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Quotidianos

“Aquela Noite de Natal enterneceu o Arestas de Vento”Por Ricardo Cardoso

“Aquela Noite de Natal” o mais recente livro de José Casanova foi lançado, com muito êxito, no passado domingo, dia 12 de Fevereiro, no programa radiofónico Arestas de Vento.

4 min de leitura

Por Jornal Rostos

Foi uma honra receber e entrevistar José Casanova na Pal fm. Porém, não será demais repetir: Na organização das ideias literárias, a sensibilidade política e humanitária do antigo combatente pela liberdade esteve sempre viva. E os ouvintes perceberam essa presença… O tempo de duração da emissão foi pequeno para satisfazer a curiosidade daqueles que confirmaram esse interesse manifestando inquietações públicas ao homem que representa o ardor, a voz, o desejo social da pessoa reprimida nas teias da hipocrisia e das arestas de vento. Não foram poucas as vezes que o protesto inesperado e irónico desses amigos auditores da revolta serviu para animar e reforçar a utilidade cultural de duas horas de conversa interventora. A poesia saída pela prosa do livro “Aquela Noite de Natal” enterneceu os livres-pensadores Alexandre Kasesa, Alexandrina Pereira, Fernando Caria, Mário Gomes Silvério, Fernando Tavares e Luís Artur de Sousa que na intensidade da hora devolveram ao autor o amor, a paixão e a confiança no amanhã que aquela obra não acabada em suporte de papel fez renascer nesses cidadãos da terra. Mas ficaram com a responsabilidade de completar em causa própria o que não foi escrito. Afinal há beijos ideológicos, beijos de camaradagem, beijos de loucura resistente enfarinhados em cadernos e rascunhos. O indivíduo cultural de hoje não pode viver enfastiado pelo preconceito, sem objectivos definidos contra o marasmo morno que lhe saiu em sorte permitida pela mediocridade do regimento, sob condição de mandar bolas para o pinhal.

A cultura tem grande força motivadora para caminhar na fé do sonho. É neste contexto ambíguo que emerge a alma destes criativos que abraçaram a criatividade do escritor José Casanova. É como digo: O autor e o político são um só e, por isso, merecem que os leitores meditem no recorte “passado a tinta de imprensa” de uma bronca dada a uma raça emergente de sociólogos da treta.

Vamos ler… todos juntos… o texto corrosivo de José Casanova… cada cabeça sua sentença!

“Sempre atento e interessado em matéria de declínio do PCP, o inevitável Público, bateu à porta de um condomínio de «sociólogos que estudam o fenómeno político» e perguntou como era. A resposta foi «unânime» e, presume-se, dada em coro síncrono: o PCP «está divorciado» da sociedade portuguesa, «uma sociedade individualizada e globalizada» por efeito da «assunção do consumismo capitalista». Assim sendo, segundo o caudaloso parecer sociológico, o fim do divórcio do PCP com a sociedade portuguesa, passaria pela aceitação e louvação do individualismo e da globalização capitalista – o que, digo eu, tornaria inútil a existência do PCP, já que a sociedade portuguesa é mais do que bígama, tantos são os partidos que a obrigaram a, com eles, contrair matrimónio individualizado, globalizado e capitalista. A dada altura da representação, eis que, do coro, emerge um solista: «O PCP continua agarrado a uma mentalidade de velho tipo, de certezas repetidas até à exaustão, quando este tipo de ideologia não é muito compatível com o tipo de sociedade presente». Infelizmente, o solista (obviamente possuidor de uma mentalidade de novo tipo, coeva da ideologia da ordem natural das coisas) não nos ensina que «certezas» são essas que o PCP «repete até à exaustão». Em contrapartida, o homem derrama-se em trinados sobre a «mentalidade de velho tipo», essa ideologia malvada que «surge onde são espezinhados direitos» e, assim sendo que faz ela aqui, no nosso jardinzinho à beira-mar plantado?, nesta nossa «realidade social de hoje» em que «é valorizada a cidadania, a participação»? Direitos espezinhadso?, qual quê?, isso era dantes, hoje está tudo cheio de direitos, há cidadania a dar com um pau e a participação até provoca engarrafamentos. Que o digam os dois milhões de cidadãos portugueses que exercem o direito à pobreza; e os 200 mil que a cidadania ilumina com a fome ou a sub-alimentação; e os 500 mil que participam no coro do desemprego cidadão; e os mais de um milhão que participam, com direitos e em cidadania plena, na modernidade do trabalho precário; e por aí fora, por todo o País. Por todo o País? Não: algures, um condomínio de sociólogos marca o tempo que vivemos: sem direitos espezinhados e com a bandeira da cidadania desfraldada. E a da participação. Porque, em verdade vos digo, ó sociólogos: se há coisas que caracterizam luminarmente a sociedade em que vivemos, a participação é uma delas. Ó se é!”

Foi uma honra receber e entrevistar José Casanova na Pal fm. Porém, não será demais repetir: Na organização das ideias literárias, a sensibilidade política e humanitária do antigo combatente pela liberdade esteve sempre viva. E os ouvintes perceberam essa presença…

RC

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