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Quotidianos

Carta aberta ao ex-Deputado Municipal Cláudio Anaia(Não é para rir, ele já fez mesmo parte da Assembleia Municipal)

Vou votar SIM porque acredito que o aborto clandestino é um flagelo da nossa sociedade e uma ameaça à saúde pública. Vou votar SIM porque estou convencido que ninguém escolhe interromper uma gravidez por capricho ou para retirar disso algum prazer sado-masoquista. Vou votar SIM porque considero que o meu principal dever Cristão é o de amar o próximo e não o de o julgar. Vou votar SIM porque estou farto de hipocrísias. Vou votar SIM porque não tolero que alguém se arrogue o direito de julgar os outros por delito de consciência.

7 min de leitura
Carta aberta ao ex-Deputado Municipal Cláudio Anaia (Não é para rir, ele já fez mesmo parte da Assembleia Municipal)

Por Jornal Rostos

Caro Cláudio,

Fiquei hoje a saber,através de um jornal local, que és mandatário nacional de um movimento designado "Aborto a pedido, Não". Quero que saibas que não fiquei surpreendido e que rejubilei por ver que o primeiro passo para a vitória do Sim no referendo sobre a Interrupção Voluntária da Gravidez está dado. A falta de Tino implícita no nome do movimento, compensada pela tua participação nele dá a todos os portugueses a esperança de uma vitória esmagadora do Sim.

Não faz qualquer sentido pressupor que a partir do referendo as mulheres portuguesas vão passar a fazer "aborto a pedido", porque fazer um aborto não é a mesma coisa que ir comer um bife à Portugália. Aliás, parece-me que desta vez, o movimento de defesa do Não em que tú participas, começou a deturpação daquilo que se está a discutir na escolha do próprio nome. Adivinha-se no horizonte mais uma campanha de mistificação deste tema e de imposição de tacanhices religiosas e beatices hipócritas. A discussão séria e elevada está em risco. Quero que saibas que, apesar disso, não me incomoda o que tú pensas e dizes ou venhas a dizer sobre este assunto, porque vou aceitar a tua opinião democraticamente, no entanto, quero também que saibas que a tua participação neste movimento e a tua elevação ao estatuto de mandatário nacional reforçou a minha convicção e me fez decidir que vou participar na campanha para este referendo em defesa do SIM, e vou participar a sério.

Pensei seriamente se escrever-te esta carta aberta não era dar-te demasiada atenção, conclui que esse é um facto irrelevante, uma vez que mesmo que eu não te escreva publicamente tú vais aproveitar todas as oportunidades que te aparecerem para te mostrares e fingires que és importante. É que, na campanha do Não, para as pessoas que te acompanham, tú és só um instrumento que eles vão usar para poderem dizer que têm com eles um ex-qualquer coisa do PS, regozijo-me por ver lá escrito o ex, porque indica que fazes parte do passado e não do futuro. E é da luta entre o passado e o futuro que nós estamos aqui a tratar. Do Passado em que se praticava o aborto clandestino em vãos de escada sem quaisquer condições e fora de qualquer controlo das entidades fiscais, políciais e de saúde pública, contra o Futuro em que as mulheres que têm de optar por esta dolorosa opção podem ter garantias mínimas de dignidade e a certeza de que não vão ser molestadas pelo estado por tomarem a sua opção de consciência.

Sei que pensas que as mulheres que recorrem à interrupção voluntária da gravidez são uma espécie de sádicas a quem dá prazer matar criancinhas. Estás errado. Estás redondamente enganado e queres passar o teu engano aos incautos e às incautas que encontrares pelo caminho.

Sou Cristão e sei que vais advogar que votar "Não" é uma opção religiosa. Estás errado. De acordo com a Bíblia, que penso que é o Livro que segues, Deus deu ao Homem o livre arbítrio, o que significa, na minha modesta opinião, que Deus não deve ter visto com muito bons olhos algumas instituicões que afirmam representá-Lo, tentar cercear o direito inalienável de cada um dos cristãos de fazer o que bem entender com a sua vida e votar no que considera correcto. Sei que vais afirmar que há um mandamento a dizer "Não matarás", mas vais ter de me provar onde é que começa a vida, e eu só vou acreditar se não me disseres que é no momento da fertilização do óvulo, porque uma massa de células a multiplicar-se não é vida humana. Vida humana é consciência, e tú vais ter de me demonstrar onde é que esta começa. De toda a forma, sei que me vais dizer que é pecado, mas é ai que nos dividimos, porque tú queres que seja o homem a castigar este pecado, e eu, prefiro que seja Deus, pois na Sua imensa sabedoria, ele conhece as razões de cada caso e na Sua imensa bondade vai perdoar aos justos. Tú, que queres que se julgue na terra aquilo que consideras iniquidades, não queres mais do que fazer-te passar por Deus. Deixa às pessoas que usem do seu livre arbítrio e façam as suas opções, se é tão certo que estão a pecar, não duvido que serão castigadas, mas serão castigadas por uma coisa que fizeram e não por uma que as proíbiram de fazer, porque houve uma dúzia de engraçadinhos que quiseram brincar aos deuses.

Fica a saber que vou votar SIM porque acredito que cada um deve ter o direito de decidir sobre o seu corpo e sobre o seu futuro. Vou votar SIM porque acredito que o aborto clandestino é um flagelo da nossa sociedade e uma ameaça à saúde pública. Vou votar SIM porque estou convencido que ninguém escolhe interromper uma gravidez por capricho ou para retirar disso algum prazer sado-masoquista. Vou votar SIM porque considero que o meu principal dever Cristão é o de amar o próximo e não o de o julgar. Vou votar SIM porque estou farto de hipocrísias. Vou votar SIM porque não tolero que alguém se arrogue o direito de julgar os outros por delito de consciência. Vou votar SIM porque acredito na Democracia, no Livre-Arbítrio e no Direito de Escolher.

Anaia, fica a saber que desta vez não vais estar sozinho na tua campanha pelo Não. Eu vou estar contigo a cada passo, a refutar as tuas opiniões e a contrariar as tuas afirmações, vou estar contigo a chamar-te à atenção de cada vez que proferires uma hipocrísia ou tentares enganar os incautos, vou estar contigo a lembrar-te que a fama não justifica tudo e que a vaidade também é um pecado mortal (aliás, querer fazer o papel de Deus também é).

Sabes que comigo por perto só contam argumentos sérios e que essa do "aborto para a mesa do canto" não vai pegar. Espero ver em breve uma tomada de posição da tua autoria devidamente fundamentada sobre este tema, (plágios e colagens de citações não valem), para que possa avaliar a seriedade do teu empenhamento nesta causa. Só não te convido para um debate porque não tenho paciência para te aturar, senão, certamente o faria. Em todo o caso podes estar certo de que não te vou deixar descansado e que te darei os teus quinze minutos de fama sem pestanejar, espalhando por toda a parte a minha avaliação dos teus argumentos, sempre que tomares posição relativamente a este tema.

Despeço-me, com a convicção de que os portugueses desta vez vão votar e que o SIM vai ganhar.

Um abraço amigo do,

Pedro Estadão

Cidadão defensor do SIM que não vai em grupos

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