Telhados de vidroPor Ricardo Botas
Por Jornal Rostos
O PSD e o PS recuperaram, recentemente, o tema dos assessores da Câmara Municipal de Setúbal com uma candura quem nunca teve telhados de vidro.
Na verdade, é preciso ter uma enorme falta de vergonha (e de imaginação) para acusar, mais uma vez, o presidente da Câmara de Setúbal de ter assessores, misturando os valores mensais gastos com todas as prestações de serviços na CMS, nas quais estão até as dos monitores de natação das piscinas municipais ou técnicos de som, com os valores pagos, também por recibo verde, a alguns dos prestadores de serviços que trabalham na autarquia em áreas bastante específicas, produzindo trabalho palpável e útil, tal como os restantes trabalhadores do município.
De uma vez por todas, é necessário que haja um entendimento entre todos os partidos sobre esta matéria e que se deixe de fazer demagogia com um tema que apenas serve de arma de arremesso político e que, mais importante, ao ser utilizado com tanta frequência, no caso do PSD e do PS, apenas revela a total falta de ideias e seriedade política de quem o põe constantemente na praça pública.
É fundamental que se assuma como normal na democracia que os responsáveis políticos, onde quer que desempenhem os seus cargos, possam e devam ter quem os apoie técnica e politicamente na gestão quotidiana
O que o PS e o PSD têm feito com esta matéria é esquecer as suas próprias práticas. Como é público e notório, a situação económica do País também não será a melhor e não foi isso que impediu o Governo de Sócrates de, em apenas dois meses e meio depois da tomada de posse, nomear 1094 pessoas para os mais variados cargos da Administração Central. Neste contexto, é fundamental não esquecer o discurso de contenção praticado pelo Governo. O mesmo discurso que parece ter sido esquecido no Orçamento Geral de Estado para 2006, no qual se verificou um astronómico aumento de 12,3 por cento nas despesas de funcionamento dos Gabinetes Ministeriais.
O PSD, pela voz do vereador Paulo Valdez, tem acusado o presidente da Câmara de Setúbal de ter assessores e colaboradores políticos, como se tal fosse um crime e esquecendo que, nesta história, o político é ele e o colega de bancada, Fernando Negrão. O mesmo tem feito o vereador Ilídio Ferreira, em tempos nomeado para a administração do Porto de Setúbal na vigência de um Governo PS.
A propósito de Fernando Negrão, e já que a questão é colocada nestes termos pelo PSD, uma simples consulta ao Diário da República de Agosto de 2004 revela que o actual vereador social democrata nomeou, quando foi escolhido para Ministro da Segurança Social do Governo de Santana Lopes, só para o seu gabinete, sete adjuntos, quatro assessores, 15 secretárias e três motoristas. Faça-se as contas a 2700 euros por cabeça, o salário médio indicado por várias fontes para os cargos de assessor e adjunto, acrescente-se 450 euros para despesas de representação e teremos um interessante número. É, porém, importante afirmar que, obviamente, um Ministro necessita de ter apoio de gente em quem tem confiança política e em quem reconhece capacidade técnica e, nesse contexto, Negrão não fez nada de extraordinário, assim como não o fez Carlos de Sousa. O problema é que o PSD, aparentemente, apenas reconhece aos seus o direito de ter pessoal para os apoiar nas suas tarefas políticas.
Estamos, pois, e mais uma vez, perante um caso de pura demagogia e achincalhamento político, tão ao gosto das estruturas locais do PSD e do PS, os dois partidos responsáveis, nos últimos 25 anos, pela intensa partidarização do aparelho de Estado pelas acções que conduziram as finanças públicas ao actual estado.
Da próxima vez que falar de assessores da Câmara Municipal de Setúbal bem podem Paulo Valdez, Fernando Negrão e Ilídio Ferreira mandar proteger as largas áreas vidradas que lhes servem de ténue protecção .
Ricardo Botas
Eleito da CDU no Executivo da Junta de Freguesia de São Sebastião














