Comentário à crítica de um dos “amigos do Carlos HumbertoPor Mário Durval

Por Jornal Rostos
Meu caro Zé Encarnação
Ao contrário de ti, decidi responder directamente ao teu artigo. Tomarás conhecimento dele se o Sousa Pereira achar que o “Rostos” admite estes debates tipo “blog decente”. Se ele não for nisso, eu depois mando-te um mail. Porém, se decidi fazê-lo é porque acho que vale a pena debater ideias contigo e que este debate pode ter importância para o nosso concelho e despertar algum interesse para os leitores do “Rostos”.
Fui impelido a fazer isto não pelas críticas que me fazes, mas por considerar que muito provavelmente não fui claro na minha exposição, o que permitiu leituras, pela tua parte, que não correspondem às minhas intenções. Por outro lado, fiquei muito satisfeito por ter uma crítica de um dos “amigos do Carlos Humberto”, daqueles que considero com maior clareza e espírito crítico. É agradável.
Fico satisfeito por exigires de mim “uma coisa mais substancial”. Embora reconheça que te defraudei, informo-te que a minha intenção era abordar somente a forma como o problema da participação foi tratada pela Assembleia Municipal e sobretudo mostrar a contradição entre a importância que o teu partido diz dar à “coisa” e a forma como a trata quando é preciso pô-la em prática.
Vou tentar clarificar melhor as coisas para que não restem dúvidas. Ao contrário do que afirmas, ou do que te fiz entender, eu aprovo integralmente a opção do Carlos Humberto ser coordenador do pelouro da Participação e Cidadania”. Mais, aplaudo essa opção pois, se durante a campanha foi assumida a criação deste pelouro como uma das linhas estratégicas fundamentais do PCP, só a coordenação do Presidente da Câmara corresponderia àquele desiderato estratégico. Como partiste de uma perspectiva errada da minha opinião sobre a coordenação do Pelouro, as conclusões que tiraste só podem sofrer de distorções. Tentarei, por isso, clarificar estas questões pois, ao contrário do que poderia deduzir-se da tua “carta”, não são questões de lana caprina, nem de mais ou menos uma comissão ou coordenação para o BE.
De facto a questão central é que os actos do PCP não correspondem às suas palavras, a partir do momento em que outros entram a disputar as ideias. A realidade que estamos a começar a ver, é que o PCP não mudou, ao contrário do que pretende fazer passar. É ouvir alguns dos elementos da Assembleia Municipal a trazer à baila constantemente a maioria numérica: “Vota-se e pronto”. E era esta contradição que eu queria trazer a lume para que o PCP possa reflectir, para melhor desempenhar o que prometeu aos barreirenses. Não estou a pedir ao PCP/CDU que vote a favor de políticas que outros apresentaram aos eleitores, mas a exigir coerência nas opções que se deduzem das propostas eleitorais do próprio PC.
Claro está que os vários partidos têm toda a legitimidade para tomarem as posições que querem, mas também ficam naturalmente expostos ao debate das suas posições. E também qualquer cidadão o pode fazer, mas ao contrário do que muitas vezes aconteceu e continua a acontecer, não verão o BE na briga de que “a minha boneca é mais bonita que a tua”, nem a deixar cair posições políticas de fundo ou questões de princípio só para se sentar à mesa do orçamento. O BE terá o protagonismo que merecer pelas posições e propostas políticas que tiver para apresentar aos cidadãos do Barreiro e não por servir de trampolim para lugares de poder.
Meu caro Zé, foste tu que reduziste a posição do BE a uma questão de lugares de coordenação nas comissões, quando de facto as questões são mais importantes.
O BE entende que devia ter como todas as outras forças políticas um lugar de coordenação nas comissões. E esta posição é igual tanto existindo quatro como cinco comissões. Não propusemos a quinta comissão para termos uma coordenação. E esta posição era válida mesmo que o Bloco estivesse em maioria. Faz parte da nossa matriz identitária a partilha e o privilégio da diversidade. Defendemos que a riqueza das propostas políticas advém da diversidade e não da unanimidade e que ao nível de um órgão com características de representação directa dos cidadãos é importante que todos os eleitores se sintam igualmente dignificados do ponto de vista da estrutura, até porque este tipo de lugares não altera a relação de votos ao nível da decisão da Assembleia.
Aqui, provavelmente, amigo Zé, teremos diferenças de opinião, pois enquanto condescendes e achas que não vem mal nenhum ao mundo, eu acho que é imperativo e a atitude mais correcta para que os eleitores possam começar a fazer as pazes com a Assembleia Municipal.
A criação da Comissão de Acompanhamento do Pelouro da Participação, Democracia e Cidadania foi proposta pelo BE para que a Assembleia Municipal desse à matéria a dignidade que o Presidente da Câmara lhe tinha atribuído. Não faz sentido que não exista uma comissão que acompanhe o pelouro politicamente mais relevante, não só pela dependência directa da presidência, mas também pelo facto de ser a primeira vez que existe, necessitando, naturalmente, de um acompanhamento constante por parte da Assembleia. E não queiras iludir a questão atribuindo à conferência de líderes esta tarefa, pois, não a fará em condições, no meio de múltiplas responsabilidades. E se a tua preocupação, legítima aliás, é dar maior dignidade e relevância à conferência de líderes, então que se concentrem os coordenadores dos grupos Municipais em encontrar soluções para que as Assembleias sejam politicamente relevantes, com debates interessantes, e não as pastelices intermináveis que afastam os cidadãos.
Por fim, quero também concordar contigo quanto ao considerares que “muito mais que um qualquer plano, programa, projecto ou pelouro, as questões da Cidadania, da Participação e da Democracia são questões de concepção e de atitude político/filosófica”. Mas, sejamos consequentes. Se criamos um pelouro, teremos de lhe atribuir recursos humanos, terá de ter um plano de actividades, um orçamento e um acompanhamento político. E como tu sabes, não foi o BE que inventou o pelouro… Só pedimos coerência e consequência. Mas tal como tu dou sempre o benefício da dúvida aos outros e às suas opções. Vamos esperar calmamente para ver quem tem razão. O tempo também ajuda a fazer avaliações.
Termino com satisfação este texto, pois, penso que talvez possa ser um início de uma nova forma de debate político na nossa terra, onde as pessoas ponham no terreno argumentos políticos e não chavões e frases feitas.
E envio um abraço de amizade
Mário Durval
– Concelhia do Bloco de Esquerda
PS – Aquela do espírito anti-PC já não cola… e não te coles a estes chavões que tens opinião política suficiente para não te meteres nisso…














