Saltar para o conteúdo
Quotidianos

“Os caramelos de Ayamonte”Por Paulo Calhau

A notícia corria por aí, tímida e insinuante, mas parece ser agora pública e verdadeira: António de Oliveira Salazar foi o mais votado na 2ª fase de “Os Grandes Portugueses”.
A escolha dos telespectadores vale o que vale, não tem substrato científico, dispensa conclusões apressadas, mas não deixa de merecer alguma reflexão e perplexidade.

3 min de leitura
“Os caramelos de Ayamonte” Por Paulo Calhau

Por Jornal Rostos

Quem são os portugueses que deram esta posição de liderança ao principal protagonista de um regime anti-democrático, ditatorial e totalitário que nos oprimiu quase cinco décadas?
- os milhões de portugueses que no 1º de Maio de 1974 ― já os contornos da “Revolução dos Cravos” estavam mais claramente definidos ― saíram às ruas e praças para festejar a Libertação?
- os que sofreram, directa ou colateralmente, os efeitos da repressão fascista ― prisão, exílio, deportação, tortura, … ?
- os que estiveram ― ou quase lá foram parar ― em África, numa Guerra Colonial, tão estúpida e destemperada nos seus objectivos, quão ruinosa e devastadora para o nosso desenvolvimento?
- os que cresceram em escolas unisexo e pretensamente disciplinadas?
- os que não puderam ver os seus filhos aceder a uma Universidade tendencialmente classista e elitista?
- os que se obrigaram a falar em surdina e a sintonizar “ondas curtas”?
- os que não puderam ler Gorki, ouvir Gainsbourg, ver Buñuel?
- os que regressaram de Ayamonte, com os caramelos e as garrafas “contadas”?
Claro que não!

Para avivar a memória (ou aprender a História), nada como ler Fernando Dacosta em “Máscaras de Salazar (Edição Casa das Letras) ― retrato culto e inteligente de um Portugal amordaçado, triste, pequenino, mesquinho, pobre, deprimido, isolado.

Mas…
Álvaro Cunhal terá sido a 2ª personalidade mais votada!
Mais do mesmo…

Ocorre-me sugerir a leitura de “Stasiland – do outro lado do muro de Berlim” (Prémio Samuel Johnson 2004 – Editora Civilização) de Anna Funder e de “Gulag – uma história” de Anne Applebaum (Prémio Pulitzer 2004 – Editora Civilização).
Dois excelentes livros, como tal reconhecidos e justamente premiados, recentes e convincentes, que nos demonstram e elucidam, mais uma vez, a perfídia, monstruosidade e perversidade dos extintos regimes “socialistas” de leste.
Afinal… dois novos e peculiares testemunhos que desenvolvem e amplificam o nosso conhecimento acerca de métodos e factos que outros anteriormente divulgaram a propósito da deriva totalitária da “Revolução de Outubro”.

Os portugueses votaram desde Abril de 1975, maciça e repetidamente, nos partidos políticos que representam o pensamento democrático ― socialdemocrata ou liberal ― da Civilização Ocidental.
Por isso recusaram as ditaduras ― a fascista e as outras…
Assim mergulhámos na Europa, bebemos da Europa, aprendemos com a Europa.
E nos reconciliámos com os valores de Liberdade, Fraternidade e Igualdade.
Os regimes totalitários ― fascistas e comunistas ― mentiram, amordaçaram, oprimiram, torturam, mataram.
E não voltarão mais à Europa, à minha Europa, à nossa Europa.
Por isso se estranha!
Esta nostalgia pelos ditadores e pelas ditaduras…
A morte livrou-nos dessas criaturas, mas os seguidores das suas ideias e praxis ― sombrias, cinzentas e tenebrosas ― ainda espreitam…
Não passarão!!!

Paulo Calhau
BICOdePENA, 28 de Janeiro de 2007
(paulocalhau@netcabo.pt)

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção