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Quotidianos

Teatro de Ensaio do Barreiro: uma ReferênciaPor Manuela Fonseca

Começo por afirmar que o TEB foi companheiro da minha vida cultural logo nos anos sessenta. Os seus espectáculos, no Clube 22 de Novembro, enchiam a acolhedora sala dessa instituição, das mais finas que terá havido no Barreiro, destruída, já depois do 25 de Abril, por um incêndio, misterioso, ou talvez não, como todos os incêndios.

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Teatro de Ensaio do Barreiro: uma Referência Por Manuela Fonseca

Por Jornal Rostos

O Teatro de Ensaio do Barreiro, aí instalado, desenvolvia em nós o amor pela arte do genial Talma, o gosto pela figuração de excelência que a companhia nos dava, o sentimento de orgulho porque a vila operária em luta contra a ditadura (e por isso riscada da comunicação social com o tristemente célebre lápis azul da censura) passava, através dele, mensagens que faziam o seu caminho na coragem de levar à cena peças que nos ensinavam as vivências democráticas, o sentido da liberdade, social e individual, o desejo, irreprimível, de o alcançarmos.

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”: passaram-se quatro décadas sobre o dia, primeiro, em que os saudosos pais me levaram ao TEB, mais de três sobre a queda do fascismo em Portugal. As vidas das pessoas modificaram-se, feliz e obviamente para melhor, gerações amadureceram, foram substituídas por outras, na lei imutável da natureza, e, caso extraordinário, o TEB tem continuado, com mais ou menos dificuldades, a empresa que o move.

Por um destes dias fugi da secretária, do computador, da caneta, do lápis e, sobretudo, do Mundial de Futebol Alemanha 2006 (sou uma apaixonada e estudiosa do fenómeno mas quando, por negócios que pretendo continuar a desconhecer, mo tentam impingir, como agora, aborreço-me, entendo o modelo da competição afastado de humanidade e desligo a televisão) e fui com o meu marido à Oficina de Teatro Mário Pereira ver o TEB em A Sogra de Luís XIV, peça de Georges Feydeau que me agrada bastante como manifestação da Cultura Francesa.

Com me diverti com o cómico de situação, com os anacronismos sob vários pontos de vista, mormente os linguísticos, com as marcações exemplares que, como só ele sabe, Graciano Simões dá aos actores, com os elementos técnicos que são parte da vida da peça! Bati palmas com gosto redobrado: pelo espectáculo, pelo público a quem foi dedicado, estimulado para assistir a esta manifestação de criatividade pela sua Junta de Freguesia.

O TEB, os espectadores, o nome de Mário Pereira merecem melhores instalações, tal como acontece com o Arte Viva: um edifício de raiz que acolha as duas companhias. Os tempos são difíceis, segundo nos fazem crer, em Portugal e na Europa, para investimentos vultuosos em equipamentos culturais, não pelos vistos em futebolísticos excessivos (que dirão os responsáveis pelo Desporto Adaptado, militantes da vida que procuram alegrar quem às vezes sorri menos, dos quantitativos gastos em estádios de luxo, alguns, de acordo com o exemplo nacional, para rios de dinheiro na manutenção e passeio de insectos vários?!).

Aguardemos com alguma paciência (que remédio!) melhores dias – com a Arte, a Educação, a Saúde finalmente entendidas como as maiores geradoras dessas riquezas que são a formação e o bem-estar dos povos. Com dinheiro para investir nelas num Mundo Global que nós, Portugueses, ajudámos a surgir e queremos menos desigual. Para sedes das actividades dos realizadores de sonhos. Como o Teatro de Ensaio do Barreiro, o Arte Viva e outros que venham a ter a envergadura destes. Vê-las-ei?

Manuela Fonseca,
Junho de 2006

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