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Quotidianos

“O Público de JMF”Por Paulo Calhau

De forma surpreendente para alguns, mas reveladora de uma inquestionável seriedade e inteligência dos seus accionistas, o Público tem conseguido uma pluralidade assinalável, com um suave e distinto perfume de esquerda, que o caracteriza e diferencia.

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“O Público de JMF” Por Paulo Calhau

Por Jornal Rostos

Mário Mesquita (MM), jornalista e professor universitário, vai brevemente assumir funções executivas na Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD).
Ao longo das últimas três décadas, habituei-me a ler com imenso interesse e prazer, as peças jornalísticas de MM, nomeadamente enquanto director do Diário de Notícias e, a partir de 1998, como cronista do Público.
Desde 1991, ano da sua fundação, sou um leitor fiel e atento do diário da SONAE, dirigido primeiro por Vicente Jorge Silva ― controverso e excêntrico, genuíno e talentoso ― depois, e ainda hoje, por José Manuel Fernandes (JMF).
Em 1999, na República Checa de Milan Kundera e Vaclav Havel, conheci António Curvelo, jornalista e crítico de Jazz do Público. No Hotel Atrium da bela Praga, em amena e agradabilíssima conversa, o meu interlocutor salientou a grandeza do projecto editorial que então integrava. E que, em sua opinião, apenas limitações financeiras que permitissem um outro empenhamento no jornalismo de investigação, o impediam de se situar na linha da frente dos grandes diários europeus.

Apesar de não me rever, com alguma frequência, no conteúdo dos editoriais de JMF, reconheço que o seu papel enquanto director do Público tem sido ― numa realidade particularmente difícil para a imprensa escrita de referência ― genericamente positivo.
Todavia, as dificuldades económico-financeiras do jornal de Belmiro de Azevedo, acentuam-se a cada ano, a reestruturação em curso parece constituir uma ameaça séria para a sua qualidade editorial, que um restiling gráfico ― em vias de ultimação ― poderá não saber disfarçar.
E isso, como leitor desde o número inaugural, deixa-me notoriamente expectante e preocupado.

Bem sei que a globalidade dos outros projectos jornalísticos mais sérios e qualificados da imprensa europeia vivem momentos de enorme complexidade económico-financeira.
O francês Libération, será neste aspecto o exemplo mais evidente das dificuldades do passado recente, do presente e do futuro da imprensa diária ― dita de referência. Em que a aquisição de capital social das empresas jornalísticas por grandes empresários ou grupos financeiros, parece constituir uma inevitabilidade, mas que comporta simultaneamente riscos de independência editorial facilmente perceptíveis.
De forma surpreendente para alguns, mas reveladora de uma inquestionável seriedade e inteligência dos seus accionistas, o Público tem conseguido uma pluralidade assinalável, com um suave e distinto perfume de esquerda, que o caracteriza e diferencia.

Uma contenção de custos ― nomeadamente em termos da dimensão quantitativa e qualitativa do seu corpo redactorial e de colaboradores ― dolorosa e com consequências presumivelmente funestas para a qualidade do jornal, surge como inevitável para o seu reequilíbrio orçamental.
Mas menos agradável, e algo perturbadora, é a notícia que decorre da informação hoje fornecida por MM na sua crónica dominical. JMF tê-lo-à questionado acerca da presumível incompatibilidade entre as próximas funções executivas na FLAD e a continuidade da sua colaboração no Público.
Antecipando a resposta do Conselho de Redacção ― que JMF prometeu inquirir ― MM cessou de imediato a sua colaboração semanal, revelando, por uma outra vez, enorme dignidade intelectual.

Cada vez mais pró-americano ― e já bem antes da invasão do Iraque ― JMF quis ser “mais papista que o Papa”. Poderá ter as suas justificações para a atitude que tomou, mas a esta distância, a sua posição parece pouco consistente, de invulgar ambiguidade e credibilidade muito duvidosa. E não augura ventos favoráveis...
Oxalá que o novo Público de 12 de Fevereiro tranquilize a inquietação que agora me percorre.
Oxalá…

Paulo Calhau
BICOdePENA, 04 de Fevereiro de 2007
(paulocalhau@netcabo.pt)

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