A encarnação do PCP/CDUPor Humberto Candeias

Por Jornal Rostos
Em artigo recente no rostos José Encarnação num registo que lhe não é habitual assume a defesa da gestão do PCP/CDU no distrito e em particular no Barreiro, encarnando esta força política até no estilo e argumentário. A propósito de um outro artigo que escrevi no mesmo jornal sobre as cidades do Distrito de Setúbal e as políticas locais, J.E. com o pretexto de o rebater aproveita para lançar um ataque à intervenção do Bloco de Esquerda na Assembleia Municipal do Barreiro sem qualquer fundamentação ou argumentos políticos. É absolutamente surpreendente e inesperado que num artigo do J.E. em vez da apresentação dos seus argumentos e pontos de vista ou da contradição dos pontos de vista que discorda, enverede pelos juízos de valor sistemáticos.
O debate sobre os temas e iniciativas na Assembleia Municipal são bem vindos.
Quer o José Encarnação debater seriamente as propostas e posições assumidas pelo BE na Assembleia?
Quer discutir a proposta do BE para que o executivo submeta a apresentação dos nomeados para cargos directivos na C.M. à Assembleia Municipal? Não apenas a formulação da iniciativa do BE, mas qualquer outra que leve ao conhecimento dos deputados e da comunidade as escolhas e as razões dessas escolhas para os cargos directivos?
Quer discutir o voto do BE contra o orçamento bem como o debate decorrido na AM?
Quer discutir as posições assumidas pelo BE na Assembleia Municipal em relação à participação, ao pólo Ferroviário ou outro assunto qualquer discutido na Assembleia?
Ou prefere ficar pelo seu registo de que o BE não sabe do que fala, de que a bota não bate com a perdigota, de que é superficial e outros elevados mimos não concretizando rigorosamente nenhuma posição do Bloco na Assembleia Municipal.
A apreciação e generalização de J.E. sobre a intervenção do BE na A.M., não corroboram a sua auto proclamação de não sectário. Antes pelo contrário.
Eu acharia naturalíssimo que discordasse de posições do BE, mas tenho dificuldade em interpretar uma desqualificação genérica da intervenção do BE na AM, quando parece reunir algum consenso que a inclusão do BE na AM enriqueceu o debate. A ideia de que “ servem todos os argumentos para atacar a PCP/CDU” releva de uma posição de defesa instintiva, determinista, partidocêntrica, afastando-se naturalmente da realidade.
Acaso o J.E. sabe que o BE votou favoravelmente na Assembleia Municipal do Barreiro a maioria das iniciativas apresentadas pela CDU?
Sobre o trabalho do Expresso adianta algumas observações no mesmo sentido das referidas no artigo que escrevi, nomeadamente a subjectividade. Como referi não se trata de um estudo científico, mas tem interesse e oportunidade analisar as conclusões do trabalho. A discussão e revisão do PDM faz deste debate uma necessidade. É salutar existirem perspectivas diferentes sobre o mesmo. Compreendo que o J. E tenha preferido outro artigo no mesmo jornal a propósito do mesmo estudo e que se intitulava “ Será que um dia o Barreiro deixará de ser vitima dos preconceitos ?”
O meu artigo era precisamente contra esta perspectiva de vitimização tão cara ao PCP/CDU expressa nas últimas 3 décadas no endosso sistemático das responsabilidades para os Governos a nível central, como se eles próprios não tivessem sido os governos locais com responsabilidades na administração das cidades. Relativamente a alguns pontos específicos assinalados por J.E. como a especificidade do movimento associativo e a administração do território partilhada por várias entidades considero que têm relevância serem considerados e são perspectivas omissas no trabalho do Expresso. Já relativamente às conclusões sobre a fluidez de tráfego e o facto do Barreiro ficar à frente de Lisboa e Porto não me parece susceptível de qualquer surpresa ou apreço tendo em conta a situação limite a que chegaram essas cidades. Sobre os indicadores de aferição da cidadania seria necessário um artigo para discutir o tema e pode ficar para aproxima ocasião.
O essencial do artigo de J. E., além deste breve registo do seu conforto pela perpetuação da estratégia da vitimização, é o tema fulcral do artigo “ Gostar do Barreiro”.
A lógica maniqueísta do José Encarnação neste artigo, muito típica do PCP e na génese do caciquismo merece toda a atenção e análise.
A dada altura sobre a fragilidade dos argumentos que têm por base a naturalidade das pessoas numa discussão aquiesce, mas imediatamente cai no maniqueísmo do gostar ou não gostar do Barreiro, considerando que neste caso deve haver lugar à definição de uma fronteira entre os que gostam e os que não gostam do Barreiro. Esta preciosa distinção que coloca os cidadãos do Barreiro em dois níveis, com graduação diferente no peso dos seus argumentos a partir da sua posição “afectiva”, não é estruturalmente diferente, das distinções baseadas em categorias distintas a que as pessoas pertençam, como o local de nascimento, o sexo, a cor da pele, etc. Sublinhe-se ainda que esta nova categoria da posição afectiva como argumento face ao objecto de discussão não é objectiva e presume-se que J.E. resolverá este pequeno problema decidindo ele quem gosta ou não gosta do Barreiro.
O maniqueísmo expresso quer em fórmulas antigas como a, os da terra e os de fora, os nossos e os outros, os bons e os maus, quer em fórmulas actuais como os que gostam ou não gostam do Barreiro, continua vivo nas forças políticas do Barreiro, e constitui na minha opinião uma das razões do atraso do Barreiro, do seu isolamento e das dificuldades de cooperação entre entidades locais e bem como com o exterior. O debate e discussão movidos por esta lógica serão sempre redutores e difíceis.
As opiniões e ideias de quem gosta ou não gosta do Barreiro devem valer por elas próprias e todas têm o mesmo valor à partida. O caciquismo com selo afectivo é ainda caciquismo.
No seu artigo, ainda que não esteja explícito, nem é necessário ser bom entendedor, depreende-se que na opinião do J.E. eu não gosto do Barreiro. Como já se percebeu pela minha exposição considero que ninguém tem de fazer prova de amor ao Barreiro para expender opinião. Tão pouco aceito a distinção entre opiniões de 1ª e de 2ª com base numa suposta relação afectiva com o Barreiro. Mas porque começa a fazer escola esta ideia de que quem critica não gosta, despreza, não tem respeito, não contribui para “melhorar a imagem do Barreiro”, nomeadamente pelo presidente da Câmara Municipal do Barreiro em intervenções na A.M., importa revelar-lhe um segredo.
José Encarnação por estranho que lhe pareça eu gosto do Barreiro. Podia enviar-lhe as fotografias deste caso, que confesso aqui, dado que ninguém está a ouvir, tem cerca de 40 anos. Quando se critica, se escreve, se participa na política, no trabalho, no dia a dia, fazemo-lo com dedicação, atenção, com o nosso tempo e estamos naturalmente envolvidos afectivamente com a nossa comunidade, a nossa cidade.
E como sabe em todas as relações sérias e duradouras amar não basta.
Beijinhos
Humberto Candeias
Bloco de Esquerda Barreiro














