, se bem que há muito legislada, incumbência dos professores: as aulas de substituição.
Uma das operações mais demagógicas
Convém dizer que estas fazem parte de um pacote de medidas com que o actual Governo, via Ministério da Educação, que diga-se de passagem não tem política própria, (como nenhum outro ministério no actual Governo) pretende e está a realizar uma das operações mais demagógicas jamais vistas no regime democrático, de modo a saciar a "sede de sangue" da opinião pública e principalmente para encobrir a sua incapacidade total para realizar algo que se pareça com o que havia prometido, o Governo Sócrates socorrendo-se de uma leitura saloia de Maquiavel, utiliza a táctica do salame tudo misturando na estratégia de "dividir para reinar".
Entre muitas outras medidas de carácter financeiro que assumo que possam ser necessárias e mesmo indispensáveis para o equilíbio das contas do Estado, se bem que se tenha esquecido de as comunicar como tal (afinal até o Marcelo Caetano fez conversar em família), vá de lhes misturar umas quantas pinceladas de polítiquice rasteira, eivadas de um justicialismo terceiro-mundista visando a "malandragem" de que os professores (e os médicos, os enfermeiros, os magistrados, os polícias, os militares e por aí fora) fazem parte.
Um dos países com maiores horários de trabalho
Ora trata-se de uma das maiores moscambilhas jamais vistas em Portugal e acontece ter sido esta manobra muito bem preparada por colaboradores altamente posicionados entre os quais Sua Excelência, o mano de Vossa Excelência, que após visita à Finlândia e talvez deslumbrado com a nórdica aurora boreal, descobriu e diz ter testemunhado que os professores por essas bandas passavam nas escolas cerca de 50 horas semanais. Se bem me lembro, como dizia o saudoso Nemésio, 45 horas trabalhavam os operários fabris por semana em 1970 e até trabalhavam 9 horas de segunda a sexta para folgarem ao sábado. É claro que ainda hoje muita gente em Portugal passa muitas horas no emprego, o que como Vossa Excelência e Sua Excelência, o mano de Vossa Excelência, sabem perfeitamente - tal não equivale a trabalhar; é também do conhecimento geral que sendo Portugal um dos países com maiores horários de trabalho da Europa é também um dos países que menor taxa de produtividade alcança.
Real avaliação do trabalho dos professores
Ora, nesta lógica da ocupação da "malandragem", para gaúdio de toda a restante "galfarragem" integra-se bem o faz de conta em que tudo é feito para que pareça que se faz alguma coisa, ou seja, é o faz que faz e todos continuam a fazer que fazem enquanto de facto realmente não se faz absolutamente nada ou muito perto disso.
Quanto a modificar o actual estado de coisas no Sistema Educativo, isso obviamente como Vossa Excelência sabe muito bem, não passa por medidas avulsas desta natureza, passa pela real avaliação do trabalho dos professores e das escolas e para além da criação de condições para esse mesmo trabalho, para que possam ser um pouco mais parecidas com as da Finlândia já que de momento não podem ser iguais (pelo realismo e adequação dos programas escolares e pelo efectivo controlo de desempenho e real produtividade dos inúmeros departamentos do ministério e pessoal que lhe é afecto). Não passa de facto só por questões salariais, apesar de ser absolutamente falso que os professores portugueses são os mais bem pagos da Europa, é que se me vierem com a questão do PIB, também os médicos portugueses são sem dúvida os mais bem pagos da Europa e disso Vossa Excelência nunca falou e o Sua Excelência, o mano de Vossa Excelência também não.
A realidade é tão bonita, quando vamos de visita
Aliás, Vossa Excelência que revela uma prolixa polimatia, uma vez que é mestre de tudo e mais alguma coisa, semelhando nisto alguns outros espíritos privilegiados com acesso igualmente privilegiado a canais deste nosso curto horizonte mediático, também é capaz de conhecer aquela anedota do inferno, em que o falecido à segunda vez que lá volta encontra uma paisagem muito diferente da que encontrou à primeira e perante a sua perplexidade, o demónio encarrega-se de o esclarecer: - "É que turismo é uma coisa, imigração é outra!".
Vossa Excelência há trinta anos que visita escolas sendo até em vida patrono de uma, fala com jovens que pelos vistos, no pior dos casos, se manifestam pelo silêncio que aconselha a quebrar com graças. Ora com certeza, que não pretenderá confundir o alto estatuto de Vossa Excelência, enquanto ilustre convidado com o miserabilizado estatuto (tornado miserável pelo poder, com medidas destas e quejandos) do professor que os alunos não conhecem e vai defrontar uma turma que ele também não conhece, muitas vezes cheia de indíviduos malcriados, que o poder respalda desarmando de qualquer tipo de autoridade o professor, apesar de anunciar o contrário. É que nestas coisas, Vossa Excelência haverá de concordar que como a cidade da canção - a realidade é tão bonita, quando vamos de visita, como geralmente acontece com Vossa Excelência: é que serviço é serviço e conhaque é conhaque!
De Vossa Excelência atenciosamente:
António José Carvalho Ferreira
Professor do Ensino Secundário














