Carta a Rui BentoPor Manuela Fonseca

Por Jornal Rostos
Barreiro, 18 de Novembro de 2005
Caro Rui Bento
Por um destes dias recebi, através da Internet, um poema de autoria desconhecida, como tantos outros, fazendo assim jus a origem certamente popular, com o título sugestivo de “Lágrimas de Mulher”. E li-o, de facto, na minha condição feminina, quase esquecida da profissão docente ligada à Língua e Literatura Portuguesa e identifiquei-me com o título e o tema da criação literária. E recordei, em memória bem recente, umas lágrimas, entre o escritório e a cozinha, que pensava não terem sido testemunhadas, à hora do fim do nosso jogo com a Ovarense, a boa companheira “Popular FM” a anunciar a derrota pela margem mínima que não desejava ouvir.
Era um dia especial para mim, 6 de Novembro, data do aniversário do meu saudoso pai, amante de locomotivas, maquinista aprumado e inteligente, de concertos, de teatro, de leitura, de liberdade, de natação, do Futebol Clube Barreirense cujos jogos, de futebol e basquetebol, comecei a frequentar aos quatro anos, na primeira metade dos anos cinquenta. Revi-o e à minha mãe no dia da inauguração do Ginásio-Sede que, dentro das possibilidades, ajudaram a erigir, o orgulho no olhar brilhante.
Revejo ainda os que me deram a vida, irmanados, nesse momento distante, com tantos outros numa obra que deu uma lição de querer e desportivismo ao país, aqui, no Barreiro, então vila, alfobre de trabalho, artes, associativismo, instrução, desporto e resistência à ditadura, sentimento que foi transversal a gerações, géneros sexuais, situações económicas e sociais − em síntese, uma das ESCOLAS de luta e dignidade do país.
Tudo nesse Domingo em que um trabalho de investigação que desenvolvo (por acaso, ou talvez não, numa vertente que abrange futebol) me impediu de ir convosco a Ovar, terra e gente lindas. Sozinha, para não me adivinharem as emoções (sabidas mesmo sem ser no lar, ainda que finja que não…), fiquei com o estudo, a rádio e a esperança um bocadinho abalada. Logo devolvida pelo filho mais novo que, chegado a casa na impaciência dos vinte anos e espreitando-me o rosto, me perguntou. “Que é isto? Choras pelo Barreirense? Deixa lá, ganhamos daqui por uns dias!”
Sim, fazia-o com saudades dos meus pais, do meu avô Fonseca a despedir-se da vida num dia de temporal, em jogo contra o Olhanense (o silêncio na bancada ainda de madeira no respeito por uma vida que se extinguia sem deixar o clube do coração). E volto ao alento que os jovens trazem ao velho e exemplar Futebol Clube Barreirense a cuja primeira classe de Ginástica pertenci. Os meus filhos, os atletas, os dirigentes das gerações recentes, no trabalho apreendido com os mais maduros, os treinadores arejados como o caro Rui Bento. São a “Esperança que não finda” e nos norteia, mesmo em situação financeira difícil, nunca iludida pelo Presidente, mesmo com os resultados menos felizes na Liga de Honra.
Que vão melhorar. Pela gestão competente e pelo historial do Clube, pelo que o Rui Bento sabe de futebol, pelo currículo distinto de que é portador, pela elegância com que dirige a equipa e encara os adeptos e os adversários, pelo valor e vontade dos jogadores. Que um dia evocará quando chegar a um patamar mais elevado na sua profissão. E que, positivos como todos queremos, serão motivo para mais outra lagrimazinha de alegria nos festejos dos golos contra a mais prestigiada equipa açoriana, já no dia 20 do corrente!
Cumprimentos.
Manuela Fonseca, sócia n.º 675














