EU BEBI ÁGUA DO BENGOOBRIGADA ÁVÓ!
Por Rosário Vaz

Por Jornal Rostos
Após um primeiro texto sobre Angola, que conheci sob uma curiosidade sem limites, e pouco tempo depois da minha chegada, a notícia que ressalta é a da cólera a provocar mortes e muita preocupação em Luanda. De repente, senti-me transportada para os Bairros referidos pela Comunicação Social: Boavista, Ingombota, Maianga, e percebo porque há cólera em Angola ou em qualquer outro lugar onde as condições sanitárias inerentes à precaridade de vida sejam o mote das populações mais desfavorecidas.
Paralelamente, não posso deixar de reconhecer que, muito próxima desta realidade, há outra que muito me tocou, porque fui alvo dela. Falo da solidariedade e do espírito de “acarinhamento” de que são capazes os angolanos, para todos em geral e muito particularmente para os que são seus irmãos de sangue. Foi isso que presenciei, porque foi isso que, a toda a evidência, aconteceu aquando da chegada de Sara Chaves a terras de Angola.
Sara Chaves, a voz bem timbrada que os barreirenses tiveram oportunidade de ouvir algumas vezes, há muitos anos atrás, nos Penicheiros ou no Clube 22 de Novembro, a angolana de nascimento, mas barreirense por casamento com o bem conhecido Zé Caro Proença, sendo alguém que, os que a conhecem bem, sabem ser tímida e discreta, não conseguiu passar despercebida, mal pôs os pés em Luanda. Os seus muitos anos de profissional da Rádio Oficial de Angola e simultaneamente a sua afirmação precoce no campo artístico, foram recordados, celebrados e muito acarinhados por colegas de oficio(s), pela população anónima e por muitos, muitos amigos. Usando uma das muitas expressões de afecto entre os angolanos, todos lhe iam aberta ou intimamente dizendo “Obrigada Ávó”!
Foi para mim um muito grato prazer viajar com a Sara Chaves por razões óbvias da grande amizade que nos une, mas foi, confesso-vos, emocionante perceber que, passados trinta anos da sua ausência, em Luanda, Benguela, Lubango, Lobito (porque foram só estes os locais que visitei com ela) os angolanos lhe estão profundamente reconhecidos pelo que fez de profissionalmente muito bom, pelo modo como deixou gravada na memória dos seus, a bondade e a capacidade de ajuda ao seu país.
O reconhecimento foi tal, e tão intensamente manifestado, que a Sara chegou a abanar nas suas muitas forças, pois as emoções foram mais fortes do que elas. A certa altura ficou doente e até febril, mas tenho para mim que a maleita não era física, pois entre a febre e os espectáculos em que participou havia momentos que constituíam verdadeiros hiatos da maior felicidade e entrega aos ensaios que a esperavam e a que ela nunca disse não.
O que me parece importante sublinhar é que Angola não esqueceu, não esquecerá, certamente, os que, como a Sara Chaves, ajudaram a digerir momentos de dureza extrema, mas também a gerir a esperança de dias melhores.
O palco do Tropical, assim se chama a casa de espectáculos onde cantou, encantou, emocionou e foi aplaudida, recebeu muitos artistas angolanos do presente e do passado. De entre eles destaco o homenageado Elias Dya Kymuezu e Sara Chaves, para além do bem conhecido brasileiro Martinho da Vila.
Visitar pela primeira vez Angola, e fazê-lo no envolvimento que se adivinha o mais caloroso, porque na companhia da Sara, foi um privilégio e uma alegria que jamais conseguirei apaziguar dentro do meu espírito acalorado de viajante.
Rosário Vaz
P.S. A grafia “Ávó” é tão só a tentativa de reproduzir a afectividade que a pronúncia acarreta consigo.














