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Quotidianos

A LUZ E O RITMO NA FOTOGRAFIAPor AUGUSTO CABRITA

A Beleza existe, de facto, em toda a parte – a dificuldade é saber encontrá-la!

Faz hoje, 13 anos que, por esta hora, o Barreiro e muitas personalidades do nosso país, acompanharam Augusto Cabrita, na sua última viagem.
Aqui, recordamos, um texto de Augusto Cabrita. Um exemplo vivo de como os Homens escrevem a sua eternidade.

8 min de leitura
A LUZ E O RITMO NA FOTOGRAFIA Por AUGUSTO CABRITA

Por Jornal Rostos

Quando o fotógrafo, por um impulso emotivo, não se contenta apenas em reproduzir mecânicamente a realidade e deseja interpretá-la com um cunho vincadamente pessoal, tem que atender, fundamentalmente, aos elementos essenciais da composição fotográf ica. Trataremos, neste artigo sobre composiçao, de dois desses elementos básicos da arte de compor: a Luz e o Ritmo. De facto, sem luz não pode haver fotografia, e é da sábia escolha deste elemento que o fotógrafo dá plasticidade as imagens. Nao basta, pois, – como é vulgar ouvir dizer-se – que uma fotografia «resultou» devido a acção única e exclusiva dum bom fotómetro!... A célula foto-eléctrica, quanto muito, é um óptimo auxiliar de que o fotógrafo dispõe para «medir» a luz, Mas o que é essencial, acima de tudo isto, é saber «interpretar» essa luz!

Claro que, ao falarmos de luz, temos que nos referir as sombras projectadas pelos corpos iluminados e é do equilíbrio entre as partes luminosas e as zonas escuras, que reside muitas vezes o êxito duma fotografia. Às sombras e as respectivas gradações dentro do claro-escuro, está reservado um papel importantíssimo na composição fotográfica, de tal modo que o fotógrafo deve saber provocar essas sombras, quer usando a luz artificial ou escolhendo a hora ideal do dia para fotografar. Falando do outro elemento essencial da composição fotográfica – o Ritmo – e definindo-o como sendo um equilíbrio de pontos de interesse que faz com que a vista realize o seu reconhecimento pela fotografia, sem a deixar «descansar» demasiadamente em quaisquer desses pontos, diremos que, do íntimo acordo entre estas duas condições – Luz e Ritmo – resultará o carácter e o ambiente da composição.
Tal como há pouco afirmámos, quando nos referimos ao papel que o fotómetro exerce no espírito de certas pessoas, como único responsável no êxito dum fotografia, diz-se, por vezes, que certa e determinada fotografia, tem vida, apenas porque houve «muita sorte» da parte do fotógrafo em apanhar uma série de pessoas em atitudes de franca actividade!

De certo que, o factor sorte e a espontaneidade de movimentos, ajudam muito o «caçador de imagens», mas a grande dificuldade reside, sem dúvida, em saber interpretar esse momento. E quantas fotografias não há que, apesar de serem arrancadas à vida real, não nos infundem uma sensação de vitalidade e de movimento? Por vezes, um objecto estático ou uma simples linha sábiamente fotografados podem emprestar-nos uma sensação forte de movimento e um automóvel em desenfreada correria não nos provocar qualquer nogao de velocidade. Tudo depende, pois, do arranjo rítmico da imagem!

E como tudo na vida é ritmo, se uma fotografia não for organizada de modo a que todos os elementos de que o fotógrafo dispõe sigam esse «caminho fácil» que a vista depois percorrerá, ao ser levada por uma sucessão ordenada de linhas, a fotografia resultará fria, estática – sem vida! E não é difícil, quando contemplamos uma boa fotografia, descobrirmos a razão por que ela nos infunde essa agradável sensação de vitalidade. Verificamos que essa fonte de energia tem origem na maneira como o fotógrafo concebeu ritmicamente a sua, obra, transmitindo-nos a impressão viva de quanto viu e sentiu. Uma vez traçado esse caminho fácil de se percorrer com a vista, verificar-se-á que, através dele, se poderá, construir um ARABESCO ritmico, por meio de linhas reais ou ficticias. A linha tem, por si mesma, uma grande potência de direcção e emotividade. A vertical, por exemplo, dá-nos uma impressão de g randeza ; à horizontal associa-se imediatamente a ideia de repouso e tranquilidade ; a diagonal é essencialmente uma linha de movimento, sugerindo acção, excitação e inquietude, enquanto que a curva nos dá, uma doce sensação de graciosidade, É, pois, através das qualidades emotivas das linhas, que podem ser sug eridas as mais diversas sensações de ambientes e estados de alma.

Análise do ritmo

Para ilustrar o que dissemos acerca do papel que o Ritmo desempenha na fotografia, escolhemos três fotografias de autores portugueses, com o fim de, ante a sua representação esquemática, analisarmos a maneira como o fotógrafo realizou a estrutura da sua obra e, ao mesmo tempo, demonstrar que o «clima» criado se deve essencialmente a interpretação que o autor deu ao motivo escolhido (oade a natureza não foi mais que um simples pretexto) dispondo duma maneira organizada os elementos constituintes da composição. Dissemos também que a linha possuia por si mesma uma grande potência de direcção e emotividade, e que era através das suas qualidades emotivas que poderiam ser sug eridas as mais diversas sensações de ambientes. Pois bem: a sensação que nos sugere a primeira dessas três fotografias que escolhemos para analisar – intitulada «Vento» – é de facto, como pretendeu o autor, o distinto amador Eng. Chagas dos Santos, a de «um dia de vento»!

