InjustiçaPor Nuno Cavaco

Por Jornal Rostos
Por mais do que uma vez ouvi alguém dizer que se deveria reduzir os salários dos portugueses em 10%, para aumentar a produtividade nacional e a competitividade da economia. Que apareçam iluminados a apresentarem propostas destas não me admiro, agora, que sejam muitos dos portugueses assalariados a defende-las, causa-me estranheza, ainda por cima pessoas com conhecimento da realidade nacional.
Quem conhece a nossa economia sabe que existe fuga ao fisco, sabe que a riqueza que o país declara não é a que o país produz, sabe que por isso a produtividade dos trabalhadores portugueses não é calculada com exactidão e apresenta valores muito inferiores à realidade.
Falar em baixa produtividade dos trabalhadores quando algumas das maiores empresas portuguesas não declaram o que ganham é pura e simplesmente um exercício meramente especulativo.
De certo que se todos declarassem o que ganham, ou seja, se houvesse justiça fiscal, a avaliação da nossa produtividade mostrava valores muito mais elevados e animadores e todos ganharíamos com isso.
Para além de alguns “patrões” sugerirem a descida dos salários com base em valores de produtividade calculados por baixo e que são também da sua responsabilidade, estes senhores passaram a “recrutar” trabalhadores em condições de precariedade (no último ano 70% da criação de emprego é precário), porque, dizem eles, é mais fácil despedir e assim não se tem encargos.
A precariedade do emprego (promovida por um código do trabalho que conta com o apoio do P.S., P.S.D. e C.D.S.-P.P.) e os baixos salários não chegam para estes senhores, é preciso mais, muito mais.
Todos sabemos quão espectaculares foram os lucros das maiores empresas portuguesas, todos sabemos que algumas dessas empresas são favorecidas pelo Estado, o que prejudica todos os portugueses e agora, também sabemos, que alguns dos “donos” dessas empresas defendem uma redução salarial de 10%, mesmo quando o custo de vida aumenta, alegando o bem da nação. Não vão por aí, os portugueses já não aguentam o esticar do cinto, a maior parte dos portugueses já não tem cinto.
É caso para dizer que o altruísmo destes senhores, cuja ambição os leva a querer ganhar o mais possível é incompatível com a necessidade de sobrevivência dos seres humanos que eles exploram.
O altruísmo destes senhores é tanto que confundem o interesse deles com o interesse de Portugal, com o interesse de todos nós. Para eles, o desenvolvimento passa por ganhar o maior número de euros possível, nem que para isso as pessoas que com eles trabalham passem fome e outras necessidades.
Mas o desenvolvimento de um país não é nada disso. O desenvolvimento de um país passa pelo melhorar das condições de vida da população, por proporcionar aos cidadãos serviços de qualidade, garantindo que as suas necessidades básicas possam ser satisfeitas.
O desenvolvimento do país não passa pelo acabar com a classe média, com o cavar do fosso entre ricos e pobres, por privilegiar grandes empresários e prejudicar os pequenos e médios empresários.
O desenvolvimento do país passa pelo apoio a quem necessita realmente e não por fartar vilanagem. Se a redução salarial de 10% fosse uma realidade imaginem como seria a vida de um trabalhador que aufere hoje o salário mínimo e vê o custo de vida aumentar de dia para dia. Injustiça? Pensem nisto é muito importante.
Nuno Cavaco
Militante do Partido Comunista Português














