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Quotidianos

Sim? Vamos a ver...Por João Medeiros

Por uma vez, até dou razão ao PCP. Uma simples votação na Assembleia da República teria resolvido a questão, com uma larguíssima maioria PS-BE-PCP. Assim como estamos, vamos lá a ver se o sim consegue ganhar.

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Por Jornal Rostos

Assiste-se hoje a um corropio de sondagens sobre o sentido de voto no referendo sobre o aborto e as percentagens pelo sim são formidáveis, acima dos 70 por cento!
É que estas mulheres não se aconselham no confessionário e se calhar nem temem a Deus. As outras... o mesmo Deus nos livre das beatas histéricas e das ratas de sacristia a desfilar nas ruas vestidas de branco, com a cruz em riste e cartazes com imagens de fetos mutilados, a assustar os eleitores com o fim do mundo. Só peço a todos os santinhos que esse mulherio não venha para cima de nós com os fantasmas que os padres lhes acordam na cabeça e muitos de nós, reconheça-se, têm tanta dificuldade em exorcizar.

O meu receio justifica-se porque o exército do sim prepara-se para cometer o mesmo erro do último referendo, em versão refrescada. No engodo de alargar a sua frente, formaram uma espécie de comissão de honra – digo eu, sem desprimor – em que pontificam representantes partidários. E desta vez até conseguiram captar deputados do PSD para fazer campanha conjunta. Devem andar contentíssimas, mas dá-se o caso de estes senhores pertencerem ao partido do governo que, com Paulo Portas em ministro, mobilizou meios de guerra para impedir a entrada em águas territoriais portuguesas do Barco do Aborto, o navio da organização holandesa Women on Waves. Que esperar de semelhantes aliados?

Os resultados do último referendo sobre o aborto já mostraram o que vale a velha pecha de procurar apoios à direita, de investir no prestígio que as instituições ainda conservam junto dos cidadãos despolitizados, de suavizar os termos da campanha para não afugentar os indecisos (há 7 anos, Sim à Tolerância foi um exemplo acabado do defensismo mais inapropriado).

Quem não vai em conversas é Fernanda Câncio, que, na sua colaboração ao blogue Glória Fácil (http://gloriafacil.blogspot.com/), se tem desunhado a bombardear quase sempre certeiramente os do não e os do sim, mas... e também os do sim, desde que... E é que há muitos todos cheios de reticências, ela é que os topa. Vale a pena dar uma vista de olhos.

A despenalização do aborto sem recurso a referendo era a proposta do PCP que, farto de conhecer o Portugal profundo, sabe muito bem que as forças ultraconservadoras trabalham apoiadas no desnorte dos mais atrasados e que toda a hierarquia da Igreja vai exercer contra o sim a sua acção dissuasora, quando não intimidatória. Ainda por cima, com recurso a meios poderosos que chegam mais longe do que quaisquer outros da esfera política, porque atingem a consciência da maioria católica e, dentro desta, dos mais indefesos, dos menos instruídos, essa maioria silenciosa que da última vez escapou à influência dos grandes partidos e seguiu a voz da Igreja. Por uma vez, até dou razão ao PCP. Uma simples votação na Assembleia da República teria resolvido a questão, com uma larguíssima maioria PS-BE-PCP. Assim como estamos, vamos lá a ver se o sim consegue ganhar.

Mulher todos os dias

Alguns dados sobre a condição feminina em Portugal só confirmam que ainda vivemos na barbárie e o problema não se resolve com belas palavras e boas intenções.

* As medidas do governo Sócrates para a Segurança Social agravam a situação e a discriminação das mulheres, segundo o economista Eugénio Rosa. Em 2005, a pensão média das mulheres reformadas correspondia apenas a 60 por cento da dos homens (434 euros mensais para os homens, 260 para as mulheres). E esta desigualdade não está diminuir: em 2005, para uma pensão média masculina de 547 euros, a das mulheres foi de apenas de 319 euros.

* Em 2005, o ganho médio de uma mulher, incluindo a totalidade do que recebe, correspondia a 77% do ganho médio de um homem. Além disso, parte desse ganho declarado à Segurança Social pelas empresas é maior no homem do que na mulher (83% para o homem e 80% para a mulher), o que agrava ainda mais aquela desigualdade (a remuneração declarada da mulher corresponde apenas a 74,5% da do homem).

* Em 1997, a massa salarial média dos trabalhadores a tempo completo rondava, para as mulheres, 104,6 contos da média mensal e, para os homens, 143,8 contos. Os sectores de actividade mais bem pagos para ambos os sexos foram a área financeira e a produção e distribuição de electricidade, gás e água. Os valores femininos foram, na primeira, 243,3 contos e os masculinos 299,5 contos. Na segunda, as mulheres atingiram 234,9 contos, mas os homens superaram-nas, com 243,3 contos.

* A diferença salarial entre mulheres e homens desceu ligeiramente nos últimos 12 anos de 23,8% em 1992, para 22,6% em 2004, um valor ainda bastante elevado. No entanto, Portugal possui uma das mais altas taxas de actividade feminina na Europa, cerca de 52% (em 1930, em cada 100 mulheres, apenas 17 trabalhavam fora de casa).

* Na política, as mulheres representam só 17,8% entre os deputados da Assembleia da República e há apenas duas mulheres entre os 16 ministros do actual Governo.

João Medeiros
Professor - Economista

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