É certo que um fotógrafo inexperiente, sem quaisquer conhecimentos das mais elementares reg ras de composição, também poderia ter fotografado este assunto, Todavia, uma vez apresentada a fotografia, verificariamos que o ambiente criado havia sido mais um assunto de roupa estendida, confusamente disposta, e nunca o de «um dia de vento»! Para se obter este efeito, houve que se escolher o ângulo ideal para a tomada de vista, de modo a que as linhas rítmicas produzissem todo o seu efeito emotivo. Esta fotografia é um exemplo frisante de RITMO ANGULAR, conforme se pode verificar através das linhas tracejadas na sua representação esquemática. O RITMO ANGULAR determina um movimento forte, com direcção muito definida. De facto, ao olharmos para esta prova, sentimos uma sensação forte de movimento da direita para a esquerda – como que um impulso produzido por uma violenta rajada de vento. É de notar também que todos os «pontos de interesse» desta fotografia, dispostos nesse «caminho fácil» de se percorrer com
a vista (referimo-nos à diagonal dominante desta prova) «ajudam», pelos seus ritmos ang ulares, a que se obtenha a sensação desejada. Repare-se que até a simples árvore, colocada na parte inferior da fotografia, imprime, pela agudeza do ângulo formado pela sua posição inclinada, um movimento dinâmico e agitado. Na realidade, quanto mais agudo for o ângulo mais o movimento se torna violento e incisivo, ao contrário dos ângulos muito abertos que nos dão a sensação dum movimento lento. A segunda fotografia que apresentamos para exemplificar outro arranjo rítmico – RITMO EM ESPIRAL – é a prova «Homem do Mar» do autor deste artigo. Se olharmos para a representação esquemática desta fotograf ia, notamos que, o desenvolvimento linear do seu arabesco, toma a forma duma espiral.

De facto, a vista «entra» naturalmente pelo ombro – cuja posição dá estabilidade à composicão – seguindo depois o «seu caminho» num movimento em espiral em redor da cabeça do pescador, para se deter finalmente na borla do barrete – que marca, por assim dizer, o terminus «dessa viagem». Por último, escolhemos para fazer a análise ritmica, a magnífica prova – «Dinamismo» – do consagrado amador de Coimbra, David de Almeida Carvalho. Esta fotografia, devido ao seu desenvolvimento linear, é um sugestivo exemplo dum outro arranjo rítmico, ou seja : RITMO EM HÉLICE
O rítmico em forma de hélice dá-nos, pelas qualidades emotivas
das suas linhas, uma sensação de força, excitação e movimento. De facto, se olharmos detidamente para a fotogravura da prova «Dinamismo» e em seguida para a sua representação esquemática (na qual construímos, em linhas tracejadas, o respectivo arabesco ritmico) verificamos que a nossa vista entra, naturalmente, pela parte inferior esquerda da fotografia, sendo depois levada a percorrer «aquele caminho fácil», num impulso ascensional, com um breve momento de repouso no primeiro ponto de interesse que encontra: o elemento humano, colocado no «ponto forte» da composição. Este elemento – uma banhista que sobe uma escada – «reforça» o sentido rítmico da imagem, ajudando a vista a percorrer o resto do «seu caminho».

O segundo ponto de paragem, dá-se precisamente quando os degraus do primeiro lançqo de escada acabam de traçar a primeira curva, Ai, a vista já não se detém tanto tempo quando da «contemplagao da figura humana», pois num breve instante, toma como que alento, para se lançar vertiginosamente NUM MO- MENTO HELICOIDAL para os outros degraus da escada, a qual, sempre uniformemente iluminada, contribui para que a vista não se distraia e continue o seu caminho, até novamente se enrolar (agora num movimento mais lento) libertando-se, por fim, ao sair pela parte superior esquerda da fotografia. Como vimos, o arabesco ritmico que serve de estrutura a esta prova é uma autêntica hélice, que nos sugere, pelo seu desenvolvimento, uma sensação de potência, excitação e movimento. Está pois absolutamente certo o título que o autor deu a esta prova denominando-a «Dinamismo». O motivo escolhido – uma escada de cimento armado! – é, aos olhos dum leigo em composição fotográfica, um assunto banal, sem expressão, sem movimento – sem vida. Todavia, a escolha feliz do angulo e a sua excelente iluminação, fizeram deste assunto, aparentemente frio e estático, uma bela fotografia, plena de vitalidade e movimento. A Beleza existe, de facto, em toda a parte – a dificuldade é saber encontrá-la!

Augusto Cabrita

Nota - A foto que ilustra este artigo é uma apenas a evocação do espaço que Augusto amou... o tejo e os Moinhos de Alburrica.

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