“De Londres ao Barreiro”Por Paulo Calhau

Por Jornal Rostos
Acabo de ler em “A Bola” que o Charlton Athletic homenageou na tarde de ontem no lendário estádio The Valley, o contributo de Jorge Costa, ex-capitão do FC Porto, que envergou a camisa vermelha do popular clube londrino durante seis meses.
Mais do que o valioso relógio de prata oferecido ao actual treinador-adjunto do Braga, merece particular realce o facto de cerca de trinta mil adeptos terem homenageado de forma tão calorosa, um atleta que esteve em terras de sua Majestade por um período de tempo tão escasso.
Estamos perante um feliz episódio, exemplo da cultura desportiva que na actualidade se “respira” em Inglaterra, onde os tempos sombrios do hooliganismo e da violência desportiva parecem cada vez mais distantes.
Sérias, rigorosas e consequentes medidas de controlo da delinquência (dentro e fora dos estádios), foram sendo concretizadas, sobretudo depois dos trágicos acontecimentos de 29 de Maio no Heysel Stadium de Bruxelas, quando Liverpool e Juventus se preparavam para disputar a final da Taça dos Campeões Europeus, corria o ano de 1985.
E o futebol britânico recuperou o seu esplendor, com adeptos fervorosos mas disciplinados, jogadores de grande qualidade e rija têmpera, treinadores de reconhecido mérito e carácter, árbitros qualificados e incorruptos, dirigentes competentes e responsáveis.
Todos são parte integrante do fenómeno futebolístico, mas os jogadores são, e muito justamente, os seus principais protagonistas.
Como é diferente neste particular, a realidade portuguesa, onde muitos dirigentes e árbitros, diletantes, mesquinhos e hipócritas (e sei lá que mais…), disputam quase todos os dias, e pelas piores razões, as primeiras páginas da comunicação social.
Mas lá com cá, longe vão os tempos em que muitos atletas faziam as suas carreiras vinculados quase exclusivamente a um só emblema e a uma só paixão clubista.
Recordo, da minha infância e adolescência, os exemplos dos Barreirenses Faneca, Lança, Bráulio, Serra e Luís Mira.
Em décadas pretéritas muitos outros tiveram semelhante percurso.
O caso porventura mais recente, se a memória me não atraiçoa, foi o de Álvaro, ex-defesa esquerdo e capitão, actual treinador-adjunto do Barreirense.
As festas de homenagem, simples na sua organização, invariavelmente frustrantes no retorno financeiro, mas profundamente genuínas no seu significado, surgiam no ocaso de uma vida desportiva feita quase sempre de muita dedicação e parca compensação monetária.
Pequenito (5-6 anos) mas já iniciado nas andanças da bola, lá fui entregar ao dedicado e competente Bráulio uma das singelas prendas que um pobre mas digno Barreirense lhe pôde então oferecer, como tributo a uma carreira digna e esforçada que o longilíneo guarda-redes percorrera na “vila operária”.
Hoje, os plantéis mudam a velocidade estonteante, a identificação dos atletas com os adeptos é efémera e anódina, a ingratidão e o esquecimento são recorrentes.
Também por isso, o exemplo de Charlton me parece interessante e paradigmático, muito belo e singular.
Paulo Calhau














