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Quotidianos

Não dá uma lição quem quer, só quem sabe!Por Nuno Banza

Para alguém como eu, que se especializou nas áreas da engenharia, e aprendeu a tratar por “tu” os números, mais até do que às pessoas, esta será uma lição inesquecível. Ela foi dada pela Alíne, que hoje nos deixou. Uma pessoa extraordinária, que se tornou numa amiga no mesmo dia em que se tornou nossa Professora, não tendo por isso deixado der ser até hoje – e não deixará nunca de o ser!

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Por Jornal Rostos

Quando era estudante, sempre me fez muita confusão copiar e por isso não fui daqueles que se especializou em técnicas de transposição dos textos directamente dos cadernos ou dos livros para os testes, “sem passar pela cabeça e sem ocupar os neurónios.” Alguns dirão que fui estúpido, outros que fui sério. Eu digo apenas que não aprendi a copiar e por isso não copiei. Mas muitos dos meus colegas não faziam assim, e não vinha dai mal nenhum ao mundo.

Tinha já aí uns 12 anos de carreira estudantil, e porque escolhi como área temática de estudo a Cientifico-Natural, tive como disciplina de opção, Psicologia. Tratava-se, como penso que hoje ainda se trata, da introdução à Psicologia, onde, entre outras coisas, nos ajudavam a entender algumas siglas como Ego ou Superego. A parte mais interessante e que nos prendia de forma invulgar é que, ao mesmo tempo que as aulas ditas normais decorriam, escrevíamos uns textos e fazíamos uns exercícios engraçados, desenhos com esferográficas, e não com lápis de cor ou de cera, ou escrevíamos os nossos nomes e assinávamos papeis só para a Professora levar para casa, aparentemente sem que isso se reflectisse nas nossas notas intercalares ou finais. Os tais papéis não chegaram a voltar às nossas mãos, mas um dia, talvez lá para meio do primeiro período, tivemos uma aula diferente. A Professora resolveu falar connosco durante os 50 minutos da aula, sobre como a escrita ou a expressão do traço, pode reflectir características individuais e com isso ajudar os psicólogos a traçar o perfil de cada um de nós. Mas o que mais me impressionou, e que tenho a certeza que aconteceu com a maioria dos meus colegas, foi que, socorrendo-se de algumas notas, foi apontando a cada um, características que havia identificado nas tais folhas que nos tinha pedido para levar para casa, alguns dias antes. A mim, apontou-me como característica a determinação, facto que na altura não correspondeu logo à minha percepção, mas que algum tempo mais tarde fez todo o sentido. A outros foi apontando diferentes características e no final disse que tinha conseguido traçar o nosso perfil, o que nos agradecia porque lhe permitia a ela exercitar-se. Eu achei sinceramente que aquilo era “música”. Meia dúzia de linhas e de desenhos, aliados a umas conversas com os alunos já lhe dava para ter um perfil de cada um – tretas!

Lá para o meio do segundo período, durante um teste da disciplina, e sem que nada anteriormente fizesse prever aquele acontecimento, a Professora resolve sair da sala, sem dizer uma palavra, deixando-nos completamente sozinhos. Ora está bem de ver a cena. Dois minutos depois da sua saída a confusão era geral, os testes andavam todos de mesa em mesa, os “famosos” por serem os melhores desdobravam-se em repetições das suas respostas e alguns onde eu me incluía, iam escrevendo o que sabiam, com algumas dicas do que iam ouvindo no meio da berraria, à espera do que se passaria quando a professora voltasse a entrar. Não passaram mais de 5 minutos, tempo que a uns pareceu enorme e a outros apenas um instante. Ao entrar de novo na sala, a Professora não fez qualquer comentário, no entanto toda a gente se silenciou quase por completo. Ela não proferiu uma única palavra, apenas se limitou a abrir o jornal que trazia consigo e começou a ler, sentada na sua mesa. Quando o tempo acabou, entregámos os testes e saímos da sala, sem que ninguém tivesse sequer coragem para qualquer tipo de comentário.

Aguardámos vários dias pela entrega dos testes, facto que trazia sempre alguma ansiedade. A aula de entrega daqueles testes foi sem dúvida das aulas que nunca esquecerei, e note-se que terei tido, nos cerca de 20 anos de aluno, certamente uns milhares largos de aulas. As notas eram péssimas, quer dizer, não havia nenhuma negativa, mas a mais alta era um dezasseis e a maior parte, tirando mais duas ou três, eram todas dez. Eu tive treze, o que me surpreendeu verdadeiramente. A explicação deixou todos sem coragem para abrir a boca, não só os que tinham copiado, como os que tinham deixado copiar, como até os que, como eu não estando em nenhuma das situações, também não eram seguramente inocentes. “Uma vez que decidiram fazer os testes em conjunto, embora eles fossem individuais, e tendo a consciência de que, olhando cuidadosamente para cada um deles, apenas alguns se destacam por terem sido escritos apenas por um autor, e ao mesmo tempo sabendo do que a turma no seu todo é capaz, tive a difícil tarefa de distribuir as pontuações de cada pergunta, de forma a ser o mais justa possível com todos, e com cada um ao mesmo tempo.” Não vos asseguro que tenham sido estas as palavras exactas, mas o sentido foi rigorosamente este.

Algum tempo depois em conversa mais descontraída, como era aliás sua prática em todas as aulas, revelou-nos que não iria considerar as notas daquele teste para a média do período. A notícia deixou-nos naturalmente satisfeitos, mas a verdade é que aquele teste tinha já tido o seu mérito. Percebemos que não valia a pena copiar, mas o mais importante ainda, foi que a Professora nos ensinou que uma das grandes utilidades da psicologia é que podemos saber que aconteceram muitas coisas sem as vermos acontecer. E se percebermos isso, podemos ajudar as pessoas de uma forma mais útil e com melhores resultados.

Para alguém como eu, que se especializou nas áreas da engenharia, e aprendeu a tratar por “tu” os números, mais até do que às pessoas, esta será uma lição inesquecível. Ela foi dada pela Alíne, que hoje nos deixou. Uma pessoa extraordinária, que se tornou numa amiga no mesmo dia em que se tornou nossa Professora, não tendo por isso deixado der ser até hoje – e não deixará nunca de o ser!

Quando um Amigo morre, uma flor nascerá no seu lugar. Amanhã irei procurar essa flor.

Até sempre, Amiga!

Nuno Banza

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