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Quotidianos

“Dez anos é muito tempo…”

Tantas semanas sem contactar com os meus leitores mediáticos (que os tenho, certamente, porque o António Silvestre está admirado com a ausência das crónicas que escolhi como forma de comunicação jornalística) e só com curtas mensagens de carácter pessoal pela madrugada. Feitas de pequenos discursos que me quebraram a solidão, perdida no meio de actividades de âmbito profissional que reputo de inúteis.

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“Dez anos é muito tempo…”

Por Jornal Rostos

No regresso ao convívio com as pessoas que têm a gentileza e a amabilidade de tomar atenção aos meus textos, atrevo-me a perguntar-lhes se se lembram do saudoso Manuel da Fonseca e do poema que, em boa hora, produziu, “Coro dos Empregados da Câmara”, sobretudo do excerto em que o sujeito de enunciação lamenta as burocracias que arrancam os trabalhadores da administração pública ao sol e ao convívio, “fechados” numa “vida vazia”. Como eu, durante este interregno em que, em vez de me ter desenvolvido na profissão/missão/paixão que abracei, em vez de ter convivido com a família, os amigos, os colegas, os confrades das várias manifestações de cultura, estive também “para aqui” fechada, a preencher formulários e documentos em duplicado, a fazer fotocópias, também em duplicado, que gastam energia aos docentes e recursos ao Estado que poderiam ter bem melhor aproveitamento (folhas de papel, tinteiros de impressora, espaços cheios de materiais que ninguém vê, enfim, tempo e dinheiro tão inutilmente desperdiçados que terão que ser revistos por quem tutela o sistema educativo do país).

“Dez anos” cantou um dia Paulo de Carvalho (artista cuja categoria, cujo cuidado no que oferece ao público e cujo empenhamento social podem servir de modelo de profissionalismo a quem quer um Portugal moderno). “Dez anos” envolvida por um aborrecimento enorme foi como me senti nestes curtos meses de afastamento. Como já passou o tédio, escuso, por optimismo, de antecipar o próximo e passo para alguns comentários acerca da cidade, do país e do Mundo.

A cidade, a nossa, à espera que os arranjos que envolvem a Avenida Alfredo da Silva e as ruas limítrofes sejam concluídos sem mais nenhum acidente provocado pelos buracos e pedras de passeios a esmo, num convite às quedas de pessoas menos felizes e menos treinadas para os poderem evitar. Uma espécie de barreiras olímpicas desfasadas no espaço e no tempo: nós, cidadãos honrados, exigimos mais cuidado nas empreitadas! Com o edifício da sua Escola Superior de Tecnologia em fase avançada das obras, objecto da atenção da autarquia, corporizada há horas na visita dos seus responsáveis máximos, um pólo de crescimento académico e profissional na formação de engenheiros, merecido pelo Barreiro, pelos Barreirenses, pelos que dão, elementos de gestão, docentes, funcionários e alunos, o melhor nas instalações provisórias da instituição, sitas na Rua Stinville, no Quimiparque, nas quais presto, com gosto redobrado, colaboração semanal como professora de Língua Portuguesa na vertente de Técnicas de Comunicação.

A cidade, a nossa, com o orgulho de ver Carlos Humberto de Carvalho na presidência da Área Metropolitana de Lisboa, órgão que, pela constituição partidária do grupo de responsáveis escolhidos (PCP, PS e PSD), poderá ser um exemplo de que a união faz a força e de que Abril tem um dos seus pilares no pluralismo.

