Poesia: na Imagem, nas PalavrasPor Manuela Fonseca

Por Jornal Rostos
Começo por saudar estes dois produtores de Arte, bem como o prazer e sofrimento que nos oferecem através do cruzamento exemplar dos seus trabalhos. E, encontrando-me aqui com muito gosto (fá-lo-ia, certamente, da mesma forma, sentada noutra cadeira), ocupo, aliás com orgulho, se alguém finge substituir alguém, o lugar do meu querido amigo, colega, conterrâneo, coetâneo, José Victor Adragão, que, não tendo o dom da ubiquidade, está em Angola em serviço e registou, no Prefácio de Diabolações, estas palavras modelares a propósito deste projecto feito obra da Alice e do Luís: “E inventam uma palavra cheia de ressonâncias gregas para exprimir essa mesma intenção. ´Dìabolein`é o verbo que significa a acção de lançar para o mundo, através do mundo, sem procurar qualquer alvo, sem outra preocupação para além do próprio lançamento, sem pretensões de atingir qualquer objectivo.” (página 5). E reflicto acerca de ter a Arte o seu próprio objectivo, tão simplesmente o de ser Arte.
E eu, amante de palavras e de imagens, olho para a fotografia, famosa há décadas, de Arthur Sasse, num inesquecível momento de boa disposição de Einstein em dia de aniversário, que tornou perene a imagem do cientista. Que, pela mão e o ponto de vista de Sasse, parece um de nós, é como nós e connosco se funde. Faço o mesmo com a de Alberto Korda, o fotógrafo Cubano que, em Março de 1960, imortalizou em Havana o guerrilheiro “Argentino e Cubano”, como diz(ia) a canção revolucionária acerca de Ernesto “Che” Guevara. E encaro, numa parede da minha sala, a memória/reinterpretação que da mesma Maria José Brito e Fernando Pinho elaboraram para a memória desse símbolo de Liberdade que, trinta anos após a bárbara morte que o imortalizou, a Escola Superior de Educação de Setúbal, homenageou, num dos nossos Encontros à Quinta.
Leio um excerto de António Sousa Pereira, jornalista e escritor, amigo-irmão que, no seu livro mais recente, Sentido da Paisagem, refere, na página 93, o que Augusto Cabrita, mestre entre os mestres, lhe legou pela arte que fez com a máquina que figurou e reinterpretou a realidade:
“Fixar o instante. A escultura do momento. A luz. A contraluz. A cor que dá dimensão ao espaço. O colorido. O preto e branco. A sombra.
(…) O homem, centro de todas as cores. O ponto. A perspectiva. A objectiva.
O lugar.”
Sigo, emocionada, em Diabolações, as palavras e as imagens que se complementam, interpenetram, recriam, pelas mãos hábeis de Alice S. Vieira, nas primeiras, de Luís F. Costa, nas segundas: uma tessitura em que as letras, os corpos, as paisagens, os objectos significantes das/nas vidas dos dois autores passam a figurar, também, nas nossas vidas, reinterpretadas, amadas, parte dos sonhos, sentimentos e quotidiano que com eles queremos partilhar, tornar duradoiros.
Ser poeta, ser fotógrafo é ser produtor, inventor de vida, de esperanças, gerador de anseios mesmo quando os tempos são confusos como estes que o Mundo e o País atravessam, quiçá como outros que o Homem, com e pela História, com e pela Cultura, com e pela Arte, suportou, guardou e superou.
Natureza geométrica, umas vezes com arestas que nos ferem, outras com formas acolhedoras, com cores que nos desesperam e, ou, nos aquietam, irmanando os seres e os seres com as construções de que são capazes, numa harmonia com o discurso dos signos linguísticos, por vezes violentos, outras doces: hipérboles, metáforas, antíteses, sinestesias, aliterações que nos inquietam e nos encantam pela esperança e pela tranquilidade. Poesia como acto lindo, nas palavras e nas fotografias que fazemos nossas, que, de vez em quando, detestamos porque nos arranham, que quase sempre amamos porque nos acariciam.
Para lermos/interpretarmos, recortarmos, emoldurarmos, imitarmos e ficarmos mais ricos na nossa visão ontológica e cósmica dos Homens, da Natureza e das coisas. Pela Alice e pelo Luís que, incomodando-nos e aconchegando-nos, nos gritam e sussurram que a Arte é sempre um ponto de encontro. Pelas mãos talvez em desespero da fotografia da página 24, pelas perplexidades do poema que, na página seguinte, assim termina e nos motiva para exigirmos da Alice e do Luís novo livro em cooperação para voltar a juntar-nos:
“Esperando que a morte lhe ceife a vida,
De fé perdida,
Deixa a luz do sol, ficando na sombra da noite…
Pensando na vida…Pensando na morte…”
Setúbal, 5 de Maio de 2006
Manuela Fonseca














