“Em defesa do comboio eléctrico na linha do Sado”Por Manuela Fonseca
Por Jornal Rostos
Dormitava, por uma destas manhãs, no comboio, a caminho do Instituto Politécnico de Setúbal, em Praias do Sado. Acordei com a voz de um homem, suficientemente idoso para ter sofrido a ditadura (“Outra Senhora”? Algum historiador pode explicar-me o que é isso?) e não querer voltar atrás, como advertia uma canção no/do tempo de Abril, suficientemente jovem de espírito para defender ideias, que deixava, sob a forma de papel, nas mãos que as recebiam. Que entende justas quanto a uma rede de transportes que deve ser melhorada, a ferroviária.
− Sabe, minha senhora, é para que sejam cumpridas promessas da electrificação da linha até Praias do Sado. Até lá e não só até parte do percurso. Temos que exigir o que foi dito e não cumprido pela CP e a Tutela. Promessas que começaram já há seis anos.
Conheço este utente da linha do Sado de vista, das minhas recordações/memórias nas origens ferroviárias que ajudam a construir-me; é de uma geração de pessoas que, privada muitos anos de liberdade, à espera de condições de vida dignas, entende como uma questão de dignidade a melhoria da rede ferroviária que nos é mais próxima. Entregava um “Apelo”, em nome da “Comissão de Utentes da Linha do Sado” no sentido de uma concentração em três estações, no dia 24 de Novembro, uma das quais Barreiro-A.
Estava em casa, a trabalhar no escritório e, dez minutos antes dessa acção, arrumei os materiais e fui à estação atrás referida. Algumas dezenas de utentes esperavam pelo comboio e, à chegada, uma mulher e alguns homens desceram à linha e colocaram-se à frente da locomotiva, sob o olhar e interrogação a propósito da duração do protesto de agentes da autoridade, aliás com um irrepreensível comportamento democrático.
Perante a pergunta-apelo de alguns manifestantes a propósito de não haver ali estudantes da minha instituição, jovens pararam e ficaram a ouvir a leitura, feita por uma senhora, sob difíceis condições de visibilidade, da “Reclamação dos Utentes da Linha do Sado”. Este mundo diz-lhes pouco, habituados a uma vida que entendem, certamente, poder ser aperfeiçoada de outras formas. Mas respeitaram os graúdos que ali estavam, acompanhando-os.
É o entendimento daquelas pessoas cujas anos e percursos de vida nos induzem à admiração. Mais evoluídas do que outras, bem mais novas e instruídas que, em nome de estranha comunicação, me/nos envergonham com anúncios publicitários degradantes, na televisão, um deles com mulheres que agridem homens, o outro com voz feminina “ (…) como se eu fosse muito burra!”. A propósito: não há nenhuma organização de Direitos Humanos que refira tais barbaridades, em pleno século XXI, num Portugal − dito − evoluído, em plena União Europeia?
Manuela Fonseca