A cidade, a nossa, espelhada na população através de ofícios, artes, ciências, desportos, educação formal, epistemologia (a propósito: que irei dizer daqui por uma semana, como interlocutora, na Cooperativa Cultural Popular Barreirense, de uma das grandes figuras desta terra, o Engenheiro Caro Proença, conferencista convidado? Homem a quem a cidade deve prestar a homenagem que se impõe, agora que outro emérito cidadão, Mendes Costa, se viu rodeado, publicamente, por muitos dos que o admiram, num sinal de apreço no qual, por estarmos ausentes do país, o meu marido, Manuel Alpalhão, e eu própria não tivemos ensejo de participar mas que saudamos pela justiça de que se revestiu) progride.
Barreiro com neve, ainda que episódica, há poucos dias, a fazer recordar aos que éramos crianças há cinquenta anos a que então caiu abundantemente: as brincadeiras no Parque (o nome de então afastava alguns dos mais politizados de por ele passar, a esperança na mudança de regime que lhe desse outra designação: assunto a ser eventualmente investigado pelos historiadores que tanto nos prestigiam, alguns meus amigos), os bonecos feitos pelos mais habilidosos, a sede do FC Barreirense em fase de conclusão e as minhas primas e madrinhas, Maria Lucília e Maria Helena Horta, a treparem comigo, clandestinamente, ao seu ponto mais elevado de onde vimos a deslumbrante paisagem, se ainda me lembro, nesta e na outra margem do Tejo. Mestre Augusto Cabrita tornar-nos-ia, a velha máquina de reinterpretar o quotidiano que fez dele nome internacional da fotografia a captar todos os pormenores dessa estranha luminosidade na vila, inesquecíveis.

Neve que, vi directamente e na televisão, enquanto assistia, em casa, com a minha sogra, ao jogo de basquetebol da Liga TMN, entre Barreirense e Benfica. Que trouxe algo de novo ao Pavilhão Luís de Carvalho (como este companheiro de infância ¬¬ – que ficou sem alguns brinquedos que lhe destruí para ver como eram por dentro, característica que um dos meus filhos herdou ¬¬¬ – merece o nome no excelente Pavilhão Municipal que enriquece a Cidade Sol e o Concelho!). E que, bem perto, no meu local institucional de trabalho, a Escola Superior de Educação de Setúbal, um colega que muito estimo, Professor José Duarte, docente de informática dotado para as artes, da canção às fotos, registou, com o belo edifício Siza Vieira que nos acolhe ainda mais bonito pela brancura em flocos tão bem retratada. José Duarte que nós, barreirenses, poderíamos chamar para nos ajudar a evocar, em 2007, Zeca Afonso, o trovador que também fez do Barreiro esperança antes de Abril, vinte anos passados sobre o seu precoce desaparecimento, em comemorações que fizessem História. Que pensará disto o meu querido Artílio Baptista, membro da equipa coordenadora da Universidade da Terceira Idade e coordenador do voluntariado na mesma, que, com os irmãos e o pai, seu homónimo e destacada figura da luta contra a ditadura, foi amigo íntimo de José Afonso? Acrescento que José Duarte foi um dos mentores da evocação, linda, dos 30 anos de DEMOCRACIA na ESE da capital do nosso Distrito.

O país: ouvi hoje, através da rádio e da televisão, em simultâneo, para não perder pormenores, o debate mensal, em sede própria, o Parlamento, entre o Governo e a Oposição: civilizado, funcional, explícito dos caminhos trilhados e a trilhar no sentido de criar riqueza, postos de trabalho, aplainar dificuldades de quem mais necessita, em suma, de não adiar o presente e, assim, começar a elaborar um porvir com mais dignidade e consideração pela população. Com um Presidente da República, Jorge Sampaio em fim de mandato, reserva da democracia, e o já eleito, Cavaco Silva, com a discrição habitual nele, a preparar com tranquilidade a chegada a Belém onde, esperamos, continue sem se conformar com entraves à prossecução de um caminho em frente, e dele saia, sempre que necessário, para Portugal não perder mais tempo rumo ao que está por construir no interesse de uma comunidade mais justa, solidária e avançada e multicultural.

O Mundo: não entremos, senhores, em guerras estéreis por causas que são apenas pretexto, como umas caricaturas sem qualidade artística mas que representam a liberdade de expressão a que, felizmente, muitas mulheres e homens se habituaram em todas as latitudes e longitudes. E que cada um(a) possa ter, ou não, em paz e sossego, confissão religiosa sem ser molestado pelo(a) vizinho(a), nesta pequena aldeia global chamada Terra!

Manuela Fonseca

24 de Fevereiro de 2006

PS: Arteviva pelo Arte Viva: Noites de Lua Cheia para nos rirmos até mais não poder, na admiração continuada por conterrâneos que são mestres na Arte de representar!

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