EU BEBI ÁGUA DO BENGOPor Rosário Vaz

Por Jornal Rostos
Deslocar-me a Angola, em pleno mês de Janeiro foi, antes de mais, despir-me da carga de roupa que aqui albergamos, mas foi também despir-me de preconceitos, de fantasias que um pouco todos fomos acumulando ao longo dos tempos; foi ainda transpor para a realidade o conhecimento que a literatura daquele país me foi proporcionando.
Conhecer Angola era um sonho que desde há muito acalentava, diria mesmo desde os meus 17/18 anos, altura em que privei muito de perto com colegas de estudo, de vários países africanos. Tive agora a excepcional sorte de o fazer pela oportunidade criada por uma grande amiga, a Sara Chaves Proença, angolana de nascimento e digna representante da canção do seu país.
Porquê este fascínio? Uma cadeia de factores, alguns inexplicáveis, mas a que não faltava uma curiosidade pelo diferente, a necessidade de confrontar ideias muito díspares sobre aquele país do antes e do depois da independência, o interesse por culturas que separam continentes, o fascínio pelo exotismo das paisagens e das gentes.
Diz-se que quem beber a água do Bengo, não mais se desliga de Angola. Eu não sei que água terei bebido, mas é certo que Angola me agarrou.
Aquando da preparação da partida, um encontro casual, na Embaixada de Angola em Portugal, com um português que há muito vive em Luanda, deixou-me a pensar numa frase que ele deixou cair ao longo da conversa: Luanda é um “musseque”grande. Efectivamente ele tinha razão.
Em Luanda vai-se à porta e compra-se o peixe fresco
À época colonial, Luanda tinha 500 mil habitantes; hoje, em resultado da fuga da população, dos campos para a cidade, tem à volta de 6 milhões. Por isso, é bom de imaginar que Luanda é, particularmente, nos bairros periféricos à Baixa, um verdadeiro “musseque”. Faltam esgotos, falta a recolha atempada do lixo, faltam habitações condignas e regras de vida quotidiana. Sim, porque, por exemplo em Luanda, os carros, dos mais modestos aos topo de gama, são como formigas em carreiros intermináveis, pese embora a presença de muita polícia de trânsito, dos velhos “sinaleiros de trânsito” de que muitos de nós nos lembramos ainda.
Mas bom, para além de tudo isto, em qualquer rua, beco, bairro ou zona mais degradada de Luanda, não falta nada.
Em Luanda vai-se à porta e compra-se o peixe fresco, saboroso e verdadeiramente do mar ou do rio – ali não há viveiros - a fruta, o pão, a mandioca, a pitanga, o caju, a farinha para o funge, o frango para a moamba, mas também as agulhas, os pensos rápidos, as vassouras, os plásticos, o aspirador de mão, etc, etc, etc. Porém, em Luanda, quem quiser ir ao hipermercado pode fazê-lo e, para se sentir europeu, só falta o stress que lá não sabem o que é! Em Luanda, a palavra negócio invade todos e cada um. Ao longo das ruas, mulheres, homens, rapazes e raparigas sentam-se à frente de um aglomerado de produtos, e esperam pacientemente pelo negócio que lhes garantirá viver um dia de cada vez.
A par disto, há grandes empresas e comércio dos mais variados ramos e do mais moderno que se possa imaginar.
A esperança e a vontade de mudar estão em efervescência
Angola libertou-se da guerra há 4 anos e começa agora a aprender a dar os primeiros passos de país independente. Depois de tantos anos de domínio exterior, não é fácil caminhar sozinho, que o mesmo é dizer autogerir a riqueza natural de que dispõe. Entretanto, preparam-se eleições, diz-se que para 2006/2007, embora se debatam com o problema do recenseamento, já que as grandes áreas, ainda pejadas de minas, lhes impedem o acesso a uma boa parte da população.
Em Luanda, falei com muita gente, do dito comerciante de rua, às famílias que têm o seu emprego e vivem do seu ordenado, mas também com estudantes e professores universitários.
Para além de Luanda, visitei Benguela, Lubango (antiga Sá da Bandeira) e o Lobito. Estas são cidades que partilham, de igual modo, das características e da beleza natural da África, mas paralelamente mais pacatas, porque já muito organizadas e, portanto, com outro ritmo de vida.
Foi muito interessante, diria muito enriquecedora, a oportunidade que tive, pois sem pôr de lado a ideia de que, num país tão grande e tão rico, há dinheiro que falta, fiquei com a ideia de que Angola está a renascer. Angola é um país onde a esperança e a vontade de mudar estão em efervescência. Há projectos. Há ânimo e forças que se movimentam. Em Angola, o espírito de Abril, que por vezes parece ter morrido entre nós, é uma realidade que nos envolve e faz acreditar que é possível começar de novo.
Rosário Vaz














